'Código Azul' - capítulo 2

Por Kiane Berté

01/11/2019 10:43 - Atualizado em 01/11/2019 10:52



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Ótima leitura :)

 

           O despertador soou alto demais e eu quase caí da cama com o barulho. Estava exausto por causa do fim de semana cansativo que tive e mal podia esperar para chegar no hospital e atender aquelas pessoas que precisavam de mim.

 

           Antes de me levantar da cama, inclinei o meu corpo para poder beijar a testa de Raquel, que dormia como uma pedra. Ela mal sentiu o meu toque e se virou para o outro lado da cama, cobrindo os braços nus que estavam de fora.

 

           Fui até o banheiro e escovei os meus dentes, depois tomei um banho rápido, sequei os meus cabelos e segui para o meu closet no final do corredor para me vestir. Escolhi uma camisa branca de botões, uma calça social preta e sapatos da mesma cor. Fui até a cozinha e preparei o café na cafeteira elétrica caríssima que Raquel havia comprado, enquanto organizei a minha pasta do hospital. O café ficou pronto, eu o despejei na caneca térmica, depois segui até a garagem e entrei no meu Audi para ir trabalhar.

 

          O trânsito estava tranquilo e eu consegui chegar adiantado no hospital. Havia filas na emergência e a maioria das pessoas estavam gripadas. Podia ouvi-las tossindo e espirrando, pela janela da minha sala. Parecia uma epidemia que estava se alastrando rapidamente.

 

          A manhã demorou a passar. Atendi 14 pessoas gripadas e duas com problemas renais. Encaminhei os últimos dois pacientes para um especialista e já soube na hora que eles passariam por cirurgia em menos de 48 horas. Fiz a internação dos dois e os mediquei para que pudessem passar pela cirurgia mais tarde.

 

          Meu horário de almoço passou rápido naquele dia. O que era para ser uma hora se tornou 15 minutos, porque meu bipe do hospital não parou de tocar enquanto eu estava mastigando a comida. Uma mulher em parada cardiorrespiratória precisou ser atendida com urgência e eu não conseguia vê-la naquela situação. Felizmente ela sobreviveu e tudo ficou bem.

 

         À tarde foram mais 16 pacientes. Atendi oito crianças com diversos problemas de saúde, cinco adultos, com idades entre 19 e 40 anos, e três idosos muito simpáticos. Uma das crianças atendidas, de cinco anos, havia engolido uma moeda em casa. Os pais ficaram desesperados com a situação e trouxeram a menina até mim. Como eles me relataram que o objeto era pequeno e que era de uma coleção de moedas antigas que o pai tinha em casa, fiz com que eles ficassem mais tranquilos. Pedi para que fizessem a criança beber muita água e passei receitas com muita fibra para que ela comece.

 

- Se a moeda for mesmo pequena como me disseram, em cinco ou sete dias ela vai expelir o objeto. Caso isso não aconteça, vou ter que encaminhá-la ao centro cirúrgico.

 

            Essas foram palavras bem pesadas para os pais da criança. Claro que eles ficaram mais calmos com a explicação, mas dali em diante, eu tinha certeza de que eles iriam tomar mais cuidado quando estivessem limpando as moedas perto da filha.

 

            Consegui sair antes do trabalho. Passei na cafeteria do hospital e comprei outro café para poder beber enquanto me dirigia para casa para descansar do dia turbulento que tive.

 

            Entrei no carro e dei à partida. Segui para fora do estacionamento do hospital e percebi que alguma coisa estava errada. Olhando pelo retrovisor lateral, conseguia ver o pneu traseiro murcho. Estacionei o carro em uma das ruas e desci para conferir, mas já notei que estava furado.

 

- Que droga – dei um chute na borracha com defeito e apanhei o telefone para ligar para minha mãe. Ela demorou a atender.

- Joe, está tudo bem? – mamãe perguntou assim que atendeu ao telefone.

- Sim, mamãe, não se preocupe comigo, eu estou bem. Quem não está é o pneu do meu carro. – sorri e mamãe pareceu ouvir do outro lado da linha.

- O que houve, querido?

- Furou – disse num sussurro. – Vou precisar passar numa oficina antes. Talvez eu me atrase um pouco para o jantar.

          

        Não foi difícil explicar para Dora que eu estava bem e que o problema era só o pneu do meu carro. Mamãe se preocupava a toa comigo e eu só sabia rir da situação para confortá-la.

        

         Voltei para o carro e procurei por uma oficina mais próxima no Google Maps. Encontrei uma chamada Bosch que possuía quatro estrelas e meia. Sei que eu precisava apenas trocar o pneu furado, mas queria me certificar de que nada daria errado.

 

         Comecei a ler os comentários positivos e tentando descobrir porque uma das estrelas estava pela metade. Até que, de tanto rolar a barrinha lateral, um comentário ruim apareceu:

 

“Nunca mais volto nesse lugar. A mulher que trabalha ali é grossa e mal educada demais. Vai lavar uma louça!”

