Vendi meu carro por 120 gramas de pó


Por Kiane Berté

08/10/2021 15h52 - Atualizado em 08/10/2021 15h58



Capítulo 16 da série 'histórias que eu ouço na clínica'.

Reflexões deixadas pelos pacientes no corredor da clínica (Foto: Kiane Berté)

O fundo do poço chegou cedo na vida de Adilson Lucas (nome fictício). Foi basicamente com 23 anos, a idade que ele tem hoje.

 

Vindo de uma família bem estruturada, mesmo com a morte do pai há dez anos, Adilson vive no interior, junto da mãe Joana (nome fictício) e do padrasto. Lá, eles se revezam para cuidar das vacas de leite e da propriedade que construíram com tanto esforço e de onde tiram o sustento da família.

 

O jovem nunca pensou que a vida poderia ser tão difícil. Ele teve uma infância bem tranquila, ao lado dos amigos e do irmão mais velho, apesar de ter sofrido com a perda do pai aos 11 anos de idade, quando o homem teve complicações por conta da varicela.

 

A adolescência seguiu normal, sem muita rotina e sem muitas obrigações, até entrar no último ano do ensino médio. O tão esperado “terceirão”.

 

Durante o dia, ele passou a ajudar um dos primos em uma oficina na cidade e, com o trabalho que desenvolvia, precisou estudar no período da noite. 

 

Adilson tinha 16 anos na época e se recorda muito bem dos encontros que tinha com os colegas, que se diziam amigos, dentro do banheiro da escola. Na companhia deles, o rapaz teve acesso à maconha pela primeira vez.

 

Ele se recorda que era uma droga leve e que apenas lhe fazia sentir sensações prazerosas e muita tranquilidade. E como os “amigos” passavam por essa experiência quase todas as noites, em um encontro às escondidas no banheiro, como uma espécie de clube secreto, Adilson acompanhava os parceiros e quase toda noite fumava a maconha que para ele era preciosa.

 

O tempo foi passando. Os anos foram seguindo e ele conseguiu um emprego de segurança em uma empresa conhecida da cidade, através de um dos seus primos mais velhos, o Roni (nome fictício).

 

Eles costumavam trabalhar nos mesmos horários e, muitas vezes, passavam horas acordados para manter a segurança do local.

 

Em um dos dias de maior exaustão por conta do horário, Roni, dentro do carro na companhia de Adilson, apanhou um pacotinho contendo pó branco e fez o uso dele, oferecendo em seguida para o primo, que olhada aquela cena surpreso e com um pouco de desaprovação.

 

Adilson, até aquele momento, só havia usado maconha e não conhecia demais drogas que existiam. Presenciar aquela cena do parente foi estranho para ele, mas com tamanha insistência da parte de Roni, usando como argumento de que a droga o faria ficar acordado a noite toda e que o sono iria embora, ele caiu em tentação. Aquele foi o começo para a vida dele desmoronar aos poucos. O problema daquilo tudo, era que Adilson não sabia que teria consequências.

 

“Eu era bobo aquela vez.”

 

A alegria momentânea chegava rápido. Era como uma mágica, e deixava Adilson bastante contente e realmente leve. Mas, horas depois, quando a substância se evaporava do organismo dele, o cansaço batia, e a consciência pesava.

 

Depois daquela primeira experiência negativa, o jovem nunca mais deixou de lado a droga de cor branca. No trabalho, em casa, na companhia de amigos, em festas... Qualquer local era uma oportunidade para que ele fizesse o uso da cocaína e sentisse coisas que na vida real não podia ter.

 

“Eu não ficava alucinado, eu usava só porque gostava.”

 

Quando o salário começou a cair na conta, Adilson passou a sair mais, conhecer novos amigos, e usar ainda mais entorpecentes dos quais adorava tanto. Ele chegou a experimentar outras drogas como LSD e também crack, mas não o suficiente para se viciar. Isso, de alguma forma, o deixa aliviado nos dias de hoje, porque poderia ter sido ainda pior.

 

Joana sabia que o filho andava estranho, mas nunca o questionou do porque de estar agindo daquela forma.

 

Em um dia qualquer, quando já não aguentava mais guardar para si aquela situação, Adilson se abriu com a mãe. Em um papo informal, como se estivesse jogando conversa fora com amigos na rua, ele contou tudo a Joana.

