'Código Azul' - capítulo 3

Por Kiane Berté

08/11/2019 09:08 - Atualizado em 08/11/2019 10:27



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Ótima leitura :)

 

- Meu filho, como foi seu dia? Está com fome? Porque Raquel não veio? – ouvi minha mãe fazer perguntas o tempo todo e não tinha nenhuma vontade de respondê-las.

- Você tem certeza que colocaram o pneu certo no seu carro, Joe? – papai não sabia se me fazia perguntas, se comia o assado de frango preparado pela irmã da nossa governanta, ou se olhava nos meus olhos enquanto falava.

- Papa... quero dizer, Caio, sim. Eles colocaram o certo. Fui eu mesmo quem escolheu o pneu. – A comida desceu rasgando na garganta. Não estava a fim de falar sobre aquilo e nem sobre o meu dia.

- Filho, porque está falando desse jeito conosco? – Caio largou o celular que estava segurando em uma das mãos enquanto jantava, e voltou seus olhos para mim.

- Eu tive um dia bem cansativo hoje, papai, me desculpe – suspirei e retornei a garfar a comida que estava quase fria.

- Quem trocou o pneu do seu carro foi o borracheiro e não você, Joe, como pode estar cansado? – papai começou a rir e eu ri com ele da situação. Se ele soubesse...

- Bem, quem trocou o pneu do meu carro foi uma mulher – cobri minha boca com a mão para evitar que meu riso aumentasse.

- Como é que é? – perguntou meu pai, abismado.

- Joe, você fez a Raquel trocar o pneu? – minha mãe arregalou os olhos e abandonou o jantar.

- Não seja boba, Dora, Raquel jamais trocaria um pneu. Ela nem teria força para isso.

 

            Meus pais começaram a rir e se esqueceram de que eu ainda estava na mesa. Enquanto meu pai explicava para a minha mãe como se trocava um pneu, – apesar de eu saber que ele nunca havia trocado um na vida – eu terminei o meu jantar e retirei o meu prato da mesa. A empregada o tomou da minha mão e eu o tomei de volta. Quase brigamos para ver quem levava o prato sujo até a cozinha.

 

- Joe, não vai nos contar quem trocou o seu pneu? – da cozinha ainda conseguia ouvir minha mãe falando comigo.

- Não – neguei, mas rindo da situação. – Vocês não a conhecem.

 

            Depois de jantar e de escolher um vinho bom para beber, nos sentamos à sala para conversar sobre os preparativos da festa de aniversário que meus pais me dariam em duas semanas. Não seria nada grandioso, mas seria feito um jantar com os pais de Raquel, com alguns amigos meus da faculdade, meus avôs, e outros parentes. Após a janta, teríamos música e uma pequena festa para que minha mãe pudesse exibir seus vestidos novos e caros.

 

            Eu estava detestando a ideia, mas ver minha mãe feliz com aquilo já era um presente e tanto. Dora estava passando por problemas psicológicos e a sua terapeuta havia nos pedido para que tirássemos mamãe da rotina. Essa festa seria perfeita para isso, além de que ela veria sua mãe e irmãos no mesmo dia.

 

- Então, já comprou a aliança para Raquel? – Dora bebericou um pouco do vinho e depois limpou a boca com um guardanapo.

- Essa história de novo não, mamãe – estiquei minhas pernas sobre a mesinha de centro da sala onde estávamos e deixei a taça sobre ela.

- Mas meu filho, que oportunidade melhor você vai encontrar? É sua festa de aniversário e as pessoas importantes já vão estar com a gente. Vai ser perfeito!

 

            Queria ter simplesmente ignorado as palavras que ouvi da boca de minha mãe, mas apenas sorri de volta e ela suspirou.

 

- Não é que eu queira te decepcionar, Dora, mas é que ainda é cedo e eu tenho planos para Raquel e eu, antes de nos casarmos. – Me levantei ainda sorrindo e fui até ela. Beijei sua testa e me despedi antes de ir para casa.

 

            Mamãe se levantou rapidamente e me abraçou forte, quase me sufocando. Eu devolvi o abraço e beijei o seu rosto com ternura. Fiz o mesmo com o meu pai e depois fui embora.