 

        Comecei a rir quando li o comentário. Como alguém poderia ser tão babaca a ponto de mandar uma mulher lavar a louça? Ele provavelmente deveria ter se recusado a pagar a conta e a funcionária pensou em chamar a polícia. É a única justificativa que encontrei para esse problema.

 

        Aliás, ela trabalhava no caixa, certo?

        Os demais comentários eram todos positivos e, muitos deles, eram quase uma ofensa, mas uma ofensa muito educada, de certo modo.

 

“Gata demais. Recomendo atendimento”, dizia um dos comentários assinado pelo nome Paul.

“Não é flor que se cheire, mas gostei”, dizia outro cara.

“Minha mãe adoraria ter uma nora assim”, esse comentário de alguém chamado Jack tinha cinco curtidas.

“Por um mundo com mais mulheres assim”, esse post e outro escrito: “Gostosa demais, com todo o respeito”, havia sido feito por uma mulher chamada Hanna.

 

        Voltei a rir de outros comentários pervertidos que encontrei sobre a tal funcionária e coloquei o endereço no GPS.  O aplicativo me levou para três quarteirões de distância de onde parei para verificar o pneu. Era próximo do hospital onde eu trabalhava.

 

        O local, do lado de fora, era cercado por uma parede de concreto toda preta e grafitada com caveiras e desenhos coloridos bacanas. Era um pouco assustador, mas eu conseguia ver uma fila de carros, prontos para sair de lá. Deduzi que era um ótimo atendimento mesmo. Consegui ouvir a batida do rock pesado que tocava do lado de dentro, e quase dei a volta no carro para sair dali.

 

        Antes que eu pudesse fazer isso, um cara todo tatuado e barbado veio até mim e me pediu para que eu entrasse pelo portão lateral. Eu obedeci às instruções e fiz a volta com o carro, entrando e estacionando onde outro homem barbado me direcionava.

 

        Eu desci do carro e logo fui atendido por outro homem. Ele era baixinho e tinha a voz fina demais. Parecia até uma mulher de cabelos curtos falando. Eu ri da situação e ele percebeu.

 

- Qual é o problema com o seu carrão, meu chapa? – o pentelho de voz fina perguntou.

- Ann... - saí de frente do pneu murcho e apontei em direção à ele. – Meu pneu furou.

 

O homem franziu a testa e balançou a cabeça, pensativo. - É só isso mesmo ou tem algum problema de verdade? 

No momento em que ele se abaixou para verificar o estrago, eu abri a porta do meu carro e disse:

 

- Tudo bem, não precisa mexer no pneu. Eu procuro outro lugar que possa fazer o serviço.

 

            O pentelho baixinho rapidamente se levantou e veio até mim, tocando o meu ombro e dando uns tapinhas leves.

 

- Calma aí, meu chapa, eu estava só zoando com você – o cara deu um sorrisinho e se afastou. – Meu nome é Bob, venha comigo, vou chamar Herrera para resolver seu problema.

 

            Fiz que sim com a cabeça, já sem paciência, e o Bob me conduziu até um cercado de veículos antigos com o capô aberto. Ele começou a trocar ideia com alguns outros homens estranhos que ali estavam bebendo cerveja barata e batucando o rock do rádio na lataria de um Opala preto.

 

- Herrera, precisamos da sua ajuda aqui.

 

            Assim que eu retirei o celular do bolso para mandar uma mensagem à Raquel para contar o que havia acontecido, uma mulher de cabelos castanhos compridos e todo bagunçado, saiu de trás de um dos veículos estacionados. Ela segurava uma ferramenta em suas mãos sujas de graxa, assim como a sua barriga, que estava totalmente de fora.

 

- O que houve, Bob? – ela perguntou toda séria. Eu mal conseguia falar e percebi que meus olhos estavam arregalados. Ela iria arrumar o meu carro?

 

- O cara ali está com o pneu furado e precisa trocar – Bob apontou para o meu veículo que estava parado logo atrás.

 

            A mulher, aparentemente jovem, me encarou com os olhos cerrados e não deu um sorriso se quer.

 

- Vamos lá, então – ela disse, e começa a caminhar em direção ao meu Audi.

- Não, espera – disse em seguida, fazendo-a parar no caminho. – Vocês me disseram que o Herrera iria trocar o meu pneu.

 

Bob, rindo acompanhado dos outros caras que estavam ali com ele, respondeu calmamente: - Ela é o Herrera.

- Aurea Herrera, muito prazer – ela acenou com a mão num tom debochado e depois seguiu até o meu carro.

 

            Eu rapidamente corri até ela e a fiz parar.

 

- Espera aí, você não pode fazer isso – disse ríspido demais. Porque eu estava tão nervoso, afinal?

- Porque não? – ela me olhou de esguelha. – Só porque sou mulher?

- Eles estão rindo de mim – apontei para os homens que estavam com Bob.

- Não liga para eles. Não estão rindo porque eu irei trocar o seu pneu, estão rindo porque você achou que eu era um homem. – Dei uma suspirada tão forte que ela ouviu e riu sozinha.

- Você quer ajuda? – perguntei ao vê-la sentir dificuldade para afrouxar o parafuso da roda.

- Não, tá tranquilo.

