Meu ex-marido droga o meu filho de dois anos


Por Kiane Berté

24/09/2021 14h57 - Atualizado em 24/09/2021 15h34



Capítulo 14 da série 'histórias que eu ouço na clínica'.

 

ATENÇÃO: a história a seguir possui gatilhos.

Banheiro da ala feminina (Foto: Kiane Berté)

São 19 anos nas costas e muita história para contar.

 

É como se Kiara Cristina (nome fictício) já tivesse vivido mais de 30, por conta de tantas coisas que aconteceram em sua vida nos últimos anos. A história da jovem está bem longe de ser invejada por outras pessoas, pois desde criança vem sofrendo com as desgraças de família e as drogas que passaram a fazer parte da sua vida há pouco tempo.

 

Nos braços de Kiara, qualquer um nota as marcas esbranquiçadas, de cicatrizes já antigas, causadas por uma pequena lâmina de barbear que ela usava no banheiro de casa.

 

Aquelas marcas, que ela às vezes tenta esconder com blusas de manga comprida, também estão presentes em suas coxas. Todas são resultados das torturas físicas e psicológicas que sofreu e vinha sofrendo até algumas semanas atrás.

 

Mas não foram feitas por outras pessoas, e sim, por ela mesma. Era uma maneira de acalmar a dor interna que sentia.

 

“Quanto mais eu me cortava, mais sangue escorria, e mais minha dor aliviava.”

 

A infância de Kiara foi tranquila. Os pais sempre foram separados, desde o dia em que ela nasceu, mas nada daquilo a afetava como criança.

 

As coisas passaram a mudar quando, aos nove anos de idade, foi abusada sexualmente pelo próprio primo, um homem na época com 32 anos.

 

Naquele dia inesquecível, a mãe Joice (nome fictício) foi a uma festa com amigos quando a noite chegou. Em casa, na companhia da outra irmã mais velha e da avó que dividia a moradia com elas, Kiara dormia profundamente quando, de madrugada, uma figura masculina estranha adentrou a casa pela porta da frente que estava aberta.

 

A avó de Kiara havia deixado um colchão na sala para que Joice pudesse dormir quando voltasse e não acordasse as demais.

 

Foi naquele colchão que Kiara foi jogada após ser tirada da cama, ainda sonolenta, por aquele homem que ela reconheceu quando seus olhos se abriram.

 

O primo, que vivia no bairro vizinho e quase nunca as visitava, tapou seus lábios com força e tirou a sua roupa. Ele a abusou e depois foi embora como se nada tivesse acontecido.

 

Ela sabia que aquilo não era apenas um pesadelo. Só não imaginava que aquele homem, pertencente à família, tivesse tamanha crueldade para ferir alguém tão pequena e tão inocente quanto ela.

 

Depois do primeiro abuso, o primo passou a se aproximar ainda mais da família, coisa que não fazia há muito tempo. Tudo era estratégia da parte dele para conseguir o que queria, quase todos os dias. Estuprar Kiara, se satisfazer e ir embora.

 

Ele a violava sob muita ameaça, tanto de morte, quanto de agressões, e demais torturas psicológicas, fazendo com que aquele inferno perdurasse por três longos anos.

 

“Aos 12 anos eu não aguentei mais e contei para a minha mãe.”

 

Joice sabia que a aquela história poderia ser verdade. Ela acreditou na filha, mas não permitia que a menina espalhasse aquele caso grave.

 

Na escola, Kiara chegou a contar sobre os abusos que sofria para uma psicóloga que frequentava a unidade. Depois do desabafo, Joice foi chamada na escola, na companhia da filha, mas chegou preparada, causando medo na menina e a fazendo se calar.

 

A mãe levou consigo um pedaço de galho, de quase um metro de comprimento, o qual usava para bater nos filhos. Aquela “varinha” serviu para amedrontar Kiara, a ameaçando de que bateria nela na frente das professoras caso contasse a verdade.

 

Kiara, então, negou que os estupros estavam acontecendo, dizendo que havia mentido sobre aquilo. A história foi abafada. Nenhuma professora, diretora, psicóloga ou funcionária da escola se quer pensou em investigar o caso.

 

A jovem acredita que a mãe omitia os crimes por medo de que o pai de Kiara matasse o sobrinho abusador.

 

Os abusos somente cessaram quando Kiara percebeu que poderia denunciá-lo. E disse claramente a ele que abriria a boca para o mundo caso não parasse com aquela tortura.

