Aos três anos tomei meu primeiro porre de caipirinha


Por Kiane Berté

04/11/2021 17h09 - Atualizado em 26/11/2021 15h44



Capítulo 17 da série 'histórias que eu ouço na clínica'.

 

ATENÇÃO: a história a seguir pode ter gatilhos.

Trabalhos desenvolvidos pelos pacientes da clínica (Foto: Kiane Berté)

Na família de Pietro Vargas (nome fictício), o alcoolismo passou de geração para geração. Começou com o avô Norberto (nome fictício), ainda muito novo, seguindo para o pai, Ademar Vargas (nome fictício), e terminando com ele, hoje com 20 anos de idade.

 

Pietro é bem novo, tanto na idade, quanto na aparência física que, muitas vezes o faz passar por menor de idade nos locais. Mesmo com apenas 20 anos nas costas e toda uma vida pela frente, ele acabou na clínica de reabilitação para se tratar de vícios e de uma doença grave chamada depressão.

 

Um dos vícios que Pietro tem é o alcoolismo. A bebida passou a fazer parte de sua vida aos três anos, quando ele ainda não entendia muita coisa, e nem ao menos falava direito. Foi embebedado pelo próprio avô paterno.

 

Norberto costumava fazer isso com os netos, o tempo todo, realizando uma espécie de brincadeira, colocando uma colher cheia de caipirinha na boca das crianças, as deixando fora de si.

 

Depois do primeiro “porre” alcoólico, Pietro ainda era debochado pelo próprio pai, que relatava que o menino chorava no banho pedindo mamadeira com pinga.

 

Com o passar do tempo, a criança foi se desenvolvendo, deixando o álcool para trás, mas acompanhando toda a trajetória do pai, que sofria com alcoolismo. Aos 12 anos, quando presenciou a briga entre os pais e a separação definitiva deles, por conta do uso excessivo de bebida alcoólica, Pietro saiu de casa, pois não conseguia suportar aquela decisão.

 

A partir daquele momento, o menino passou a desenvolver a depressão. No começo não sabia que aquilo que sentia em seu interior era uma doença aflorando, mas podia perceber a tristeza imensa que se escondia no fundo da alma.

 

Também foi nessa época, em meados de 2013, que Pietro descobriu algo sobre si, que iria mudar de vez a sua vida. Na certidão de nascimento e também em seu RG de identificação, ele foi registrado como Julia. Pietro não falou muito sobre essa transição que passou na vida, mas deixou bem claro que, desde os 13 anos de idade, passou a ser um homem transexual.

 

Logo depois que saiu da casa do pai, Pietro conheceu, pela internet, uma menina, com cinco anos a mais de diferença. O relacionamento dos dois não era bem visto pela família, tanto dele, quanto da garota. Como ambos estavam apaixonados, foram viver juntos, embaixo do mesmo teto, durante pouco mais de dois anos, tentando burlar todas as barreiras possíveis que iam contra o casal.

 

O relacionamento dos dois acabou não dando certo, porque Pietro, ao retornar do trabalho, flagrou a namorada aos beijos com a melhor amiga, que vivia junto com o casal o tempo todo, dentro da própria casa.

 

“Não deu certo também pelo preconceito. Minha família inteira é religiosa.”

 

Aquele foi mais um motivo para que Pietro se afundasse na depressão de vez. O trauma do primeiro relacionamento amargurado que teve, serviu para que ele não confiasse em mais ninguém dali em diante.

 

Foram dias difíceis no pós-termino. Pietro voltou a morar com o pai e a sua vida passou de mal a pior, aos 15 anos. Junto com Ademar, Pietro vivia em festas noturnas, mais popularmente, os bailes de interior.

 

“Eu ajeitava mulher pra ele, e ele ajeitava mulher pra mim.”

 

O garoto ainda era de menor, mas o pai não ligava. Ambos saiam para beber juntos e Ademar deixava bem claro ao filho que a regra era simples: quem bebesse menos, dirigia de volta para casa. E entregava as chaves do carro ao filho alcoolizado. Além de tudo, Pietro recorda que o pai carregava consigo uma arma de fogo para se proteger, caso alguém tentasse alguma coisa contra eles.