 

            Quando ela terminou a frase, os parafusos já se soltaram. Herrera colocou o macaco embaixo do meu carro e depois o levantou com tanta facilidade que eu fiquei admirado. Seus braços seram pequenos, mas quando ela forçava, seus músculos ficavam bem aparentes, mostrando o quão ela era forte.

 

            O pneu foi retirado e ela verificou com cuidado o que causou o estrago nele.

 

- Você passou por cima de um prego – ela me mostrou o buraco e depois passou o dedo sujo sobre o corte no pneu.

- Que má sorte. – Consegui responder. Ela só sorriu.

- Se você quiser ir até a loja e escolher o pneu que vai querer colocar, eu já deixo montado pra você. – Herrera limpou os dedos na calça jeans preta que estava rasgada nos joelhos. Ela estava calçando um coturno preto, e um pedaço de pano da mesma cor cobria somente os seus seios. Raquel costumava chamar isso de cropped.

 

            A oficina parecia pequena do lado de fora. Quando entrei no pátio e vi todos aqueles carros parados por ali, percebi que eu estava enganado. O local na verdade era grande e possuía uma loja de pneus de todos os tipos aos fundos.

 

            Fiquei admirado quando passei pela porta de vidro e me deparei com todos aqueles pneus luxuosos. Os detalhes da loja eram em preto, roxo e em alguns cantos, rosa. Devia ter sido escolha da mulher que acabara de me atender. Havia muitas outras coisas à venda ali dentro e todas em perfeito estado. Fiquei um pouco perdido em tantas opções.

 

- Posso te ajudar? – o atendente chamou a minha atenção. Eu imaginava que a atendente era uma mulher.

 

Parece que me enganei.

Quando estavam se referindo à mulher “gostosa e bonita”, estavam falando de Herrera.

Eu era mesmo um babaca!

 

- Claro, preciso desse modelo para o Audi Q5 – entreguei a ele um cartão com as informações 255/45 R20 . Ele assentiu e respondeu.

- Certo, gostaria de pagar com cartão?

 

            Fiz que sim com a cabeça e ele apanhou o meu cartão, eu digitei a senha e ele confirmou a minha compra. Herrera apareceu na porta da loja, olhando para o relógio pendurado na parede, próximo de onde a gente estava.

 

- Conseguiu escolher? – ela perguntou com pressa.

- Já sim, esse mesmo – ergui o pneu escolhido e comecei a carregá-lo para fora da loja.

- Me dá que eu levo – ela tomou o pneu das minhas mãos e o ergueu em cima da cabeça. Seu rosto estava corado e ela estava suada.

 

            Havia mais pessoas dentro da oficina e um dos homens tatuados e barbados que me atendeu quando cheguei, pediu para a garota dar uma mão em outro carro que estava com defeito.

 

- Você pode ir, eu peço para algum dos homens me atender – sussurrei quando ela colocou o pneu na roda e começou a apertar os parafusos.

- Não faço o serviço pela metade – ela respondeu secamente.

- Desculpe – foi tudo o que consegui dizer.

 

            Ficamos em silêncio até que ela terminasse o serviço. Quando todos os parafusos estavam bem apertados, ela soltou o macaco e se levantou.

 

- Você pode voltar para a sua carruagem, príncipe. – Herrera suspirou e coçou a ponta do nariz, sujando parte dele.

- Príncipe? – franzi o cenho e sorri.

- Fui educada, apenas. – Ela desfez o coque mal feito que estava se soltando e prendeu os cabelos num rabo de cavalo. Seus cabelos estavam mais bagunçados do que antes. – Agora para de olhar para a minha barriga. – disse por fim, me pegando de surpresa.

- O-o quê? – gaguejei nervoso com a frase.

- Você me ouviu, Playboy.

- Você não pode me pedir para parar de te olhar se você está vestida assim – quando minhas palavras terminaram de sair da minha boca, me arrependi do que havia acabado de dizer.

- Como é que é? - seus olhos estavam pegando fogo e percebi que ela ficou incomodada.

- Olha, me desculpa tá, eu só estou estressado com as coisas que aconteceram e...

- E nada, só porque está com problemas não quer dizer que pode sair falando essas coisas para as pessoas, ainda mais para uma mulher. – Herrera suspirou e por fim disse: - Seu machista.

 

            Meus olhos se arregalaram e eu rapidamente tentei me aproximar dela para pedir desculpas. Ela me afastou com as mãos e começou a andar para longe de mim.

 

- Me desculpe, Herrera, não foi minha intenção...

- Meu nome é Aurea, agora vá embora, Playboy.  – A jovem garota suja de graxa levantou a mão e mostrou o dedo do meio para mim. Eu comecei a rir da situação, agradeci pelo serviço e entrei no meu carro para ir embora.

- Você irritou mesmo ela – Bob disse ao se aproximar para abrir o portão.

- Ela é difícil de lidar – respondi sorrindo.

- Você se acostuma. – Bob me lançou uma piscadela e depois fechou o portão atrás de mim.

 

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Kiane Berté

Colunista

Kiane Berté tem 25 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar

kianecdk@hotmail.com


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