 

            Menti para o meu pai que meu dia havia sido cansativo. Meu dia foi incrível e produtivo demais. Além de conhecer pacientes novos – pessoas incríveis e educadas – pude conhecer uma mulher que presta serviços de homem. Estava rindo até aqule momento por lembrar-me dela e, ao mesmo tempo, me sentindo um imbecil por ter falado aquelas coisas idiotas.

 

            Depois -  quando estava na minha cama, prestes a dormir e descansar – fiquei pensando em como minhas palavras foram machistas e agressivas demais. O problema era que nunca havia tido contato com nenhuma mulher assim antes e ela, toda trabalhada na arrogância e masculinidade, me fez perceber que eu ainda não conhecia as mulheres direito.

 

            Raquel jamais faria o que ela fez. Tinha certeza de que ela jamais pensaria em descer do carro e colocar um macaco embaixo da lataria para poder erguê-la e, pior ainda, deixar que suas mãos e unhas ficassem cobertas por graxa ou barro.

 

            Nunca vi as unhas de Raquel sem esmalte. Acho que nem se quer conheci suas mãos direito. Os dedos eram sempre cobertos por jóias caras e largas, assim como seu pescoço, pulso, orelhas e tornozelo. Raquel usava jóias em todos esses lugares e, desde que me conhecia por namorado dela, nunca a vi sem nenhuma delas se quer.

 

            Comecei a rir sozinho na cama ao pensar nessas situações e, quando percebi, ignorei três chamadas da minha futura noiva. Digitei o número dela no celular e ela atendeu no primeiro toque.

 

- Joe, porque não me atendeu? – Raquel pareceu irritada.

- Desculpe, querida, estava no banheiro. Cheguei agora da casa dos meus pais. – dei uma tossida rápida.

- Que bom, amor, e como foi?

- Como foi o quê? – perguntei alguns segundos depois, ao me desligar completamente da conversa.

- Joe Riviere, estou te perguntando como foi o jantar com os seus pais... – Raquel repetiu a frase com toda a calma do mundo e depois suspirou forte, fazendo com que eu ouvisse do outro lado da linha.

- Ah, sim, claro – gaguejei. – Foi tranquilo. Conversamos sobre o meu trabalho e organizamos toda a lista de convidados para a minha festa.

- Isso é ótimo – consegui ouvir as palmas de Raquel do outro lado da linha. – E o seu carro, já está consertado?

- Raquel, o pneu furou. Foi só isso! - Minha última frase saiu mais forte do que deveria.

- Eu não estou falando só do pneu, estou falando daquele barulho estranho que seu carro estava fazendo outro dia.

- Bem, - falei de vagar – só troquei o pneu porque ele furou, mas não mexi em mais nada. Não me lembrei desse detalhe.

- Querido, Miguel vai chegar manhã e eu preciso que você o busque no aeroporto. Tenho medo de que seu carro estrague por conta desse barulho.

- Amanhã, Raquel? Ele não chegaria só depois de amanhã? – me joguei novamente na cama e cobri os olhos com a palma da mão.

- Ele me ligou pouco antes de eu te ligar. Me avisou que vai se adiantar esse ano e, adivinha só? – Raquel disse toda animada.

- An? – é só o que consegui dizer.

- Acho que ele vem para ficar.

 

            Apesar de eu não ter um contato tão próximo com Miguel, sempre gostei dele e da energia que ele transmitia sempre que estava por perto. Miguel sempre foi animado desde que o conheci e isso fez com que nos déssemos bem. Ele era muito diferente de Raquel, não só na maneira de falar, mas também como agir com as pessoas. Miguel não se importava em comer no chão e usar as mãos. Raquel já preferia sentar-se à mesa e usar garfo e faca para cortar uma pizza.

           

            Ambos não poderiam ser irmãos, de jeito nenhum.

            Bom, não nessa vida, pelo menos!

 

- Hey, não vai dizer nada? – Raquel chamou a minha atenção ao perceber que eu não respondi.

- É uma ótima notícia, Raquel. Seus pais vão ficar felizes demais.