 

Hoje, os dois não fazem mais os mesmos programas “divertidos” de antes, porque Ademar largou o vício pelo álcool e entrou na igreja, sendo “promovido” a pastor, há quatro anos.

 

“Mas hoje ele continuando saindo com as mulheres.”

 

O avô de Pietro, que o incentivou a encher a cara ainda pequenino, hoje é cadeirante e cheio de problemas de saúde. Norberto reside com outros três netos, o filho Ademar e também uma filha com sofre com autismo.

 

Depois de ter “aprontado” bastante na cidade onde vivia, Pietro decidiu morar com a mãe no litoral catarinense. Lá, vivendo debaixo do mesmo teto que ela e do novo companheiro, Pietro ficou ainda mais perturbado.

 

Na ausência da mãe durante as jornadas de trabalho dela, Pietro era abusado pelo padrasto. O estupro ocorreu diversas vezes dentro da mesma casa, mas ele não deu detalhes sobre o que realmente aconteceu. O trauma foi ainda maior, porque que ele chegava a ser agredido pelo homem por defender os outros irmãos que viviam na mesma residência.

 

O padrasto chegou a ser preso por tentativa de homicídio no começo deste ano, mas o crime de abuso sexual ficou escondido por um bom tempo, até que Pietro se sentisse confortável para se abrir com a mãe, que nem ligava muito para ele.

 

Quando resolveu contar tudo e colocar as cartas na mesa, depois que o abusador já havia sido levado pela polícia, o jovem se viu sozinho no mundo. Pietro leu um e-mail que a mãe havia enviado ao companheiro presidiário, dizendo que o amava e que ele era a única coisa que a mantinha viva, e viu o mundo desmoronar ao seu redor.

 

“Na hora que eu li o email me deu raiva. Catei uma faca e fui na casa dela. Minha intensão era matar ela.”

 

Ele tentou contra a vida da própria mãe, mas foi contido por pessoas que estavam no local buscando pelos serviços de costura dela.

 

Alguns anos antes, Pietro já havia se viciado em drogas, das mais diversas possíveis, e fazia o uso quando fugia de casa durante a noite, para ir em festas com amigos que nem conhecia direito.

 

No ano passado, Pietro chegou a receber auxílio emergencial por estar desempregado. Ele usava o dinheiro que caía todo mês na conta, para comprar as drogas que lhe faziam tanta falta.

 

Quando retornou para a cidade antiga, para viver definitivamente com o pai, o menino até tentou largar os vícios sozinho, sem ajuda de ninguém. Deu certo por um tempo, mas encontrou influências negativas pelo caminho e tudo desmoronou.

 

Ele também tentou contra a própria vida, tomando medicamentos tarja preta, na esperança de ter uma overdose e acabar com o sofrimento sem fim. Como não deu certo, Pietro se jogou na frente de um carro, na rua, de propósito, mas aquele pequeno acidente apenas resultou em alguns machucados e cicatrizes que ele carrega até hoje.

 

“Os únicos R$ 50 que eu tinha para pagar minhas contas eu usei pra comprar cocaína.”

 

Ao se deparar com a situação precária do filho, Ademar procurou autoridades que ajudassem Pietro a se internar em uma clínica de reabilitação. E foi o que aconteceu. O jovem diz ter vindo por vontade própria, mas sentiu que “se não fosse por bem, iria por mal”.

 

Hoje está tentando se adaptar ao novo lar. Já fez amigos e amigas e até está se alimentando melhor. Sobre o que pensa em fazer quando deixar a clínica nos próximos dias, ele diz não saber, pois prefere não ter essa preocupação no momento.

 

A única coisa que ele precisava agora é deitar no sofá e ouvir o silêncio que reina na salinha de televisão, na ala feminina, onde serve para descansar e pensar na vida. 

 

>> A história que você acabou de ler faz parte de um projeto que venho desenvolvendo na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada e pertence a um dos pacientes da unidade. 

Kiane Berté

Kiane Berté tem 27 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


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