'Quem bate não se lembra, mas quem apanha nunca esquece'


Por Kiane Berté

22/07/2021 16h42 - Atualizado em 22/07/2021 17h11



Capítulo 11 da série 'histórias que eu ouço na clínica'.

Sala de TV na ala feminina (Foto: Kiane Berté)

Dos quatro casamentos em que Rita Izabel (nome fictício) esteve nos últimos anos, apenas um não trouxe traumas desgastantes para ela.

 

Com 47 anos nas costas, boa parte de sua vida foi vivida de forma triste e bastante torturante, principalmente na infância, quando precisou abandonar a escola por ter sido motivo de piada nos corredores por conta do cabelo crespo.

 

Rita não consegue falar muito sobre isso e chora de perder a voz ao ter que relembrar do trauma que foi, ser alvo de bullying naquela época.

 

“Me chamavam de cabelo de Bombril.”

 

O que também deixou Rita triste, foi ver que as pessoas que zombavam dela na época, passaram a trabalhar em escritórios ou em outros trabalhos dos quais ela nunca teve sorte de ser chamada.

 

O cabelo de Rita, hoje, é escondido embaixo de um chapéu pequeno, para que ela passe despercebida pelas pessoas.

 

Izabel cresceu achando que aquela seria a situação mais difícil que viveria na vida, mas ao se casar pela primeira vez, percebeu que estava enganada.

 

A bebida entrou na vida de Rita ainda quando jovem, ao frequentar as discotecas da época e jantares que fazia com as poucas amigas que tinha. Não era nada em exagero, mas sim, tudo na medida, sem passar da conta, mas depois que conheceu os companheiros, a bebida servia como um analgégico. 

 

“’Eu não sou homem de uma mulher só’.”

 

Era o que o primeiro marido de Izabel dizia a ela, mesmo depois de terem se tornado pais, juntos, pela primeira vez.

 

Mesmo não tendo sofrido nenhuma violência física por parte dele, Izabel ficou decidida e abandoná-lo, pois temia pela traição e por ser vítima de violência doméstica caso houvesse uma briga em casa.

 

Amparada pela mãe, dona Noemia (nome fictício), Izabel se mudou com o filho de colo. Não demorou muito tempo para que ela conhecesse outro homem, meses depois. O rapaz era 'mal-encarado' e Noemia sabia que aquele era um péssimo negócio para a filha, pois observava atentamente como ele tratava Izabel na frente das pessoas. Eram xingamentos, palavrões, e agressividade, o que deixava Noemia extremamente irritada com o futuro genro.

 

Quando passou a morar junto com ele, depois de ter engravidado do segundo filho, ela foi agredida pelo companheiro e derrubada no chão, sendo espancada por ele com as 'costas' de um facão. Rita não se lembra dos motivos que levaram o homem a agir daquela maneira, mas sente arrepio só de tentar voltar ao passado.

 

“Quando eu engravidava, parecia um azar. Eles me batiam estando grávida.”

 

Com medo de que a situação piorasse ainda mais, Rita disse ao marido que pretendia visitar sua mãe, que vivia em outro estado. Desconfiado de que a mulher não retornasse, fez ameaças para que ela voltasse para casa. 

 

Rita pegou o dinheiro das mãos do esposo e partiu com os filhos quando o homem não estava por perto. Ao relatar à Noemia sobre as agressões, a mãe de Izabel a trancou em casa, não a deixando sair e a proibindo de voltar para o casamento infeliz em que a filha estava.

 

O esposo de Rita foi procurá-la dias depois, para tentar tirar o filho dos braços da mãe, porém, Noemia o expulsou da casa e ele nunca mais voltou. 

 

Quando conheceu o terceiro namorado, Izabel se mudou com ele e os filhos para uma casa no interior da cidade onde viviam. Todos sabiam que ele tinha amantes na cidade, menos Rita, que dividia o mesmo teto com ele. 

 

Nas noites em que saia para beber com amigos, o novo companheiro de Rita costumava visitar as 'outras opções' que tinha, chegando a passar a noite fora de casa, a deixando sozinha com os filhos, no escuro, e desamparada. 

 

"Ele sempre prometia que iria mudar e eu gostava dele e ficava com ele."

 

As promessas amorosas do companheiro sempre acabavam em mentiras. Quando voltava para casa embriagado, ele ameaçava Rita e chegava a quebrar os móveis, causando medo nas crianças e também na mãe, que não podia fazer nada para se proteger do homem maldoso. 