- Já estão – ela confirmou. Seu riso era visível no meu celular. – Então, você pode buscar ele amanhã no final da tarde?

- Claro que sim. Depois do trabalho eu passarei no aeroporto. Agora vou descansar, porque amanhã o seu irmão vai acabar com as minhas energias. – Meu riso contagiou Raquel.

- Tenho certeza – ela disse. – Bons sonhos, meu príncipe.

 

            Assim que o telefone foi desligado, as palavras da garota da oficina martelaram na minha cabeça, na mesma sintonia que as de Raquel. Herrera, quero dizer, Aurea, me chamou de príncipe mais cedo, mas foi de uma maneira provocativa, como se ela quisesse dizer que sou rico e mauricinho demais para estar naquele lugar.

 

            Já, as palavras de Raquel, soaram de uma maneira meiga e cheia de amor. Ela nunca me chamou assim antes. Porque então agora ela estaria falando assim? Será que ela já sabia que a garota me chamou de príncipe? Chacoalhei a cabeça espantando o pensamento perturbado e joguei o celular sobre a cama. Segui até o banheiro e tomei um banho para poder descarregar a tensão do dia.

 

                                                                                   ***

 

- Bom dia, doutor Riviere, gostaria de um café? – uma das enfermeiras pergunta ao entrar na minha sala vazia.

- Bom dia, Letícia. Quero sim, por favor.

 

            Depois de dez minutos, Letícia trás o meu café quentinho e algumas bolachas integrais que havia comprado.

 

- Doutor, é melhor o senhor vir até aqui – outra enfermeira abre a porta da minha sala rapidamente. Quando alguma delas fala assim comigo, já sei que se trata de um paciente grave.

 

            Eu corro para a sala de emergência e me deparo com uma jovem gritando e chorando muito. Ela está usando uma saia preta e suas pernas estão todas arranhadas, e um ferimento muito grande está sendo estancado por Letícia.

 

- O que ouve com ela? – escorrego na poça de sangue que se formou no chão ao lado da maca.

- O nome dela é Emily e ela foi mordida por um cachorro – Letícia retira o pano molhado de sangue e começa a limpar o ferimento.

 

            Apanho o estetoscópio e depois avalio seus batimentos. Ela está bastante assustada e não para de gritar.

 

- Fique calma, Emily – tento acalmá-la enquanto analiso os ferimentos em sua perna. – Vamos anestesiar os machucados para poder limpá-los e costurá-los, está bem?

 

            A moça ainda está com os olhos arregalados, mas faz que sim com a cabeça e para de gritar por um segundo.

 

- Aonde você encontrou esse cachorro? – pergunto enquanto Letícia lava o ferimento pela terceira vez.

- Ele estava preso em uma casa e me mordeu quando eu pulei o muro – ela consegue dizer em meio aos soluços.

- Porque você pulou o muro de uma casa? – Letícia me interrompe. É mais curiosa que a minha vizinha do andar debaixo.

           

A menina revira os olhos e depois responde:

 

- É a casa do meu namorado. Quero dizer... do menino que eu gosto.

- Então esse cachorro não é de rua, Emily? – pergunto novamente. Ela revira os olhos mais uma vez.

- Porque quer tanto assim saber sobre esse cachorro pulguento?

- Minha jovem... – Letícia começa e eu aponto o dedo para ela, pedindo silêncio.

- Emily, esse cachorro pode não ser vacinado. Pode ter doenças e essas doenças vão ser passadas para você se não limparmos isso direito. – Consigo dizer. A jovem fica ainda mais espantada.

- Eu não quero morrer – a garota choraminga.

 - Você não vai morrer – eu digo em seguida.

- Não vai mesmo, mas pode perder essa perna aí se não nos contar o que aconteceu.  – Letícia assusta ainda mais a menina.

 

               A ideia de Letícia não era querer limpar de verdade o ferimento ou estar preocupada com a garota, mas sim, saber dos motivos pelo qual a menina pulou o muro de uma residência. Eu disse: tão fofoqueira quanto a minha vizinha.

 

- Tá bem – a menina diz assim que se acalma. – Meus pais não permitem que eu saia com ele, por causa das roupas que ele usa e tudo mais. Então eu fujo de casa para poder vê-lo.

