Alguns casos leves de Covid-19 podem transmitir vírus por mais de 30 dias, apontam cientistas

Estudo foi divulgado por pesquisadores do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (IMT-USP)

Por Oeste Mais

24/03/2021 10h10 - Atualizado em 24/03/2021 10h10



Estudos conduzidos no Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (IMT-USP), divulgados neste mês têm mostrado que em alguns pacientes com sintomas leves da Covid-19, o vírus pode permanecer ativo no organismo por mais de 30 dias, período superior aos 14 dias de isolamento recomendados no Brasil.

 

Os pesquisadores publicaram um artigo na plataforma científica MedRxiv relatando o caso de duas mulheres de aproximadamente 50 anos, moradoras de São Caetano do Sul, na Região Metropolitana de São Paulo em que o coronavírus permaneceu ativo no organismo por mais de 30 dias. Além de terem os sintomas por todo este período, elas também permaneceram transmitindo o vírus.

 

No primeiro caso, uma paciente foi atendida pela primeira vez em abril de 2020 e relatou que vinha há 20 dias com sintomas como tosse seca, dor de cabeça, fraqueza, dor no corpo e nas articulações. Um exame de RT-PCR feito 22 dias após o início do quadro confirmou a presença do vírus no organismo e, nos dias seguintes, a paciente apresentou náusea, vômito, perda de olfato e paladar. Um segundo teste molecular feito 37 dias após o início dos sintomas também teve resultado positivo. Em meados de maio, a maioria das queixas havia desaparecido, exceto dor de cabeça e fraqueza.

 

O segundo caso observado ocorreu em maio, quando uma paciente, diagnosticada com o vírus, permaneceu sintomática durante 35 dias. 

 

Segundo o estudo, ela apresentou febre, dor de cabeça, tosse, fraqueza, coriza, náusea, dor no corpo e nas articulações, e fez o primeiro teste de RT-PCR cinco dias após o início dos sintomas. Como o problema persistiu, ela fez um segundo teste no 24º dia e, novamente, a presença do coronavírus foi confirmada.

 

"O material [amostras de secreção nasofaríngea das pacientes] foi inoculado em uma cultura de células epiteliais e, após diversos testes, confirmamos que o vírus ali presente ainda estava viável, ou seja, era capaz de se replicar e de infectar outras pessoas”, explicou a professora do IMT-USP Maria Cassia Mendes-Correa à Agência FAPESP.

 

A conclusão do artigo, que ainda precisa ser revisado pelos pares, é que os dez dias de isolamento recomendados atualmente pelo Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos para casos leves da Covid-19 podem não ser suficientes para evitar novas contaminações.

 

Além dos dois casos relatados na publicação, o Instituto da USP vem observando outros casos em que o paciente permaneceu com o vírus ativo, inclusive em fase de transmissão, por até 50 dias.

 

“As análises indicam que o RNA viral permanece detectável por mais tempo na saliva e na secreção nasofaríngea. Em 18% dos voluntários, o teste de RT-PCR nesse tipo de amostra permaneceu positivo por até 50 dias. Entre estes, 6% mantiveram-se transmissores [com o vírus ainda se multiplicando] durante 14 dias”, conta Mendes-Correa.

 

Imunossuprimidos podem transmitir por meses

 

A coordenadora dos estudos também ressalta casos ainda mais preocupantes: o de pacientes imunossuprimidos infectados com coronavírus. Até o momento, dez voluntários foram incluídos no projeto do IMT-USP e um deles permaneceu com infecção ativa no organismo por mais de seis meses.

 

“Trata-se de um paciente submetido a um transplante de medula óssea antes de ocorrer a infecção. As análises indicam que a carga viral em seu organismo é elevada e que o vírus é altamente infectante. Por esse motivo ele continua em isolamento, mesmo passado um longo período após o início dos sintomas”, conta Mendes-Correa.

 

A pesquisadora ressalta a necessidade de monitorar com atenção casos como esse, que oferecem condições ideais para o surgimento de variantes virais potencialmente mais agressivas.

Com informações do G1


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