 

Quando o conheceu, Rita imaginava que ele seria um pai perfeito, um homem honesto e que traria boas vibrações para a casa da família, mas no momento em que descobriu que estava sendo traída, as coisas passaram a mudar. As agressões que sentia na pele também foram motivos para que Rita tomasse uma atitude. 

 

"Por mais que eu gostasse dele, eu sabia que não dava mais."

 

Izabel "andava na linha" com o marido e não o desobedecia, mesmo em situações onde precisava ter pulso firme. A mulher trabalhava como faxineira para uma família rica da cidade e, muitas vezes, ia para o trabalho machucada, tentando esconder as marcas dizendo que havia sofrido um acidente doméstico. 

 

Na boca, se percebe uma cicatriz na região do lábio inferior, causada por um soco que levou do marido que estava alcoolizado. A sobrancelha esconde outra cicatriz que foi feita por um golpe que ela também levou quando ele estava zangado com alguma coisa. 

 

Ao perceber que o olho de Izabel estava roxo, a patroa questionou Rita sobre a agressão que sofreu. Mesmo dizendo que havia batido o rosto no tanque enquanto lavava roupas, a chefe não acreditou na falácia da empregada e a aconselhou a procurar a polícia. 

 

Mesmo tendo provas suficientes para incriminar o marido, Izabel preferiu se calar, pois era ameaçada de morte por ele, e temia pela vida dos filhos.

 

"Quem bate não se lembra, mas quem apanha nunca esquece."

 

Quando já não aguentava mais, Rita o denunciou e fugiu com os filhos da casa onde vivia com o homem. Mesmo apresentando provas que o incriminassem, o agressor não foi preso, o que deixou Rita bastante abalada.

 

Com o passar do tempo, longe dos agressores e da vida sofrida em que estava, Izabel criou os filhos e seguiu com a vida. A filha mais velha dela conheceu um rapaz e passou a namorá-lo. Na convivência diária com a família do genro, Rita foi apresentada ao pai dele, Bento (nome fictício), que também estava solteiro e disposto a engatar em um novo relacionamento.

 

Meio retraída por conta do desastre que foram os demais relacionamentos que teve, Izabel ficou com medo de se envolver novamente e sofrer com as represálias. 

 

Arriscando todas as cartas que tinha, Izabel diz ter se dado bem. Em meio ao caos em que estava, Bento veio para trazer tranquilidade e paz para a sua vida.

 

“Ele é bem querido pra mim.”

 

De tanto apanhar da vida, Izabel precisou aprender a ser forte, mesmo com os sintomas clássicos da depressão, que foram aparecendo no decorrer dos anos. Algo que aliviava as dores internas que vinham da alma era arrancar os fios de cabelo. Puxar o cabelo com força aliviava, mas pouco funcionava.

 

Outra coisa que ajudava a tranquilizar a mente era um copo de cachaça, o que se tornou rotina na vida dela, mesmo depois de conhecer um homem bom.

 

“Comecei a me afastar das pessoas, e queria ficar só dentro de casa. Sozinha!”

 

Com oito anos a mais do que Izabel, Bento chegou na vida dela para fazer uma revolução positiva. Ele ficou responsável pela casa e por visitar os filhos dela, agora que Rita se encontra em uma clínica de reabilitação para se tratar.

 

No decorrer dos anos, entre uma agressão e outra que sofria, a vontade que tinha em beber cachaça pura e outras bebidas alcoólicas só crescia. O copo sempre estava ao lado dela, a fazendo ficar embriagada e trazendo problemas para a sua vida.

 

Depois de quase um minuto de silêncio, sem conseguir dizer uma só palavra, Izabel desabafou sobre as consequências do alcoolismo. Além de perder amizades por conta da bebida, ela se viu desesperada ao ter seus filhos menores levados pelas autoridades. 

 

Até que ela não deixe o álcool de lado, Izabel terá que se manter afastada dos filhos, que aguardam ansiosos pelo retorno dela. 

 

Já dentro da clínica, em uma ligação que fez ao atual marido para saber como as coisas andavam, Bento só tranquilizou a companheira, dizendo que a única coisa que ela precisa se preocupar no momento é a saúde dela e nada mais.

 

>> A história que você acabou de ler faz parte de um projeto que venho desenvolvendo na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada há mais de dois meses, e pertence a um dos pacientes da unidade.

Kiane Berté

Kiane Berté tem 27 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


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