Quero entender o que as vozes dizem


Por Kiane Berté

13/08/2021 16h50 - Atualizado em 13/08/2021 16h50



Capítulo 13 da série 'histórias que eu ouço na clínica'.

 

ATENÇÃO: a história a seguir possui gatilhos.

Banheiros da ala feminina na clínica de reabilitação (Foto: Kiane Berté)

Não é fácil conseguir superar a morte de alguém conhecido e amado, do dia para a noite. Ninguém é de ferro para conseguir suportar o peso da dor interna que chega para ficar e perturba nossos pensamentos a todo o momento.

 

Aline Vasconcelos (nome fictício) está há mais de 20 anos tratando uma depressão que chegou do nada e que agora não quer mais ir embora. A doença veio em estágios, mas se agravou ainda mais quando a mulher foi obrigada a ficar de luto. 

 

Primeiro foi uma de suas irmãs, que adoeceu devido a uma doença grave chamada leptospirose, conhecida também como doença do rato. Depois dela, pai e mãe vieram a falecer de câncer, mais tarde, seus sogros.

 

Para Aline, na época com 20 anos de idade, não foi nada fácil ter que aceitar essas situações desesperadoras, até porque, todas essas mortes repentinas aconteceram dentro de apenas um ano.

 

Após as perdas, os primeiros sintomas da depressão apareceram, mas foram pouco notados. As mortes acabaram com ela, por dentro e por fora, de um jeito que Aline não esperava.

 

“É uma coisa que machuca bastante.”

 

Mas o tempo passou. Cheia de fé, Aline sentiu que poderia melhorar e buscar por novos horizontes com a família que construiu nos últimos anos. Morando no interior e vivendo uma vida tranquila, amava muito ficar ao lado do marido e do único filho, o Matheus (nome fictício).

 

O que ela não esperava era ter que sofrer a perda e o luto mais uma vez. Matheus, seu filho amado, aos 27 anos perdeu a vida em um grave acidente de trânsito.

 

Para ela foi como se o mundo desabasse, porque dela foi tirado um pedaço muito grande. Um pedaço que jamais poderia ser devolvido ou substituído por alguém ou alguma coisa.  

 

“Andei fazendo besteira.”

 

Mario (nome fictício), esposo de Aline, foi bastante forte e conseguiu segurar a mulher o máximo que pôde. Com os dois braços disponíveis para ela, mesmo não tendo muito tempo para isso, ele passou a acompanhar cada passo de Aline. Ele era a própria sombra dela, pois temia que a companheira tentasse contra a própria vida.

 

Não demorou muito para que a mulher começasse a pensar em morrer. A dor era tamanha, que já não existiam soluções para ela.

 

Em uma manhã qualquer, depois do dia ter amanhecido sem que ela pregasse os olhos durante a noite, Aline sabia que aquele era o momento para colocar os planos que fazia mentalmente, em ação.

 

Aos fundos da casa do casal, Mario costumava guardar diversas ferramentas e utensílios que geralmente usava em sua propriedade para trabalhar. O plano de Aline começava por ali, quando ninguém estava olhando. Ela apanhou uma serra circular, chamada também de ‘makita’, e a colocou na tomada mais próxima.  

 

Depois, alinhou-a com o próprio pescoço e, sem nem ao menos pestanejar, apertou o botão para ligá-la.

 

“Eu queria me matar mesmo.”

 

Por sorte do destino ou problema no aparelho, a ferramenta não funcionou. O que deixou Aline bastante apreensiva, já que no dia anterior havia usado a mesma para cortar lenhas na propriedade.

 

Ao se deparar com a cena, Mario correu até a esposa e a afastou daquela situação de perigo, antes que ela tentasse mais uma vez fazer alguma loucura.

 

Dali em diante, todos os passos de Aline eram controlados por Mario, que se via responsável por ela. Ele não a mantinha trancada, mas a seguia literalmente como uma sombra. Durante o dia, tudo era baseado em o que Aline estaria fazendo e se estaria bem.

