Cantora da Calcinha Preta teve fígado lesionado por substâncias para emagrecer

Paulinha Abelha teve quadro complexo de saúde associado à falha grave no órgão responsável por metabolizar e eliminar substâncias tóxicas do corpo

Por Redação Oeste Mais

08/03/2022 16h25 - Atualizado em 08/03/2022 16h25



Um fígado debilitado por um mix de substâncias tomadas para dormir, ficar alerta, ganhar definição muscular e, principalmente, emagrecer pode ser a principal chave para entender o quadro que terminou com a morte da cantora Paulinha Abelha, vocalista da banda Calcinha Preta, de 43 anos.

 

O resultado da biópsia e de um exame toxicológico, além da lista de medicamentos receitados para a cantora antes da internação, foi divulgado nesta segunda-feira, dia 7.

 

O exame mostrou lesão hepática aguda com necrose. O fígado da cantora estava fortemente debilitado, com áreas mortas. Além disso, tinha retenção de bile no fígado (colestase). O fígado, entre outras funções, é responsável por eliminar substâncias tóxicas por meio justamente da bile. O laudo não crava, mas diz que as lesões são compatíveis com as provocadas por medicamentos.

 

O exame toxicológico no corpo da cantora teve resultado positivo para duas substâncias: anfetaminas (remédios que agem no cérebro aumentando estado de alerta e que têm efeito sobre o apetite) e barbitúricos (sedativos e calmantes). Porém, deu negativo para outras dez substâncias, incluindo drogas.

 

O receituário assinado por uma médica nutróloga indicava um conjunto com sete medicamentos ou fórmulas. Ao todo, eram 18 substâncias usadas. Na análise dos especialistas consultados pelo g1, o foco dessa lista era inibir a absorção de carboidratos, gordura, atuar no humor, no sono e apoiar nos treinos físicos para ganhar passa muscular.

 

A avaliação geral de dois hepatologistas e uma nutricionista após analisarem os laudos e os itens que constam na receita é: "O principal a apontar é essa "salada de compostos" na receita. Com uma certa frequência eles interagem entre si e podem resultar em danos sérios ao fígado", avalia Mário Kondo, professor adjunto de gastroenterologia da Unifesp e hepatologista do Hospital Sírio-Libanês de São Paulo.

 

Para Vanderli Marchiori, nutricionista e fitoterapeuta com especialização em medicina complementar "sem dúvida alguma, era uma pessoa que tomava remédio para dormir e para acordar. E para se manter magra o tempo inteiro. E, infelizmente, talvez até de acordo com o tempo de uso, o organismo não deu conta", afirma Vanderli.

 

O hepatologista Raymundo Paraná, professor titular da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e membro da Sociedade Brasileira de Hepatologia, avalia a situação.

 

"A intoxicação por fórmulas (para emagrecer) eu vejo com frequência no SUS e na clínica privada. A frequência é assustadora. Felizmente, a imensa maioria evolui bem com a suspensão. Só poucos tem desfechos gravíssimos", afirma Paraná.

Paulinha Abelha morreu no dia 23 de fevereiro após complicações na saúde (Foto: Divulgação)

Quais os remédios e substâncias tomadas por Paulinha?

 

A receita com sete tópicos tinha três dedicados a medicamentos alopáticos (da medicina tradicional, normalmente agem produzindo efeitos contrários aos da doença, por exemplo, antidepressivos ou antibióticos).

 

Para além dos remédios tradicionais, a lista tinha uma série de suplementos alimentares, extratos de plantas e fitoterápicos (obtidos de plantas medicinais ou de seus derivados, utilizados com finalidade profilática, curativa ou paliativa).

 

Para que servem as substâncias e os medicamentos receitados?

 

Os remédios listados tinha como função regular o humor, sono e apetite. Entre os tradicionais, o primeiro da lista era o bupropiona, um antidepressivo que costuma ser usado em tratamentos para deixar de fumar, mas ela também é eventualmente receitado por atuar contra a compulsão por doces, segundo Vanderli Marchiori.

 

"O perfil de segurança é bem satisfatório para o seu uso isolado, mas tem muitas interações medicamentosas perigosas. É preciso cautela quando é usado com outras medicações", alerta o hepatologista Raymundo Paraná.

 

Outro remédio alopático da lista é o venvance, usado para tratar hiperatividade e déficit de atenção, mas que também pode ser aplicado em tratamento contra transtorno alimentar. É da classe das anfetaminas, substância que apareceu positiva no laudo.

 

"Pode causar agressão hepática, mas não é habitual se usado isoladamente. Tem muitas interações medicamentosas nefastas sobretudo com antidepressivos. Pode causar arritmia e não deve ser usado em pacientes com insuficiência renal", explica o hepatologista Raymundo Paraná.

 

Por fim, o Orlistat fecha a lista dos remédios tradicionais voltado especificamente para o emagrecimento: age no intestino. Ela inibe uma enzima produzida no pâncreas, a lipase, que faz a ingestão de gorduras. Isso faz com que cerca de 30% da gordura ingerida na alimentação seja eliminada nas fezes.

 

"Seu efeito adverso é a perda de continência, eliminando gorduras através do ânus. O indivíduo pode passar por situações vexatórias, por isso o próprio paciente diminui a ingestão de alimentos gordurosos. Em relação ao fígado é muito seguro, mas tem casos de hepatite.

 

Na outra metade da lista o foco das outras quatro fórmulas e suplementos era:

 

acalmar, reduzir estresse e ansiedade;

ajudar no combate da insônia e a manter a atenção;

impede a absorção de carboidrato;

ganho de massa muscular.

Com informações do g1


COMENTÁRIOS

Os comentários neste espaço são de inteira responsabilidade dos leitores e não representam a linha editorial do Oeste Mais. Opiniões impróprias ou ilegais poderão ser excluídas sem aviso prévio.