'Código Azul' - capítulo 1

Por Kiane Berté

25/10/2019 11:25



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Ótima leitura :)

 

Como tudo aconteceu

 

           Antes de pensar em ser médico e seguir os passos de meu pai Caio Riviere, eu queria ser poeta, escritor, ou algo que me fizesse sonhar ainda mais com a vida perfeita que venho tendo.

 

           Não sou muito de me abrir com as pessoas, mas agora que conheci Raquel estou tendo menos dificuldades com isso. Minha mãe Dora é fascinada em Raquel e eu sei que fiz uma boa escolha quando a encontrei e a convidei para tomar um café na lanchonete do hospital. Estamos juntos há dois anos e, desde então, venho preparando tudo para pedi-la em casamento. É muito cedo para isso, mas meus pais estão com pressa para que eu me case e construa uma família. Talvez isso seja o correto a fazer, mas gostaria de esperar mais um pouco até tudo estar no devido lugar.

 

            Atuo como médico há cinco anos e, mesmo assim, preciso continuar estudando para chegar aonde meu pai chegou e dar orgulho para a minha família, mais do que já estou dando. Tenho 27 anos, mas pareço velho demais por estar sempre cansado. Minha vida está perfeita do jeito que está, mas eu gostaria de ter um pouco mais de diversão, às vezes. Não estou reclamando, só estou fazendo um comentário que rapidamente passou e foi embora da minha consciência.

 

           Meu avô também era médico. Minha avó era enfermeira. Foi no hospital que os dois se conheceram e iniciaram uma relação. Meu pai conta que se tornou médico por causa de meu avô já falecido e que desde quando soube que eu estava a caminho, me incentivou na profissão tão amada por ele. Isso, mesmo eu enchendo a barriga de minha mãe de pontapés. Ele conversava comigo através daquelas tantas camadas de pele que me escondiam do mundo.

 

           Meu pai é aposentado, mas mesmo assim atende em seu consultório particular. Minha mãe não trabalha, assim como Raquel. Raquel é filha de pais milionários – como os meus – e no momento estuda para ser advogada. Minha futura esposa é perfeita para mim. Tudo nela se encaixa de acordo com as curvas dos meus pensamentos. Ela é inteligente, prestativa demais, gosta de ouvir as poesias que crio para me distrair e, além de tudo isso, gosta de mim e de tudo o que eu faço. Ela também gosta de meus pais e isso já a torna perfeita.

 

- Que horas você precisa estar no hospital amanhã? – Raquel se aproximou de mim com o zíper do seu vestido preto de mangas longas, aberto.

- Muito cedo – respondi com um sorriso calmo e sincero.

- Pode fechar o meu vestido? – ela perguntou, já tirando os cabelos ruivos e compridos de cima de seus ombros para que eu suba o zíper prateado de suas costas.

- Claro.

 

           Era domingo à noite e estávamos saindo para jantar depois de uma semana exaustiva de trabalho e estudos. Raquel escolheu um restaurante italiano para comermos e já havia reservado nossos lugares. Eu estava pensando em pedi-la em casamento lá mesmo, só para ver meus pais felizes quando entrássemos por aquela porta de madeira quando chegássemos em casa, pouco depois da meia-noite. Mas meus pensamentos com relação ao tempo de namoro estavam martelando na minha cabeça o tempo todo. Eles me alertavam de que ainda não era o momento e nem o lugar para isso acontecer.

 

Às vezes eu não entendo minha própria cabeça.

 

          Saímos de meu apartamento e entramos no carro para seguir até o restaurante luxuoso escolhido por Raquel. Chegaríamos na hora, se não fosse por ela sujar seu vestido preto ao encostar-se em um dos carros cheio de lama estacionado ao lado do meu Audi. Precisei esperar Raquel trocar de roupa para que pudéssemos sair. Depois de 15 minutos de espera, ela saiu do elevador do prédio usando outro vestido preto, mas de mangas curtas dessa vez. Além do look novo, ela apareceu com um blazer preto nas mãos. Estava ainda mais linda do que antes.

 

- Ainda bem que estávamos em casa ou você teria que me trazer de volta. – ela suspira enquanto retoca o batom vermelho nos lábios finos, usando o espelho do meu carro.

 

Raquel é um pouco exigente.

Tá bom, ela é exigente até demais, mas eu a amo mesmo assim.