 

Em qualquer descuido, qualquer passo que o esposo dava para longe de Aline, era uma brecha que a mulher encontrava para extravasar a dor e a angustia. Em umas das oportunidades, enquanto ambos faziam o trabalho no campo, de onde tiravam o sustento, Aline encontrou uma corda usada para prender as vacas no curral. Com ela já em mãos, fez um tipo de armadilha simples e bastante perigosa.

 

Os movimentos foram precisos e rápidos, e ela conseguiu fazer um nó de carrasco, chamado também de nó de forca, e o colocou no pescoço.

 

Não havia sentimento naquele momento. Ela não sentia nada além de uma dor. Aline só queria mandá-la para longe.  

 

Assim que se deu conta do que estava se passando, Mario correu até ela e a socorreu, evitando que o pior acontecesse, mais uma vez.

 

“Eu só chorava. Eu só queria me matar.”

 

Exausto daquilo tudo, Mario precisou convencer Aline de que querer morrer era uma loucura, já que ambos já tinham se tornado avós e precisavam também dar amor e carinho à neta, única filha que Matheus deixou antes de partir.

 

Aquele simples conselho pareceu iluminar os pensamentos de Aline sobre tirar a própria vida. Mas não demorou muito para que ela começasse a despertar um incomodo com tudo o que acontecia ao seu redor.

 

Já não conseguiu mais se deitar ao lado do marido, pois o ronco dele a deixava irritada demais. Mesmo à base de remédios fortes, Aline não conseguia dormir. A única coisa que fazia os seus olhos se fecharem durante a noite era um vulto de um homem sem rosto, pendurado por uma corda no pescoço, que a visitava quase todos os dias.

 

“Quando vinha para o meu lado, eu me gelava toda. E eu corria.”

 

As alucinações passaram a ser frequentes. Eram dias sem conseguir dormir, noites em claro, tentando entender o que aquilo significava, até que vozes estranhas passaram a persegui-la. Elas não falavam palavras concretas, era como códigos trazidos para que Aline precisasse decifrar.

 

Depois que se internou na Clínica de Reabilitação, onde está há poucos dias, Aline chegou a cair da cama por ouvir as vozes amedrontadoras ao seu redor. Nessa queda, ela machucou o braço.

 

“Eu só queria ter a resposta para essas vozes.”

 

Dentro da clínica, Aline prefere ficar no quarto, deitada na cama, ou na sala de TV, onde quase sempre está vazio e ela pode ter paz. Nos lugares onde tem muita gente, como o refeitório, por exemplo, as vozes a visitam com mais frequência, a deixando perturbada demais. Então, prefere ficar isolada em lugares onde o silêncio reina.

 

Ali na clínica, Aline relembra do passado. Se lembra da infância sofrida que teve ao lado dos pais e dos irmãos, e de quando a família passava por necessidades.

 

Apesar disso, ela diz sentir muita falta de tudo, principalmente da companhia daqueles que já se foram.

 

“Eu queria tanto que aquele tempo voltasse.”

 

Mesmo estando em tratamento contra a depressão, Aline Vasconcelos sente que pode se recuperar, apesar de muitas vezes não ter forças para isso.

 

“Eu não sei se existe felicidade.”

 

É uma situação difícil para Aline, pois toda vez que toca no nome do filho ou se lembra do que aconteceu, o choro vem sem que ela precise fazer qualquer esforço. É uma sensação de perda que não tem como curar tão cedo, até porque, a morte de Matheus ainda é bastante recente.

 

Aline tinha muita fé em Deus. Tinha. No passado.

 

Era bastante religiosa, mas depois que sofreu com essa perda do filho, o mundo desabou e a fé que empachava sua alma foi se desfazendo aos poucos, porque ela acreditava que o filho seria um protegido de Deus e que jamais aconteceria algo ruim com ele.

 

Aline se internou na clínica com ajuda de Mario. Estar ali para se recuperar da dor que não quer ir embora está sendo um pouco complicado, mas de vagar, mesmo que a passos lentos, ela quer se renovar, porque cansou de erguer um fardo que não tem forças para carregar. Mesmo que demore.

 

>> A história que você acabou de ler faz parte de um projeto que venho desenvolvendo na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada há mais de dois meses, e pertence a um dos pacientes da unidade.

Kiane Berté

Kiane Berté tem 27 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


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