'A cada morte, um pedacinho do meu coração se despedaça'; enfermeira que atua na UTI Covid relata rotina exaustiva

Maria Luiza Martins é natural de Ponte Serrada e atua na UTI Covid do hospital São Francisco em Concórdia

Por Andressa Maria Guinzelli

13/05/2021 17h31 - Atualizado em 14/05/2021 08h24



Maria Luiza Martins tem 24 anos e atua na UTI Covid (Foto: Arquivo Pessoal)

“Choramos, rimos, perdemos o chão, nos reconstruímos quantas vezes forem preciso, pois são dias difíceis, pesados, principalmente quando perdemos nossos pacientes”, esse é o relato de Maria Luiza Martins, de 24 anos. A jovem enfermeira, natural de Ponte Serrada, atua na UTI Covid, no Hospital São Francisco, em Concórdia, e viu sua rotina ser transformada com a chegada da pandemia.

 

Formada pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) em setembro de 2020, Maria Luiza precisou enfrentar desde o início da carreira profissional um cenário assustador, que impõe a ela e todos os profissionais que atuam na linha de frente, rotinas exaustivas de trabalho, e desafios psicológicos intensos a cada morte de paciente.

 

Prestes a completar seis meses na linha de frente do combate à Covid-19, a enfermeira não esconde o cansaço diante da rotina pesada e relata a tristeza em relação à desvalorização da profissão, que por muitas vezes carrega a saúde do país nas costas.

 

“A desvalorização da nossa classe, por vezes me faz pensar em querer desistir de tudo, mas, aí eu lembro do porquê eu escolhi ser enfermeira e sigo em frente, lutando junto com os colegas de profissão por melhorias e pelas coisas dignas que são nossas de direito”, diz Maria Luiza.

 

Como lidar com a morte

 

‘Vida que cuida de vidas’, essa frase resume muito quem é Maria Luiza e sua predestinação à profissão. Desde pequena sempre preparada para cuidar e ajudar as pessoas que lhe cercavam, encontrou na enfermagem a realização profissional. Mas mesmo com todo amor dedicado à profissão, lidar com a morte sempre vai ser um dos piores cenários enfrentados pela enfermeira.

 

“A cada morte de paciente é um pedacinho do meu coração que se despedaça”, descreve Maria Luiza. As tímidas lágrimas escorrem pelo rosto de toda a equipe de plantão. Engolir o choro é necessário, pois ao redor, outras pessoas dependem do cuidado do profissional.

 

“Cada um tem uma forma de lidar com as perdas, não existe fórmula mágica pra isso, mas para mim, uma forma de sentir menos a dor é rezar para que esta alma encontre o conforto do descanso eterno e acima de tudo, ter a consciência e o coração tranquilo de que fiz tudo o que podia e mais um pouco para ela quando estava sobre os meus cuidados”, relata a enfermeira, emocionada.

 

Atualmente o Hospital São Francisco atende pacientes de toda a região e, segundo informações do último relatório hospitalar, divulgado na quarta-feira, dia 12, o hospital registrava 16 pacientes internados na UTI Covid.

Pacientes que receberam alta hospital (Fotos: Arquivo Pessoal)

Isolamento social e familiar

 

Proteger quem ama sempre foi uma prioridade para Maria Luiza. Com a família morando no município de Ponte Serrada e o medo de transmitir o vírus para a mãe e avó, a distância de 70 km entre Ponte Serrada e Concórdia tornou-se muito maior, pois foram cerca de 30 dias sem poder ver seus familiares e meses sem poder abraçar, ou simplesmente tocar.

 

“Quando elas [mãe e avó] vinham me ver, eu chegava em casa e ia direto pro banho, já colocava a roupa do corpo pra lavar, não dividia os objetos, nem abraçar elas não abraçava. Assim foi com o meu namorado também, o qual eu tinha mais contato. E o restante da minha família e os amigos, eu não os vejo desde novembro do ano passado, e vou confessar que não é nada fácil, tem dias que a saudade bate forte e é inevitável não chorar”, revela.

 

Esperança por dias melhores

 

“Sempre a esperança dos dias melhores”, os momentos de realização vêm com a alta hospitalar dos pacientes, seja da UTI para a clínica e principalmente ao ver as pessoas voltando para casa após a cura.

 

Com todo o apoio  psicológico disponibilizado pelo hospital, Maria cuida do emocional e busca forças para superar as tristezas e dias ruins, no apoio familiar, nos amigos, no namorado e na família dele, além da equipe de trabalho. “E com certeza na oração e na fé”, finaliza a enfermeira.

Maria Luiza ficou um mês sem conseguir ver a mãe e a avó (Foto: Arquivo Pessoal)

Com uma visão geral do caos vivenciado, a ponteserradense deixou um recado especial de conscientização para a população:

 

Cuidem-se por favor, utilizem máscara, lavem as mãos, usem álcool gel ou líquido para higiene das mãos, mantenha as etiquetas respiratórias ao tossir e espirrar (sim, mesmo estando de máscara), se saírem mantenham o distanciamento pessoal, e se possível, não saiam de casa. 

 

Infelizmente isso tudo não é brincadeira, não é mimimi, não é só uma “gripinha”, é uma doença, e ela mata sim. Hoje pode ser o último dia que você vê quem ama e pode ser o último dia que quem te ama vá te ver, pense nisso! 

 

E por favor, quando chegar a sua vez, tome a vacina, vacinas salvam vidas, e não perca a aplicação da segunda dose, vale lembrar que só se estará imunizado após o recebimento das duas doses. Cuidem-se, por vocês, por quem amam e por nós que damos às nossas vidas e saúde para cuidar da vida e saúde de outras pessoas!

 

Enfermagem é ciência, somos práticas baseadas em evidências, somos muitas horas de estudo, dedicação, lutas e batalhas. Enfermagem é conhecimento técnico-científico. 

 

Enfermagem COM amor e não POR amor, pois somente amor não paga nossas contas, não coloca comida em nossas mesas, não paga nossas especializações para melhor cuidarmos das pessoas. 

 

Nós não fazemos caridade, somos uma profissão como todas as outras, e não é porque cuidamos que o temos que fazer de graça ou em condições desiguais perante outras profissões.

 

Merecemos muito mais que aplausos, merecemos reconhecimento que nos valorizem, jornadas de trabalho e salários dignos!

 

Apoiem a PL 2564/2020 que regulamente um piso salarial e jornadas de trabalho dignas!

 

Valorizem a enfermagem! Valorizem e defendam o SUS!

 

E as famílias dos mais de 428 mil mortos pela Covid-19 no nosso país, bem como em todo o mundo, eu deixo o meu abraço com amor. 

 

E mantenhamos a esperança de que: Dias melhores virão!


COMENTÁRIOS

Os comentários neste espaço são de inteira responsabilidade dos leitores e não representam a linha editorial do Oeste Mais. Opiniões impróprias ou ilegais poderão ser excluídas sem aviso prévio.