 

          Ela implica com muitas coisas, coisas pequenas que nem se quer eu penso em notar, como por exemplo: a cor do meu jaleco ou se ele está amassado ou não. Quem é que se preocupa se o jaleco está amassado, quando se tem muitas pessoas doentes no ambiente em que você está? Ela não entende muito dessa minha vida corrida no hospital, mas sabe que isso é a minha vida e que eu amo cuidar dos idosos e das crianças que estão enfermas, esperando por uma conversa amigável comigo ou de alguma brincadeira que eu estou prestes a fazer para vê-las sorrir.

 

- Boa noite, eu me chamo Raul e serei o seu garçom hoje à noite. – Um gentil homem nos recebeu na porta do restaurante. – Vocês têm reserva? – ele perguntou ao apanhar uma grande agenda preta de capa dura de cima do balcão.

- Claro que temos reserva – Raquel respondeu indelicada.

- Preciso dos nomes de vocês para poder conduzi-los até a mesa reservada. – Raul sorriu um pouco tímido.

- Raquel Ahnert e Joe Riviere – minha bela ruiva respondeu antes mesmo de eu abrir a boca para falar com Raul.

- Oh, claro, vocês estão na lista – ele levantou o rosto e nos deu mais um sorriso caloroso.

- Claro que estamos – Raquel revirou os olhos, impaciente.

- Sigam-me, por favor.

 

           Raul nos levou até uma mesa redonda aos fundos do restaurante, onde um lustre enorme iluminava a prataria sobre a toalha de seda brilhosa.

 

- Vou deixar os cardápios para vocês escolherem o que vão comer. – Raul nos entregou dois tipos de agendas pretas de capa dura, parecidas com o que ele usou para verificar se nossos nomes estavam na lista. – Gostariam de beber algo?

- Um vinho seria ótimo – respondi antes que Raquel abrisse a boca.

- Ótima escolha – ele disse batendo palmas. – Irei trazer um vinho novo que todos estão elogiando. Vocês vão adorar.

- Ótimo – disse Raquel por fim. O homem se retirou.

- Esse lugar é muito bom, Raquel. É lindo. – Comentei ao vasculhar o ambiente com os meus olhos curiosos.

- Seu pai quem me indicou – ela sorriu e cruzou os braços sobre a mesa.

- Ah – é só o que eu consegui dizer. Tive a impressão de que meu pai escolheu o lugar, somente para que eu pedisse Raquel em casamento. Mas isso não ia acontecer. Não naquele dia, pelo menos.

 

         O garçom nos trouxe o vinho cinco minutos depois, nos serviu e pediu para que provássemos. Dei o primeiro gole e adorei. Raquel bebeu e fez a cara feia de sempre, quando algo não a agrada.

 

- E aí, como estava? – Raul nos perguntou, animado.

- Uma maravilha – confirmei bebendo mais um pouco.

- E a senhorita, o que achou? – ele se virou para Raquel que descansou a taça sobre a mesa.

- Já bebi melhores.

 

          Raul ficou sem graça e logo desviou o olhar, e seu sorriso desapareceu dos lábios em instantes. Raquel percebeu o que está acontecendo, quando me pegou fazendo cara feia para ela.

 

- Raul, esse vinho é ótimo – mentiu descaradamente e sorriu. Qualquer um notaria que seu sorriso era falso.

- Obrigado, senhorita – Raul pediu licença e se retirou da mesa, levando nossos cardápios e nosso pedido.

- Porque falou daquela maneira com ele?

- Calma, Joe, eu só falei a verdade.

 

            Se estivéssemos em casa eu falaria muitas coisas para ela, mas como estávamos em público, decidi me calar e continuar o jantar agradável.

 

            Pedimos risoto branco e algumas outras coisas para acompanhar o prato. Comemos tudo e ainda pedimos uma sobremesa que estava tão boa quanto à janta. Depois de comermos um pudim delicioso, começamos a conversar sobre o hospital e sobre a faculdade de Raquel.

 

            Ela estava um pouco nervosa e ansiosa esperando por seu irmão mais velho que chegaria da Inglaterra em três dias. Miguel estava morando fora há cinco anos e nos visitava a cada seis meses, quando conseguia folga de seu trabalho como arquiteto. A empresa era de seu pai, mas ele trabalhava como empregado e estava se dando muito bem por lá. Raquel e ele foram criados juntos, até Miguel completar 18 anos e ir para a faculdade – época em que Raquel estava com 16. Desde então, ele se mudou para Inglaterra e permanece até hoje nos seus 26 anos.