 

Sem muita reação, a mãe se sentou e começou a assimilar a conversa que teve com o filho caçula. Ela sabia que ele estava em um caminho errado e que, se não fosse tratado depressa, a coisa poderia se agravar ainda mais.

 

Foi nesse momento que Adilson resolveu se internar pela primeira vez em uma clínica de reabilitação. E nessa decisão, ele não foi sozinho. Roni, o primo que o havia viciado nas drogas pesadas, também se internou, buscando por ajuda e por uma qualidade de vida melhor.

 

“Não quero mais isso pra minha vida.”

 

Adilson ficou três meses em tratamento, voltando para casa tranquilo e com outra mentalidade sobre a vida. Mas, apesar disso, ele passou a sentir as recaídas seis meses depois, precisando retornar para a clínica.

 

Esse processo de internação perdurou por mais duas vezes, sendo quatro num total, durante apenas dois anos.

 

“Eu poderia estar bem, estar viajando pelo mundo a fora, mas estou aqui.”

 

Há pouco mais de um ano, antes de se internar pela terceira vez, Adilson se viu no "fundo do poço", como ele mesmo disse. A falta que sentia de poder usar cocaína era tamanha, que não pensou duas vezes antes de vender o próprio carro, um Corsa Sedan, em troca de 120 gramas de pó.

 

Adilson simplesmente entregou a chave do carro em troca de um pacote razoável de cocaína, o equivalente a R$ 9 mil.

 

O jovem usou e abusou da substância. Boa parte ele dividiu com os colegas com quem costumava sair nos finais de semana, e outra, vendeu para poder comprar bebida alcoólica da qual também passou a se viciar com o tempo.

 

Adilson estava feliz com a troca que havia feito, mas não tinha consciência de que aquilo era loucura. Ele somente percebeu que havia feito besteira, quando a droga terminou.

 

“O arrependimento bateu, a ficha caiu quando eu percebi que não podia mais beber e usar drogas.”

 

Para a sorte de Adilson, o irmão mais velho conseguiu recuperar o carro, mas para isso acontecer, precisou dar bastante dinheiro para tê-lo de volta. Depois desse episódio, o jovem permaneceu por mais de um ano sem usar nenhum tipo de drogas ou bebida alcoólica.

 

Ele não sentia falta. Estava tudo seguindo da melhor maneira possível. Mesmo em casa, no interior, ajudando Joana com os trabalhos do sítio, ele enviou currículos para três empresas de escolta armada, da qual já possuía experiência, aguardando ansioso para ser chamado para trabalhar no ramo que mais gostava.

 

Meia hora se passou e logo uma das empresas telefonou, informando Adilson que estariam o esperando para uma entrevista de emprego. A felicidade foi tamanha, que ele queria comemorar de alguma forma. Sozinho em um bar, tomou diversas cervejas e ficou completamente alcoolizado.

 

Preocupado em como faria para se apresentar na empresa, faltando meia hora apenas, ele procurou uma solução ainda mais errada. Com buchas de cocaína que comprou rapidamente, na intenção de camuflar o alcoolismo, ficou alucinado, bem fora de si, não tendo condições de ir à entrevista de emprego.

 

A oportunidade que ele havia tido na palma da mão, escorreu como areia entre seus dedos. Aquele foi outro pico de desânimo, que o fez perceber que não dava mais para continuar. Antes de ser internado pela quarta vez, Adilson permaneceu cinco longos dias em função do seu vício pela cocaína. Em tão pouco tempo, ele perdeu 22 quilos e hoje não se reconhece mais.

 

“A vida significa trabalhar, ter uma família, ter sua casa, ter o seu descanso no final de semana, ter uma vida saudável, sem drogas.”

 

Hoje, estando prestes a deixar a clínica de reabilitação, ele diz estar realmente curado do vício e livre de todas as drogas que já fez uso até hoje.

 

Adilson quer poder voltar para casa e ver a mãe. Quer, também, colocar a cabeça no lugar e fazer um curso para transporte de valores, para assim, se mudar para o litoral e começar uma nova vida com o irmão mais velho.

 

 “Eu renasci, com 23 anos.”

 

 

>> A história que você acabou de ler faz parte de um projeto que venho desenvolvendo na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada há mais de cinco meses, e pertence a um dos pacientes da unidade.

Kiane Berté

Kiane Berté tem 26 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


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