 

Kiara recorda que, um tempo depois, o primo acabou preso por abusar da própria enteada, de oito anos. Para ela foi um alívio o homem não estar mais em circulação, livre para cometer atos tão covardes.

 

O tempo foi passando e Kiara Cristina completou 14 anos. Ela ainda sentia os traços da depressão em sua mente, mas a doença aflorou ainda mais quando sua avó, com quem se dava muito bem, veio a falecer. Foi uma grande perda para ela, e tudo foi piorando.

 

Sua mãe namorava um homem e, um dia em que Kiara estava na casa dele, conheceu Jonas (nome fictício), o primo do padrasto - na época com 27 anos, 13 anos mais velho do que ela - por quem se apaixonou e iniciou um relacionamento, ainda muito nova.

 

O namoro dos dois permaneceu da melhor forma possível durante alguns meses, e ambos resolveram morar juntos e construir uma família.

 

Kiara acabou engravidando e o casal ficou ainda mais unido por conta da criança que estava à caminho. O que a jovem não esperava, era um castelo desabando sobre sua cabeça.

 

Quando completou cinco meses de gravidez, Kiara passou por uma ultrassonografia e descobriu que esperava por uma menina. Ela estava muito feliz pela notícia e esperava que o esposo ficasse também, porque era o filho dos dois.

 

Ansiosa para revelar o sexo da criança a Jonas, Kiara preparou uma surpresa em uma caixinha pequena, colocando roupinha de bebê e o resultado do ultrassom. A caixinha cheia de amor estava sobre a cama de Jonas, o esperando voltar do trabalho.

 

Quando o homem colocou as mãos no presente e o abriu, o sorriso se desfez e ele teve a pior reação possível. Com diversos golpes, espancou Kiara por saber que o filho não seria um menino, e levou a namorada ao chão, sangrando e perdendo a consciência.

 

Uma semana depois, meio grogue e com a cabeça pesada, a jovem acordou no hospital. Estava na UTI há uma semana e quase perdeu a vida. Por sorte, ela conseguiu sobreviver àquelas diversas agressões, mas o filho que esperava havia partido, sem que ela pudesse fazer alguma coisa.

 

Foram mais de dez dias recebendo até transfusão de sangue, quase que à beira da morte, e mesmo estando frágil e sem poder se defender de nenhuma maneira, Jonas a fez uma visita, a ameaçando caso contasse para alguém o que tinha acontecido.

 

Mentir para os médicos e pessoas curiosas era fácil. Ninguém iria acreditar naquela baboseira de que foi agredida de propósito, para que perdesse o bebê. Então, o jeito era transformar a história trágica em uma simples queda: Kiara perdeu o bebê ao cair da escada de casa.

 

Assim que deixou o hospital, Kiara voltou para a casa da mãe, para se ver livre do homem que a tinha feito tanto mal.

 

“Se eu não voltasse para casa com ele, ameaçava ‘tacar’ fogo na casa, com a minha mãe dentro.”

 

As ameaças passaram a ser diárias, e Joice sabia o que tinha acontecido com a filha. Sabia das agressões e tudo o que ele fazia com ela. Mas, por se tratar do primo de seu namorado, fez a cabeça da filha para que ela voltasse e perdoasse o esposo.

 

Kiara retornou para casa. Nada havia mudado e Jonas continuava agressivo. Ele era usuário de drogas e quase sempre voltava para casa de madrugada, bastante alterado pelos entorpecentes, e descontava na mulher a raiva que sentia, sem que ela tivesse feito alguma coisa.

 

Os meses foram passando e Kiara acabou engravidando novamente, um ano após a perda da menina. O marido, para se certificar de que dessa vez ela daria à luz um menino, acompanhou a esposa no exame de ultrassom. Para a sorte de Kiara, o resultou apontou um feto masculino, saudável, que foi aceito por Jonas.

 

“Ele disse: ‘então vamos esperar, se for piá eu deixo, se for menina, eu te faço abortar de novo’.”

 

A criança cresceu e se desenvolveu na barriga da mãe, vindo ao mundo quando Kiara completou 16 anos. Mesmo sabendo que dessa vez o filho teria uma chance, ela temia que alguma coisa acontecesse com ele.

 

Ela lembra, muito bem da cena, quando Jonas preparava as carreiras de cocaína em um prato para poder ‘cheirar’, e depois raspava o conteúdo que havia sobrado e depositava na boca do filho pequeno. Isso aconteceu por diversas vezes.