- Espertinha! – Letícia aponta o dedo para ela e começa a gargalhar.

- Olha, eu já disse. Esse cachorro é dos pais do meu namorado, mas ele é bem cuidado e toma banho toda a semana.

- Eu entendi, Emily, mas vamos ter que chamar os seus pais e os pais do seu namorado aqui – cruzo os braços e espero pelo choro sem fim da garota.

- O quê? – ela fica pasma, mas não chora. Não dessa vez.  – Vocês não podem fazer isso. Meus pais vão me matar.

- Se não fizermos exames em você e não confirmarmos que o cão é bem cuidado como você disse, você pode morrer de outra forma.

 

            Quando Letícia diz essas palavras, eu a mando para fora da sala de emergência.

 

- Ela disse essas besteiras para te assustar, mas é a verdade, Emily. Vamos ter que internar você até que termine o tratamento desse ferimento para evitar que ele infeccione. Se estiver no hospital, vai ficar mais fácil de acompanhar sua melhora.

- Que assim seja, então - a garota deita na maca e cobre os olhos com as mãos.

 

            Depois de aplicar anestesia no local do ferimento maior, retiro a gaze que Letícia havia colocado sobre o machucado e começo a tatear o local. Com a ajuda da minha pequena lanterna branca, vasculho por entre os pedaços de pele completamente rasgados, alguma sujeira que tenha ficado para trás na desinfecção.

 

            A mordida foi tão profunda que quase consigo ver o osso de sua panturrilha. O cachorro deve ter mastigado muito por ali para ter ficado desse jeito. Eu chego a duvidar que um animal desses possa ter feito isso sozinho.

 

             Emily acabou desmaiando ao me ver retirar um dente do cachorro de sua perna, enquanto estava mexendo entre suas camadas de pele com uma pinça. Suturei o grande corte com a menor agulha para tentar evitar uma cicatriz maior.

 

- Se ela sentir muita dor quanto acordar, pode medicá-la de novo – assino a prescrição e depois entrego às enfermeiras. – Vamos ficar de olho nessa mordida. Chamem os pais da garota e depois a família do cachorro. Precisamos fazer os exames nela e nos garantir que nenhuma doença foi passada.

 

             A manhã passou voando. Foram muitos pacientes depois de Emily, mas felizmente nenhum deles tão grave quanto ela. Os pais da menina foram chamados e fizeram um escândalo quando a viram naquele estado. A parte boa é que não chegaram a ver o ferimento na perna porque estava enfaixada, mas os arranhões na outra perna fizeram com que eles se apavorassem.

 

            Já a família do cão, quero dizer, os donos do cachorro, ficaram muito preocupados com a jovem. O filho deles, todo tatuado e com piercings, também estava com eles e quase foi expulso do hospital pelos pais de Emily. Por sorte, ninguém se agrediu e o cachorro tinha até uma caderneta de vacinação e elas estavam todas em dia, o que facilitou e tirou a nossa preocupação.

 

            Almocei na companhia de Estevan, meu melhor amigo do trabalho, que iria me substituir na parte da tarde como médico. Raquel havia me ligado para avisar que Miguel chegaria num vôo antecipado e me pediu que passasse buscá-lo para que ele não ficasse sozinho pelo aeroporto. Consegui a folga para aquela tarde graça a Estevan, mas eu iria ter que cobrir o seu turno na próxima semana para compensar. O que não seria uma coisa ruim.

 

           Nos conhecemos quando eu entrei para trabalhar no hospital. Estevan é médico também e trabalhamos em turnos diferentes há um ano. Ele me ajudou muito até aqui e sempre me dá uma mãozinha quando estou precisando. Ele é amigo de verdade.

 

- Se a gente não se ver até o meu aniversário, não se esqueça da festa – refaço o convite e ele agradece.

- Não perderei isso por nada – ele sorri e depois dá umas batidinhas nas minhas costas.

- Só espero não ser envergonhado por minha mãe – reviro os olhos e sorrio.

- Eles ainda querem que você peça Raquel em casamento? – Estevan mal mastiga as batatas.