 

- Gostariam de pedir mais alguma coisa? – Raul se aproximou da mesa com as mãos para trás.

- A conta, por favor, Raul – sorri educadamente para ele, que se retirava e voltava segundos depois com o caderno de acerto do restaurante. Paguei a conta com um dos meus cartões e depois nos retiramos.

           

           Entramos no carro e seguimos de volta para o meu apartamento, enquanto ouvíamos Red Hot Chili Peppers no DVD. Raquel estava meio sonolenta e acabou cochilando, usando seu blazer preto como cobertor. Ela acabou acordando quando eu parei o carro em um trecho movimentado.

 

- O que houve, Joe? – ela perguntou a me ver descendo do carro com ele ainda ligado.

- O carro está fazendo um barulho estranho – dei a volta no Audi e abri o capô para conferir se o barulho vinha dali.

- Volta para dentro, é perigoso ficar aqui há essa hora – ela olhou para o relógio de pulso de ouro. – Amanhã você pode procurar uma oficina. – Eu fechei o capô e entrei no carro, dando a partida e seguindo viagem.

 

           Raquel não morava no meu apartamento, mas dormia comigo sempre que podia e sempre que eu pedia. Ela tinha um pequeno closet em um dos quartos do meu apartamento e isso fazia com que ela nunca se preocupasse em buscar roupas ou qualquer outra coisa em sua casa. Então, quase sempre ela ficava comigo.

 

- Você gostou do jantar? – perguntei a ela enquanto subíamos pelo elevador até o meu andar.

- É claro, meu amor. Tudo o que faço ao seu lado é maravilhoso – ela respondeu me beijando. Raquel fez o elevador parar e começou a me acariciar descontroladamente. Não é a toa que eu sempre pedia para que ela dormisse aqui.

- Deixa isso para depois, linda. Tem alguém chamando pelo elevador.

- Você é sem graça! – Ela fez beicinho e se afastou para que eu pudesse ativar o elevador novamente. Ele nos levou ao décimo andar.

 

          Pouco depois de entrarmos no apartamento, recebi uma mensagem de meu pai. Acabei não olhando de primeira e a guardei para ler mais tarde, me ocupando apenas com Raquel me jogando sobre a minha cama de casal que estava com os lençóis brancos esticados. Depois de uma hora, enquanto minha futura mulher tomava seu banho de rosas no banheiro do meu quarto, apanhei o celular do criado mudo e procurei pela mensagem de meu pai, em meio às outras que chegaram em seguida.

 

“Como foi o jantar, meu filho? Alguma novidade?”

 

          Ri sozinho ao ler aquilo. Eu sabia que indicar aquele restaurante significava alguma coisa para ele. Eu respondi rapidamente: “O vinho estava ótimo, papai, obrigado pela recomendação.” E depois joguei o celular sobre a cama e me levantei para comer alguma coisa, antes de tomar meu banho e descansar. Pouco depois, meu aparelho vibrou e eu já sabia que era meu pai chamando.

 

“Mas e aí, conseguiu fazer o pedido?”

Respirei fundo e digitei algumas palavras para reenviar.

“Não, papai. Ainda é muito cedo.”

 

         Enquanto comia cereal de chocolate com leite, eu vi o nome de meu pai aparecer na tela do celular novamente. Ignorei a mensagem desta vez e excluí antes mesmo de abri-la.

 

         Raquel saiu do banheiro enrolada em seu roupão rosa e caminhou descalça pelo corredor que levava ao seu pequeno closet. Eu a segui e, enquanto a observava vestir seu pijama, peguei seu roupão úmido e o pendurei sobre o cabide do quarto.

 

- Quer jantar com os meus pais amanhã? – perguntei.

- Eu adoraria, mas não posso faltar na faculdade porque tenho uma prova muito importante amanhã – ela respondeu, se aproximando de mim e me abraçando.

- Mas você não poderia faltar só amanhã? – beijei sua testa e ela fechou os olhos quando sua pele foi tocada.

- Você faltaria no hospital amanhã se eu pedisse? – ela perguntou em seguida, eu dei um riso bobo e a abrecei forte.

- Tudo bem, nos vemos na terça.


Kiane Berté

Colunista

Kiane Berté tem 25 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar

kianecdk@hotmail.com


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