Filhos de domingo

Por Jaime Folle

15/07/2018 10:05



Ouve-se a buzina.

 

- São dez horas!

 

- É o meu pai!

 

Grita o menino inquieto. Desde as oito horas que ele estava aguardando para o tradicional passeio e almoço de domingo, tudo como o juiz determinou.

 

O pai leva o filho a um passeio pela cidade e preocupa-se que vai ter que ficar o dia inteiro com ele.

 

Enquanto os dois andam pela cidade o pai pergunta sobre a escola, o futebol, o videogame, as paquerinhas.

 

- Oh, filhão! Você já está ficando homenzinho! E o papo fica num sentido sem graça. A cumplicidade não se estabelece entre pai e filho, e se paralisam numa frieza e timidez viril. A hora é de embaraço e culpa, de recriminação contida, de orgulho, silêncio e amor.

 

Na sequência desse incômodo silêncio, esgotados no trivial e incapacitados de travar um diálogo pelo qual ambos, pai e filho, anseiam, mas o almoço corre em um profundo silêncio e alguns sorrisos pálidos o pai chama o garçom e pede a conta, e os dois vão embora: o menino está aprendendo a ser adulto  e a lidar com pais separados e o pai está ficando velho, tentando aprender e lidar com filho de pais separados... e aliás ainda não vão embora, passam primeiro em uma sorveteria para apanhar um sorvete de chocolate, depois dão umas voltinhas para completar o tempo determinado pelo juiz.

 

Andam pelos tradicionais pontos da cidade e a demora não pode ser muita, pois o pai tem um compromisso marcado com sua nova namorada e quer se ver livre logo do moleque enquanto a mãe reclama que fica a semana inteira com ele e quer que o pai segure as pontas ao menos no fim de semana, para que ela possa também se encontrar com seu novo namorado.

 

E assim lá se vai mais um domingo e o menino em sua jovem cabecinha tenta entender tudo o que estão fazendo com ele e pensando por certo como ele vai administrar tudo isso quando também estiver separado no futuro.



É uma pena que assim seja. Resta apenas um adeus, um beijinho encabulado e até o próximo domingo, quando tudo se repete da mesma maneira.

 

O amor é apenas um verso na vida de um homem e todo um poema na vida de uma mulher, os filhos são os frutos deste amor.

 

Uma pena que em muitos casos este amor não perdure e aí os filhos passam a ser apenas filhos de domingo.

 

 Pensem carinhosamente nisso.

 

Até a próxima!


Jaime Folle

Colunista

Formado em empreendedorismo, é um dos mais renomados palestrantes do Sul do Brasil. Está na área desde 2005. É também escritor de vários livros.

jaimefolle@jaimefolle.com.br


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