 

          Faço que sim com a cabeça.

 

- O pior de tudo é que minha mãe acha que vai ser no meu aniversário – esfrego os olhos com as pontas dos dedos, tentando afastar a ideia.

- Você não gosta mesmo dela – ele suspira e depois empurra o prato para o lado.

- Não é isso, cara, é só que eu não estou pronto para casar. Raquel é a mulher da minha vida, mas ainda não é o momento, você me entende?

- Claro que entendo – Estevan dá uma risada demorada e depois tosse. – Bom, cara, vou trabalhar e garantir a minha folga da semana que vem que você vai cobrir. – Ele aponta para a minha testa e sai gargalhando pelo corredor.

- Obrigado, mais uma vez – consigo dizer, mas ele está longe demais.

- Não tem de quê – ele responde de longe, fazendo sinal de paz e amor com os dedos.

 

            Saio da garagem do hospital e consigo ouvir o mesmo barulho estranho que Raquel ouviu na noite em que saímos para jantar. Estou um pouco atrasado, já que Miguel se adiantou em chegar à cidade, então deixo o barulho para lá e sigo até o aeroporto.

 

            O trânsito do início da tarde é calmo e eu consigo chegar em menos de uma hora no meu destino, o que me deixa mais tranquilo com relação ao barulho que o carro está fazendo.

 

            Deixo o carro estacionado em frente ao portão da saída principal e caminho em direção ao saguão para buscar o meu cunhado. Mal entro na sala e já o vejo de longe em pé, escorado em um dos pilares, falando ao telefone.

 

- Minha querida, o marido da minha prima está aqui para me levar para casa – Consigo ouvi-lo, assim que me aproximo. – Mais tarde eu te ligo, um beijo.

- Marido da sua prima? – franzo o cenho e ele sorri, vindo em minha direção para me abraçar.

- É, mano, se eu falasse que era meu cunhado ela iria começar a me fazer perguntas. Ela não sabe que tenho irmã. – Miguel balança a cabeça e suspira parecendo aliviado.

- Então você não contou para a sua namorada que tem irmã... – cruzo os braços e espero por respostas.

- Qual é, Joe, ela não é minha namorada. É só minha mina da Inglaterra.

- Sua mina da Inglaterra... – Não consigo parar de repetir suas palavras.

- É... – ele continua. Parece relaxado demais. – Agora que vou morar aqui não quero ficar ligado a ela, por isso não contei nada sobre a minha vida pessoal. – Miguel estala os dedos e me mostra seu celular. – Olha, Britney bloqueada. Cidade nova, gatas novas.

 

            Dou uma leve levantada na minha sobrancelha e balanço a cabeça de vagar. Caminhamos em direção ao carro no estacionamento e entramos na rodovia. Durante trinta minutos, ouvi Miguel falar das mulheres que conheceu no último país em que esteve e em como se apaixonou por uma mulher casada em uma das suas viagens malucas.

 

            Miguel sempre foi mulherengo e nunca escondeu de ninguém. As próprias mulheres sabiam disso e não se importavam, assim como Raquel que vivia me falando o quanto seu irmão estava lindo demais. Sei lá, não consigo ver nada de bom nele. Ele é gente boa e tudo mais, mas é um pé no saco quando se trata de mulheres. Como elas podem se envolver com ele, serem rejeitadas e depois continuar procurando por ele? Essas mulheres são doidas.

           

            Fora tudo isso, Miguel Ahnert é parceiro demais.

 

            Depois de quase uma hora de estrada, o carro volta a fazer um barulho estranho. Desta vez, ele é mais alto e parece estar possuindo meu Audi como um espírito faria. Tá bom, essa frase não saiu da minha boca. Miguel acabou dizendo isso enquanto desligava o rádio para ouvir o barulho que vinha do capô.

 

- Você precisa levar esse carro para uma oficina – ele diz em seguida. – Não estou a fim de morrer nessa estrada, Joe.

- Pare de falar besteiras, Miguel. Não vamos morrer. Não aqui, pelo menos. – Dou um sorriso rápido e volto a ligar o rádio. – O que está fazendo? – pergunto rapidamente quando o ouço chamar por Raquel no telefone.

