Não aceitei a amante em casa e levei um tiro


Por Kiane Berté

05/08/2021 13h58 - Atualizado em 13/08/2021 16h03



Capítulo 12 da série 'histórias que eu ouço na clínica'.

Sala de tevê da ala feminina da clínica de reabilitação (Foto: Kiane Berté)

Nas profundezas do passado, Patrícia (nome fictício) guarda as piores lembranças que alguém pode ter. A vida perfeita que sonhava, existiu pouco tempo com ela. Os dias difíceis que viveu na infância e na adolescência estão guardados em algum lugar lá, no escuro da alma, para que ninguém saiba e também para que ela não se lembre do que passou.

 

São coisas que a fazem pensar em besteiras, e levam sua mente para a dor e o sofrimento, mas ela não quer falar sobre isso. É claro que Patrícia nunca irá esquecer o que passou, mas tenta deixar isso o mais oculto possível, para não sofrer ainda mais.

 

As dores do passado a deixaram doente. Uma depressão bastante pesada, que não se cura com qualquer remédio ou qualquer palavra de conforto.

 

Sofrendo em segredo, ela passou a ter desilusões amorosas com o ex-esposo, com quem foi casada por 14 anos e teve três filhos. Essas desilusões a deixaram ainda mais perturbada.

 

Patrícia sempre foi uma pessoa companheira, amiga, que estava sempre lutando pelo casamento e deixava isso em primeiro lugar. Já o esposo Eduardo (nome fictício), parecia não se importar muito com ela. Os vizinhos, os amigos e as pessoas mais próximas, a alertavam de que Eduardo a traía. Cega pelo amor, e defendendo com unhas e dentes o relacionamento que construiu nos últimos anos, Patrícia se negava a acreditar nas falácias do povo.

 

Em uma manhã qualquer, há 11 anos, Eduardo bateu no peito e tomou uma decisão que abalaria de vez a vida da esposa. Ao adentrar a casa na companhia de outra mulher, a qual dizia ser a “segunda companheira”, ele exigiu que Patrícia a aceitasse como a nova membro da família e que ambas precisavam conviver juntas, embaixo do mesmo teto que ele.

 

As especulações das pessoas, dizendo que o esposo tinha amantes, passaram a fazer sentido para Patrícia, que se viu preparada para tomar uma atitude.

 

“Eu não divido o que é meu.”

 

Enraivecida pela situação, sem saber o que fazer, avançou na amante do marido e passou a agredi-la. Não demorou muito para que fosse ameaçada por Eduardo, que logo sacou uma arma – da qual Patrícia nem sabia que o esposo tinha – e atirou em sua direção.

 

O disparo atingiu a região do peito de Patrícia, próximo ao braço esquerdo dela, atravessando as costas e causando um estrago feio. O sangue jorrou na hora, assustando os filhos do casal, na época, crianças.

 

Eduardo não se importou com o que fez com a mulher, apenas pegou na mão da “amante” e saiu de carro com ela, sem prestar qualquer ajuda à Patrícia.

 

“Não vou dizer que ele era uma pessoa ruim, porque todo mundo têm suas qualidades. Ele era um homem bom, um trabalhador.”

 

Ao ouvir o disparo e depois os gritos de socorro e o choro dos filhos de Patrícia, um dos vizinhos da família se aproximou da casa e foi averiguar o que estava acontecendo. Foi ele quem a socorreu e a levou para o hospital. Se não fosse por ele, Patrícia poderia ter perdido a vida ali, no chão da cozinha.

 

Foram vários dias de internamento. Dias em que ela só pensava nos filhos. Depois que recebeu alta, Patrícia precisou retornar para casa. Sabia que ali vivia o perigo, mas ela precisava ficar com os filhos.

 

Ela chegou a denunciar o marido pelo crime que ele havia cometido, mas toda a confissão às autoridades, não resultou em nada mais do que apenas dor de cabeça para ela.

 

“Passei por louca, eles me internaram em uma clínica.”

