Quando é preciso retirar as amígdalas e por que tantas crianças são operadas sem necessidade

Estudo descobriu que nove em cada dez operações do tipo são desnecessárias e sinalizou que o procedimento cirúrgico poderia estar causando mais danos do que benefícios às crianças

19/11/2018 15h52 - Atualizado em 17/04/2020 14h39



Milhares de crianças são submetidas todos os anos a cirurgias para retirada das amígdalas sem que haja necessidade.

 

Um estudo realizado na Inglaterra descobriu que sete de cada oito operações do tipo realizadas em crianças do país dificilmente trariam alguma vantagem.

 

As amígdalas, localizadas próximo a base da língua, desempenham um papel importante no sistema imunológico, ajudando a proteger o organismo contra vírus e bactérias que entram pela boca ou pelo nariz.

 

Mas são um daqueles órgãos que não são considerados indispensáveis para a sobrevivência. 

 

Segundo o estudo, o procedimento cirúrgico pode estar causando mais danos do que benefícios às crianças.

 

Sem contar o gasto que representa para o sistema público de saúde inglês, o NHS - que já informou que planeja reduzir o número de operações de retirada de amígdala e outros tratamentos "ineficientes", nos quais os prejuízos sejam maiores do que os ganhos.

Pesquisa realizada na Inglaterra mostra que nove em cada dez operações do tipo são desnecessárias (Foto: GETTY IMAGES/BBC)

Critérios para retirada das amígdalas

 

De acordo com os pesquisadores, a remoção das amígdalas é indicada apenas quando atende a um dos critérios abaixo:

 

*Mais de sete episódios de dor ou inflamação da garganta por ano;

*Mais de cinco episódios de dor ou inflamação da garganta por ano, durante dois anos consecutivos;

*Três episódios de dor ou inchaço da garganta ao ano durante três anos seguidos.

 

O estudo da Inglaterra, publicado no The British Journal of General Practice, analisou os registros de mais de 1,6 milhão de crianças inglesas entre 2005 e 2016. De cada mil crianças do país, duas ou três foram submetidas à cirurgia para retirada de amígdala.

 

Porém, 88% não preenchiam os critérios acima. Apenas 12% das cirurgias realizadas no período foram clinicamente justificadas.

 

No grupo de crianças que foi submetida à cirurgia sem preencher os critérios, 10% havia tido apenas um único episódio de dor de garganta ou inflamação.

 

Com base nesses dados, o estudo estimou que 32,5 mil das 37 mil amigdalectomias infantis realizadas no Reino Unido entre 2016 e 2017 foram desnecessárias, custando £ 36,9 milhões (o equivalente a quase R$ 180 milhões) ao sistema público de saúde.

 

Tom Marshall, professor do Instituto de Pesquisa em Saúde Aplicada da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, e um dos autores do estudo, afirma que a cirurgia pode ser justificada no caso de pacientes mais seriamente afetados.

 

"A pesquisa sugere que crianças com menos dores ou inflamações na garganta não vão se beneficiar o suficiente para justificar a cirurgia, porque, de qualquer forma, a dor de garganta tende a desaparecer", diz.

Estudo estima que sete de cada oito operações infantis do tipo realizadas no Reino Unido foram desnecessárias (Foto: GETTY IMAGES/BBC)

Retirada de amígdalas pode gerar complicações

 

Os especialistas também ressaltam que, como em todas as cirurgias, as amigdalectomias podem levar a complicações que, embora raras, podem ser graves.

 

"Quando esta operação é realizada no grupo certo de crianças, pode reduzir significativamente as infecções da garganta, melhorar a qualidade do sono, diminuir o número de consultas médicas, o uso de antibióticos e, mais importante, melhorar a qualidade de vida da criança e da família ", afirmam especialistas da Escola de Medicina McGovern da Universidade do Texas, nos EUA.

 

"No entanto, há uma morbidade associada à cirurgia que inclui hospitalização, custo financeiro, risco de anestesia, sangramento pós-operatório e cicatrização", acrescentam.

 

"De fato, até 4% das crianças operadas podem ter que ser internadas novamente devido a complicações secundárias, o que significa que a tomada de decisão adequada para realizar essa cirurgia é de suma importância."

 

Além disso, alguns estudos sugerem que a retirada das amígdalas na infância pode ter conquências no longo prazo, como aumento do risco de ataque cardíaco precoce e de doenças respiratórias, como asma, pneumonia e gripe na vida adulta.

 

Epidemia de retirada de amígdalas

 

O problema não é exclusivo do Reino Unido. Uma pesquisa publicada em 2014 pelo The Cochrane Review comparou estudos conduzidos em diversos lugares do mundo sobre a eficácia da cirurgia de remoção de amígdala, e constatou que um grande número de operações são feitas sem justificativa clínica suficiente.

 

O levantamento não cita o Brasil. Aqui, o Sistema Único de Saúde (SUS) realizou 33,8 mil cirurgias para retirada de amígdalas em 2017, sendo 31,1 mil em crianças (mais de 90%).

 

Os Estados Unidos são o país com as taxas mais altas do procedimento. A cada ano, são realizadas mais de 500 mil amigdalectomias infantis - trata-se da terceira operação mais comum em crianças no país. As taxas são tão altas que o procedimento foi descrito como "uma epidemia".

 

"É uma epidemia silenciosa de cuidados médicos desnecessários", disse em 2012 o especialista David Goodman, do Darthouth Atlas, banco de dados sobre cuidados de saúde do Instituto Darmouth para Política de Saúde e Prática Clínic, dos Estados Unidos.

 

"Na maioria dos casos, (a retirada de amígdalas) é realizada em pacientes com sintomas muito menos recorrentes do o necessário para indicar o procedimento", disse Goodman.

Do G1


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