- Irmã, vamos nos atrasar porque o seu marido... – reviro os olhos para ele e ele entende. – Seu futuro marido – ele corrige me olhando e eu confirmo com o polegar. – Vai ter que levar o carro para a oficina.

 

            Percebo as feições engraçadas no rosto de Miguel e sei que ele está imitando as frases e o jeito de falar de Raquel, em pensamento.

 

- Sim, irmã, é um barulho esquisito no capô. Mas fique tranquila que logo, logo, chegamos. Um beijo!

- Você fala “um beijo” para todas as mulheres com quem conversa? – zombo de Miguel.

- Mas é claro, cunhado, como acha que elas me amam? Não é só a beleza que conta, você precisa ser gentil também. – Ele me lança uma piscadela e eu caio na gargalhada. Ele é hilário.

 

            Não estava pensando em levar o carro para uma oficina, porque a única que eu conhecia aqui por perto era aquela onde Herrera trabalha e eu não estava a fim de encontrá-la. O problema é que meu carro não estava sabendo disso.

 

- Esse barulho tá aumentando – Miguel se segura no banco com as duas mãos, firme. Eu rio da situação. – Se você não levar para uma oficina, eu vou descer aqui e vou a pé para casa. A Raquel vai ficar uma fera com você. Eu sei que vai.

- Pare de ser medroso – dou de ombros, mas faço o que ele diz. Sigo com o carro até a oficina cheia de caveiras pintadas na parede e ele apaga quando estou prestes a colocá-lo dentro do estacionamento.

- Eu te falei – Miguel me repreende. Ele está suando. – E se ele fizesse isso enquanto estávamos na estrada? Íamos morrer. – Quando foi que ele ficou assim tão medroso?

- Joe, é isso? – vejo Bob se aproximar do carro.

- E aí, Bob – respondo depois de descer do carro. Miguel fica olhando para o ambiente, assustado.

- Vocês se conhecem? – ele pergunta. Miguel olha para as tatuagens nos braços de Bob, como se ele fosse alguém anormal.

- Seu amigo aqui furou o pneu e nós trocamos pra ele. – Bob responde sem nenhum sorriso no rosto.

- Você tá de sacanagem comigo, Joe? – Miguel me encara pensativo. – Você trouxe o seu carro aqui para que eles trocassem o pneu? – tento cobrir minha testa com uma das mãos para evitar vê-lo rindo de mim.

- Ele não trocou nada, fui eu quem trocou o pneu do seu amigo.

 

            Quando nos viramos, damos de cara com Herrera que se aproxima limpando as mãos sujas de graxa numa toalha preta. Ela está usando o mesmo coturno e outra calça preta, mas essa está rasgada acima do joelho. Sua barriga está coberta por uma regata branca toda suja e seus peitos estão mais a mostra do que ontem. Ela não sorri.

 

- Minha nossa – Miguel a analisa dos pés a cabeça, a deixando incomodada.

- O que você faz aqui? – ela pergunta incrédula.

- É bom te ver também – respondo sem olhá-la nos olhos.

- Espera aí, vocês dois também já se conhecem? – Miguel está prestes a rir. – Isso é maneiro. Muito prazer, gatinha, sou Miguel Ahnert, mas você pode me chamar de Miguel ou, sei lá, quem sabe... de meu amor. – no momento em que Miguel pega na mão dela para beijá-la, Herrera afasta a mão com força.

- Eu te fiz uma pergunta – Herrera me encara, sem prestar muita atenção em Miguel.

- Não está vendo? – aponto com as duas mãos para o carro parado no meio do caminho. Ela revira os olhos e então percebo que fui grosso demais. – Desculpe, é que meu carro parou de funcionar. Então, como eu estava próximo daqui, pensei em trazer e...

- Pensou que eu poderia arrumar o seu carro? – ela me interrompe e Miguel cai na gargalhada. – Do que está rindo, Playboy Número Dois?

 

          Começo a rir das palavras de Herrera e então digo:

 

- Não seja idiota, Miguel, ela trabalha aqui.

