A história não contada da Boate Kiss


Por Kiane Berté

24/01/2020 08h57 - Atualizado em 27/01/2021 09h24



Livro lançado pela Daniela Arbex em 2018 (Foto: Divulgação)

TODO DIA A MESMA NOITEA história não contada da Boate Kiss

 

Esse livro magnífico foi escrito pela excelentíssima Daniela Arbex, a mesma autora do ‘Holocausto brasileiro’ – livro que pretendo resenhar para vocês em breve.

 

Para quem não sabe do que eu estou falando, o livro conta toda a história, de cabo a rabo, de uma das maiores tragédias brasileiras, que ocorreu no dia 27 de janeiro de 2013, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

 

Neste livro, de pouco mais de 240 páginas, Daniela retrata todo o acontecimento em forma de um livro-reportagem. Ela passou dois anos trabalhando em cima dele para poder deixá-lo assim, do jeito perfeito que está. Daniela ouviu o Corpo de Bombeiros, enfermeiros, delegados, médicos, os pais e amigos das vítimas, e todos aqueles que estavam envolvidos na tragédia de alguma forma.

 

- Mas o que aconteceu mesmo lá, Kiane?

 

Bom, na madrugada do dia 27 daquele ano, 242 pessoas acabaram morrendo asfixiadas devido a um incêndio que aconteceu na Kiss. Naquele dia, o grupo ‘Gurizada Fandangueira’ tocava no local e um integrante da banda acendeu um sinalizador de navio dentro da boate (super ideia de jerico). Como o teto era bem baixo, as chamas do objeto acabaram se encostando lá e aquilo causou um desastre.

 

O que aconteceu na verdade é que o teto era coberto por uma espuma inflamável e tóxica, e isso fez com que o local ficasse completamente cheio de fumaça em questão de minutos. Aquela fumaça fez as vítimas perderem os sentidos e isso levou muitas delas a óbito.

 

Uma coisa bem arrepiante de falar é que essa espuma do teto continha cianeto, a mesma substância letal que era usada nas câmaras de gás dos campos de concentração nazistas (nem é muito bom lembrar ou falar sobre isso, credo).

 

Outra coisa bem importante que eu queria lembrar é que a Boate suportava 769 pessoas, mais ou menos, conforme o Corpo de Bombeiros, e no dia do incêndio havia mais de 1.100, lá dentro, segundo o livro de Daniela.

 

Mais de 680 pessoas se feriram e muitas delas guardam sequelas da tragédia até hoje. Queimaduras graves pelo corpo, a perda do movimento dos dedos, dos braços, e até a amputação da perna de uma jovem ocorreu devido à gravidade dos ferimentos.

Madrugada do dia 27 de janeiro de 2013 (Foto: Divulgação)

Apesar de algumas famílias das vítimas não quererem se lembrar da tragédia e nem querer serem lembradas por isso, a autora conseguiu falar com muitas outras, porque todas elas buscam por justiça até os dias de hoje, e querem que os responsáveis paguem pelo que fizeram.

 

Os pais das vítimas até criaram uma associação de apoio às famílias e estão buscando por justiça há sete anos, porque ninguém foi preso até o momento. Uma página no Instagram chamada de “Kiss: que não se repita”, foi criada por um guri chamado André Polga, para servir de apoio aos familiares. O André me contou que perdeu duas amigas na Boate naquela noite e, desde então, acompanha as famílias.

 

O livro é contado em primeira pessoa, como se os próprios pais, amigos e parentes, estivessem falando com a gente e contando os detalhes daquela noite. Eles descrevem como foi o dia e a noite deles naquele 27 de janeiro, como as coisas aconteceram e como eles descobriram sobre a tragédia.

 

Ela conta tudo com tantos detalhes e com tantas informações que nem sequer foram divulgadas pelas mídias, que a gente se sente na história, sente a adrenalina e todo aquele sentimento de tristeza e dor das famílias e vítimas sobreviventes.

 

Juro pra vocês que fiquei enjoada uns três dias, depois de ler...

 

Emendando essa parte, eu participei de um bate-papo com a autora, em agosto do ano passado, e ela relatou todo o processo de criação deste livro. Daniela Arbex disse que perdeu dez quilos nesse processo e que precisou de ajuda psicológica para superar tudo. Tu imagina uma pessoa ter que ouvir todos esses relatos de morte e sofrimento e depois ter que ouvir novamente para colocar no papel, imaginando em cada palavra tudo o que aconteceu?

 

Deve ser muito complicado, assustador e perturbador. Então agora imagina para as famílias, amigos, namorados e parentes que passaram por isso ao vivo... Difícil, né?

 

Bom, eu gostaria de falar mais sobre ele, de detalhar histórias que são contadas no livro, mas vai ficar muito extenso e isso não é o que eu quero, até porque, pode ficar cansativo para você que tá lendo.

 

Mas antes de finalizar, vou deixar um dos trechos ‘menos pesados’ do livro para instigar vocês a lerem e a conhecerem a fundo toda a história da tragédia.

 

“Acompanhada de um policial militar que segurava uma lanterna, Liliane precisou desviar para não pisar em nenhuma das pessoas. Por um segundo, teve a impressão de que muitos dos jovens pelo chão apenas dormiam, embora a morte deles já tivesse sido constatada pelo médico Carlos Dornelles. Quando a enfermeira se ateve ao rosto de cada um, percebeu que a maioria exibia uma fuligem preta na entrada do nariz e uma espécie de espuma branca saindo pela boca, sinais de intoxicação por fumaça. A capitã da brigada caminhou pela Kiss atordoada não só com o que viu, mas com o barulho dos celulares das vítimas. Os aparelhos tocavam juntos e cada telefone tinha um som diferente. Muitos tocavam conhecidas músicas sertanejas, outros, forró e até o repertório tradicional gaúcho. Na maioria dos casos, porém, o visor indicava a mesma legenda: “mãe”, “mamãe”, “vó”, “casa”, “pai”, “mana”. Aquela sinfonia da tragédia era tão insuportável quanto a cena que Liliane presenciava”.

 

Vocês precisam ler esse livro. Ele é bem pesado na descrição das cenas, mas vale muito a pena a leitura. Se vocês lerem, me contem o que acharam, porque eu vou adorar saber a sua experiência com ele.

 

Até a próxima!

Kiane Berté

Kiane Berté tem 26 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


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