‘É uma vida roubada’: após perderem pai, filhas rezam por mãe intubada com Covid-19

Elza Pain está internada na UTI há quase duas semanas e ainda não sabe que esposo faleceu

Por Jhonatan Coppini

18/11/2021 18h02 - Atualizado em 18/11/2021 18h02



Elza, Oscar e as filhas Jucelia, Juliane e Sarita (Foto: Arquivo Pessoal)

“O nosso sentimento é que é uma vida roubada. Ele só sabia trabalhar”.

 

A frase da filha Sarita Pain demonstra a vazio que ela, a irmã gêmea, Juliane Pain, e a mais velha, Jucelia Aparecida Pain, sentem após a morte do pai, Oscar Pain, vítima da Covid-19. Morador de Ponte Serrada, aos 68 anos, Oscar não resistiu à doença e morreu no dia 10 de novembro.

 

Além de lidarem com a dor da perda, as filhas vivem a angústia por notícias positivas da mãe. Elza Pain, de 65 anos, está intubada na UTI do Hospital Regional São Paulo (HRSP), em Xanxerê, há mais de uma semana, lutando para vencer a mesma doença.

 

‘Um homem que só trabalhava’

 

A filha Jucelia não fala do pai sem associá-lo à palavra trabalho. Aos 40 anos de idade, a vida toda ela viu nele a dedicação pelo serviço. Oscar fazia algumas viagens transportando erva-mate para o Rio Grande do Sul nos últimos tempos, mas precisou se afastar da estrada dias antes de contrair a Covid-19.

 

Jucelia conta que o pai ficou uma semana internado no HRSP por causa de uma hemorragia intestinal. Na unidade, fez transfusão de sangue, ficou com anemia e perdeu 19 quilos. Quando recebeu alta, foi viajar na mesma semana. Ao retornar, no dia 28 de outubro, apresentou febre e foi internado no Hospital Santa Luzia, em Ponte Serrada.

 

“O pai não se entregava. Ele podia estar doente, mas dizia que estava bem, era um homem que só trabalhava”, diz a filha.

Oscar tinha 68 anos de idade (Foto: Arquivo Pessoal)

No dia 4 de novembro, Oscar foi encaminhado para a UTI. Com 50% do pulmão comprometido, precisou ser intubado dois dias depois. Hipertenso e já debilitado pela internação que passara recentemente, não resistiu às complicações da doença respiratória. Ele havia tomado as duas doses da vacina.

 

Antes de ser encaminhado para a UTI, as três filhas foram ao hospital de Ponte Serrada para ver o pai. Sarita também testou positivo na época, mas conseguiu se recuperar sem a necessidade de internação. Um dos sentimentos da família é que Ocar sequer conheceu a neta recém-nascida, filha de Juliane, que veio ao mundo um dia antes de ele ser hospitalizado. “O pai não chegou a ver a nenê, não conheceu a neta, pessoalmente”, lamenta Jucelia.

 

Drama pela mãe

 

Após o marido contrair o vírus, Elza fez um teste no dia 30 de outubro, mas o resultado deu negativo. “No domingo [dia 31], a mãe mandou um áudio pra nós e notamos que a voz estava rouca, e a gente disse: ‘mãe, não espere’”, lembra Jucelia. Elza foi convencida pelas filhas a ir ao hospital, fez um novo teste, dessa vez com resultado positivo.

Elza junto com a neta Julia, filha de Jucelia (Foto: Arquivo Pessoal)

Ela já ficou internada no mesmo dia. O quadro se agravou e foi transferida para a UTI no dia 8 de novembro. “Quando a mãe saiu daqui [Ponte Serrada], eu achei que ela não ia chegar em Xanxerê”, recorda Sarita. A filha conta que a mãe chegou a sofrer uma parada respiratória indo para o HRSP. “Ela foi muito mal. Só deu tempo de ela dar entrada, já intubaram na hora. Ela foi num estado extremamente gravíssimo”.

 

Aniversário junto com a mãe

 

Hipertensa e obesa, Elza permanece intubada já há dez dias e não sabe da morte do marido. Sarita tem permissão para visitar a mãe a cada segunda-feira. Por conta do feriado desta semana, a visita ocorreu na terça, dia 16, data em que as gêmeas inclusive fizeram aniversário junto com a mãe.

Filha Juliane e Sarita são gêmeas e fazem aniversário junto com a mãe (Foto: Arquivo Pessoal)

“Inclusive a gente falava pra ela aqui no hospital [de Ponte Serrada] que a gente ia passar o aniversário juntas. Eu conversei um monte com ela [já em Xanxerê] e disse: ‘mãe, como eu prometi, eu  aqui no nosso aniversário’”, afirma Sarita ao lembrar da última visita, terça-feira desta semana.

 

Mas as notícias médicas no dia não foram animadoras. Segundo a filha, Elza estava com disfunções nos rins, pulmões e coração. “E pra manter a pressão arterial dela, só à base de remédio”.

 

Jucelia lembra literalmente o que diziam os boletins do início da semana. “Os boletins de segunda de noite e terça vieram escrito assim: ‘podendo não resistir’. O de ontem [quarta-feira] à noite deu: ‘reagiu aos antibióticos trocados há dois dias. O que mantém nós firmes é a fé, a esperança de que ela vai se recuperar”, comenta.

 

As energias positivas partem de todos os lados, de todas as religiões. “Como a gente tem inúmeras amizades, várias religiões estão fazendo oração. Eu tenho amigas que estão mobilizando as igrejas que elas pertencem e fazendo oração”, conta Jucelia, que também se apoia na fé da mãe. “Eu trouxe pra casa as coisas que ela tinha levado para o hospital e tinha umas quantas novenas dentro da bolsa”.

 

“É difícil aceitar, e a saudade vai vim. Dia após dia, a vontade de dar um abraço é triste, dói”, diz Sarita. Mesmo sofrendo o luto pela perda do pai, as filhas encontram forças para orar e aguardar o retorno da mãe, que também tomou as duas doses da vacina. “Minha mãe, minha vida, eu preciso de você, fica boa e volte pra casa. Deus abençoe minha mãe, cura ela”, escreveu Jucelia recentemente nas redes sociais.


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