 

           Percebo uma leve levantada na sobrancelha de Miguel e ele para de sorrir.

 

 - Não brinca – ele diz, inacreditado.

 

           Herrera revira os olhos mais uma vez e depois vai até o capô do carro que Bob acabou de abrir.

 

- Esse carro não está nada bem. Vamos ter que trocar isso... – Bob começa a apontar com o dedo para Herrera que confirma com a cabeça. – Isso também e aquele outro ali. Ah, - ele diz novamente ao analisar mais um pouco – isso aqui vamos ter que dar uma olhada mais de perto.

- Dá para vocês falarem a nossa língua? – digo em seguida. Os dois giram a cabeça para mim no mesmo instante. – Parece que você estão falando com um paciente de hospital.

- Aqui é um hospital de carros e o seu carro é o nosso paciente.

 

            Quando Bob termina a frase, Miguel cai na gargalhada e diz:

 

- Vocês são malucos.

 

            Herrera pela primeira vez ri e isso me faz rir também. Assim que ela me vê rindo, ela fecha a cara novamente e volta a observar o carro.

 

- Quanto tempo vai demorar? – pergunto ao olhar para o relógio de pulso.

- Meu amigo, seu carro não vai sair daqui hoje. – Bob sussurra.

- Vocês não estão falando sério? - minha pergunta sai quase como uma afirmação.

- Estamos! – Herrera me encara e depois se escora no carro. – Se quiser um serviço bem feito, vai ter que esperar até amanhã. A não ser que queira empurrar o seu carro sem gasolina até outra oficina.

- Está sem gasolina? – Miguel pergunta boquiaberto. – Você é mesmo um babaca, Joe. – Herrera começa a rir, mas logo se fecha.

- Como é que vamos embora? – apanho o celular para ver a hora. Já passa das três da tarde.

- Relaxa, cara, eu peço para Raquel vir buscar a gente. – Eu mal consigo responder Miguel e ele já está falando com Raquel pelo telefone. – Pronto, em 20 minutos ela chega. – Diz por fim, assim que eu termino de passar o endereço do lugar.

 

            Bob continua mexendo no Audi, enquanto Herrera nos conduz para dentro da loja da oficina para pagar pelo concerto do carro que nem se quer estava concertado. O concerto demoraria um dia, mas o pagamento foi adiantado. Espero que eles façam o serviço direitinho.

 

- Não dá para acreditar que alguém como você trabalha aqui - Miguel diz boquiaberto, enquanto esperamos para ser atendidos no balcão. Ele não tira os olhos dos peitos de Herrera.

- Ótimo, mais um babaca. – Ela revira os olhos e se afasta.

- Eu só estava brincando, gata, você com certeza é mais forte do que o Joe. Isso é certeza. – Quando ele percebe que Herrera nem se quer presta atenção em suas palavras, ele se aproxima mais dela e diz: - Gata, me desculpe pela maneira como agi com você, mas você é tão boa no que faz que me faz parecer um nada ao seu lado.

 

            A sobrancelha de Herrera se levanta e um sorriso se forma em seu rosto corado.

 

- Viu só, Playboy Número Um. – Ela aponta para mim. – É assim que se fala com uma mulher.

- Você está falando sério quando defende ele? – pergunto quase sorrindo.

- Por quê? Você não vai apoiar o seu amigo?

- Não somos amigos – Miguel se mete. – Somos cunhados.

- Cunhados... – Herrera franze a testa. Se não fosse pela cara de desinteressada que ela fez, diria que ficou a fim de Miguel.

- É, mas eu não sou cunhado dele, ele é meu cunhado. Não sei se você me entende. – Miguel pousa a mão grande sobre o ombro direito de Herrera e ela me encara.

- O que muda nisso? – ela diz.

- Que ele é noivo da minha irmã – Miguel responde confiante.

- Namorado da sua irmã – reviro os olhos.

- Tanto faz, você vão se casar logo que eu sei. – Miguel dá de ombros e me ignora completamente enquanto eu pago pelo concerto ainda não executado do meu carro.