 

“Uma vez deu convulsão nele e ele quase morreu.”

 

Kiara chegou a contar para a sogra, mas a mulher disse não acreditar nela, pois pensava que Kiara só estava tentando arranjar motivos para deixar o marido.

 

Perturbada com o que estava acontecendo com o bebê, Kiara foi até a delegacia e contou tudo à polícia. Uma viatura chegou a ir até a residência da família, mas Kiara afirma que Jonas pagou propina em droga para os policias, que logo deixaram a casa e nunca mais apareceram.

 

Já não aguentando mais as agressões que acabaram sendo ainda mais frequentes, a jovem mãe conheceu um homem pela internet, que vivia a 143 km de distância dela, e fugiu com ele, levando o filho pequeno.

 

Poucos meses morando com o novo namorado, que curiosamente tinha o mesmo nome do ex-esposo agressor, Kiara passou a sentir as mesmas inseguranças que tinha ao lado de Jonas. O novo companheiro também era usuário de drogas e sempre estava agressivo. Foi então que ela resolveu voltar para a casa da mãe. Não demorou muito para Jonas descobrir onde mulher e filho estavam e os procurou, tirando o pequeno dos braços dela.

 

“Me arrependo disso, porque fazem quatro meses que não vejo ele.”

 

Já com 18 anos e sem o filho por perto, Kiara precisava pagar pensão e não tinha emprego. Vivendo debaixo do mesmo teto que a mãe, a jovem recebia ofensas de Joice, dizendo que a filha não trabalhava e não ajudava em casa.

 

Transtornada com a situação e se sentindo culpada pelas coisas que a mãe havia dito, Kiara tentou ajudar a mãe de algumas formas que conseguia, até que foi pega de surpresa pelo dono de uma sorveteria na cidade onde vivia, a chamando para trabalhar em uma boate da qual também era proprietário.

 

“Foi a única solução que eu encontrei.”

 

Kiara já não sabia o que fazer para arranjar dinheiro para sustentar o filho e poder calar a boca da mãe. Foi então que resolveu aceitar o convite do homem desconhecido, na esperança de mudar de vida.

 

Na cabeça da jovem, o trabalho que ela prestaria no ambiente era servir mesas e dançar sobre um palco, mas tomou um choque de realidade ainda no primeiro dia, quando foi obrigada a fazer programa com todo tipo de homem que aparecia no estabelecimento.

 

O que mais a deixou traumatizada naquele lugar foi encontrar o próprio pai no local. Quando a viu, o homem rapidamente se prontificou em pagar um programa com Kiara. Desesperada pela situação, ela explicou tudo à responsável pelas garotas da boate e a mulher expulsou o pai do local.

 

O emprego novo durou apenas dois dias e meio. Era torturante para ela se sentir humilhada por aqueles homens mais velhos e sem nenhum pudor. No terceiro dia, Kiara foi até a boate no horário de inicio do serviço, apenas para pegar o acerto. Não queria mais ficar por ali. Não queria mais ser humilhada.

 

Cansada da vida que estava levando, a menina passou a se envolver com drogas, indo de maconha à substâncias mais pesadas, que causavam alucinações e diversos efeitos colaterais fortes.

 

“Eu queria ter uma overdose.”

 

Kiara Cristina não chegou a ter uma overdose por conta do uso excessivo de drogas, mas desenvolveu doenças psicológicas das quais luta dia após dia para conseguir se curar, como ansiedade, bulimia, claustrofobia, bipolaridade, epilepsia, e demais problemas de saúde.

 

Quando já não via mais solução para continuar vivendo, Kiara usou 11 comprimidos para tentar se matar, os ingerindo e parando no hospital. Depois disso, Joice percebeu que a filha precisava mesmo de ajuda. Era dar a mão para ela ou deixá-la se acabar por completo.

 

Agora, quando resolveu buscar por ajuda, Kiara só quer saber de melhorar, para assim conseguir recuperar o filho que não vê a mais de quatro meses. Com emprego já garantido do lado de fora da clínica, Kiara tem esperanças de conseguir um bom advogado e provar na Justiça que o seu filho - hoje com quase três anos - está sendo drogado pelo pai irresponsável.

 

>> A história que você acabou de ler faz parte de um projeto que venho desenvolvendo na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada há mais de três meses, e pertence a um dos pacientes da unidade.

Kiane Berté

Kiane Berté tem 26 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


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