 

Mesmo tendo provas na pele de que o tiro foi real, a procura pela arma na casa do autor não foi bem sucedida. Não havia nada lá que pudesse o incriminar. 

 

“Existe um Deus lá em cima. Se os homens da terra não fazem justiça, aquele lá já fez até demais.”

 

Patrícia passou mais de 15 dias em uma clínica de reabilitação em outra cidade e, apesar de estar ali sob pressão e injustiça, fez amizades e se sentiu protegida pelas pessoas que cuidavam dos pacientes no local.

 

Depois de receber alta, ela retornou ao lar onde tudo aconteceu. Fez as malas e partiu dali, indo morar com os pais e se vendo livre de um casamento que só trouxe insegurança. 

 

Não demorou muito para os pais a mandassem deixar a casa, pois eram contra a separação do casal. Ela, então, se mudou para outra cidade, onde viviam alguns parentes, para trabalhar e cuidar dos três filhos.

 

Sem dar conta das despesas sozinha, Patrícia precisou fazer um acordo com o marido para que ele pagasse pensão aos filhos, como é regido por lei, o que não ocorreu. No Fórum, ao lado do marido, eles entraram em um acordo de que Patrícia trabalharia fora para tirar seu sustento e Eduardo ficaria com os filhos dela. Todos os bens que o casal construiu junto, ficaram com Eduardo. E os filhos, que estavam sob responsabilidade dele, voltaram a morar com a mãe um tempo depois.

 

Patrícia sempre deixou claro para os filhos que a culpa da separação dos pais foi de Eduardo. O filho mais novo presenciou a mãe levar um tiro naquele dia, e até os dias de hoje, sofre psicológicamente com isso.

 

“Eu nunca traí ele, nunca levei outro homem para dentro de casa.”

 

Nos dias atuais, os três estão adultos, seguindo suas vidas trabalhando, outro estudando, e construindo uma família. O mais importante de tudo é que apoiam a mãe em tudo o que ela necessita.

 

Dois anos após a separação do ex-marido, Patrícia precisou ser forte mais uma vez. Através de exames de rotina, descobriu que estava com câncer do colo do útero o que a levou a fazer quimioterapias e duas cirurgias para a retirada do útero e ovários.

 

Com isso, veio a perda de cabelo, de peso e, mais uma vez, o sofrimento.

 

“Eu fiquei totalmente arrasada, mas tudo passa.”

 

Com 24 anos a mais do que Patrícia, Adriano (nome fictício), o novo companheiro dela a conquistou com carinho e afeto, coisa que ela não teve muito no antigo relacionamento. Foi Adriano quem cuidou de Patrícia nos momentos de dor por conta do câncer, e das cirurgias a que se submeteu.

 

Hoje, Patrícia está curada da doença, mas o que não cura ainda, são as cicatrizes da alma. Aquelas que a fazem ter pesadelos de noite, e a atormentam a todo o momento.

 

Na semana anterior, pouco antes de dar entrada na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada, Patrícia tomou diversos comprimidos que fazia uso para dormir. Ela tinha acabado de receber a notícia da morte de uma parente e estava bastante abalada com a situação. Os medicamentos do qual tomou em exagero, acabaram deixando Patrícia desnorteada, bastante perdida.

 

Por conta da dose forte que estava em seu organismo, ela passou a ouvir vozes e ver vultos, dos quais eram seus pesadelos do passado, por conta de situações desesperadoras que viveu na infância e de que não quis falar a respeito.

 

A depressão voltou. A dor do passado retornou, e a única solução foi se internar para melhorar.

 

Agora, a única coisa que ela espera dessa internção, é voltar para casa bem e poder cuidar dos bichos de estimação que tem, e do atual esposo, que aguarda ansioso para vê-la.

 

>> A história que você acabou de ler faz parte de um projeto que venho desenvolvendo na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada há mais de dois meses, e pertence a um dos pacientes da unidade.

Kiane Berté

Kiane Berté tem 27 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


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