 

            Fico quase meia hora no balcão tentando negociar o preço do concerto com o homem de cara amarrada que está me atendendo. Foi difícil conversar com ele, mas evitei o máximo possível ter algum contato com Aurea, quero dizer, Herrera, naquele momento.

 

            Por falar nela, meu cunhado conseguiu domar a garota suja de graxa na minha ausência. Consigo ver e ouvir os dois ao fundo, rindo alto de algo que não entendo muito bem e parecendo dois amigos muito íntimos.

 

- Miguel, vamos embora. Raquel já está esperando por nós. – Interrompo o casal estranho e Herrera para de rir.

- Você é muito sem graça, Playboy Número Um – vejo Herrera apanhar um Trident das mãos de Miguel e colocar na boca. Aquilo foi estranho. Como é que os dois se deram bem?

- Aurea, minha Gata das Trevas... – ele começa a dizer e eu tenho vontade de vomitar. Ela com certeza vai bater nele por dizer essas coisas. – Eu te ligo assim que eu chegar em casa. – Miguel pega o braço de Herrera e beija as costas da sua mão.

- Espera aí – começo a falar ao ver que Herrera sorriu para Miguel. – Você não vai bater nele?

 

             Ela franze o cenho sem entender e responde:

 

- Porque eu bateria nele?

- Tá, então... não vai falar mal ou mandá-lo embora? – dessa vez sou eu quem fica sem entender.

- Porque eu faria isso, Playboy Número Um?

- Meu nome é Joe Riviere. – Minha voz sai entonada demais.

- Me acompanha até a minha Limusine, Gata das Trevas? – Miguel interrompe a nossa pequena discussão, assim que Raquel buzina do lado de fora. Ela me ligou várias vezes e eu nem percebi.

- Vocês tão de sacanagem comigo – digo assim que vejo os dois andando de braços cruzados um no outro até o carro de Raquel. – Só falta me dizer que trocaram telefone...

 

            Mal termino a frase e Miguel levanta um papelzinho nas mãos com o rabisco de um número, certamente assinado por Herrera.

 

- Miguel, como você está? – Raquel desce do carro e vai em direção ao irmão que ainda está de braços dados com a Garota da Graxa. Vou chamá-la assim daqui pra frente, já que ela gostou de me chamar de Playboy Número Um.

 

            Raquel olha para a Garota da Graxa e depois encara o seu querido irmão assanhado.

 

- Quem é ela, Miguel? Não me diga que já arranjou uma qualquer para levar lá pra casa para encher o saco do papai?

- Uma o quê? – Herrera da um passo a frente e seus olhos estão faiscando.

- Raquel, não diga besteiras, essa é a Aurea. – Miguel puxa a Garota da Graxa para trás. – Ela trabalha aqui e foi ela quem trocou o pneu do Joe ontem, não foi?

- Você fez o quê? – Raquel olha diretamente para mim e depois para a garota novamente.

- Raquel, vamos embora. – Puxo a minha namorada pelo braço e ela não resiste.

- É, Raquel, vai embora. – Herrera fuzila a minha mulher com os olhos, mas Raquel não faz nada. Apenas me obedece e depois entra no carro.

- Miguel, isso vale pra você também – grito para ele que ainda está rindo da situação.

- Tchau, minha Gata das Trevas. Foi um prazer em conhecê-la. Um beijo! – Ele lança um beijo no ar para Herrera, que retribui com uma piscadela rápida.

- Tchau, Playboy Número Dois.  – Herrera responde e nos dá as costas.

- Ela te chamou do quê? – Raquel pergunta.

- Me chamou de amor, irmã.  – Miguel sorri como uma criança.

- Essa garota é tão... – Raquel faz careta de nojo. – Estranha – completa.

- Pois fique sabendo, querida irmã, que essa “garota estranha” vai sair comigo amanhã?

- O quê? – dissemos juntos num uníssono, Raquel e eu.

- Vocês são engraçados. - Miguel coloca os óculos escuros e abre a janela do banco traseiro, se recostando no banco e digitando alguma coisa em seu Iphone.

 

             A viagem de volta vai ser longa.

 

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Kiane Berté

Colunista

Kiane Berté tem 25 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar

kianecdk@hotmail.com


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