Minha ex-mulher é obcecada por mim


Por Kiane Berté

16/07/2021 11h29 - Atualizado em 16/07/2021 11h41



Capítulo dez da série 'histórias que eu ouço na clínica'.

Ala feminina da Clínica de Reabilitação em Ponte Serrada (Foto: Kiane Berté)

O primeiro casamento de Rafael Jonas (nome fictício) durou 17 anos. Foram quase duas décadas de companheirismo, amizade, mas também de brigas corriqueiras que acabaram levando ao fim do relacionamento.

 

Com a antiga esposa, Rafael teve um filho, hoje com quase 18 anos, que é seu companheiro, e que seguiu com ele quando o divórcio saiu. Apesar de ter dado um fim ao compromisso que tinha há anos com ela, Rafael e a ex-companheira terminaram de forma amigável, dividindo os bens entre si e seguindo a vida erguendo a bandeira branca.

 

Não demorou muito para que ele conhecesse outra mulher, a pessoa que dividiria a vida com ele dali em diante. Através de uma rede social e trocas de mensagens românticas e cheias de sentimento, ambos se encontraram e logo iniciaram um relacionamento.

 

“O segundo deu tudo errado”.

 

Ruti (nome fictício) foi o sonho de Rafael no início. Eram companheiros e se davam bem. Nunca houve motivos para um desentendimento, mas, no decorrer do tempo, alguns meses depois, Ruti passou a agir de forma estranha com o namorado.

 

Foram quase 12 meses de um relacionamento turbulento, cheio de inseguranças e ciúmes. Onde Rafael fosse, Ruti o seguia, mas não para acompanhá-lo, mas sim, vigiá-lo para que não andasse fora da linha.

 

Isso acontecia no mercado, onde Rafael não podia olhar para os lados, ou num jogo de futebol, em que apenas homens estariam presentes. A obsessão foi tamanha, que Ruti não o deixava sozinho nem na barbearia, enquanto ele cortava o cabelo.

 

Quando a nova namorada precisava ir ao salão de beleza, Rafael era obrigado a ficar ao lado dela, sem sair de perto, até que ela acabasse os procedimentos.

 

Caso a deixasse sozinha, a briga era agendada para quando os dois chegassem em casa.

 

Rafael passou a sentir os primeiros sintomas da depressão por conta de toda a pressão que recebia. Não conseguia se sentir livre, não fazia mais as coisas que gostava por medo, e isso o levou a pedir a separação.

 

“Ela era uma pessoa muito obsessiva.”

 

Seis anos mais velha que Rafael, Ruti não aceitava o fim do relacionamento. Não aceitava também o marido querer dividir os bens com ela, deixando claro que o que estivesse dentro de casa, ficaria com ela e não com ele.

 

O carro estava em nome de Rafael, que não havia terminado de quitar as parcelas. Então, foi a única coisa que conseguiu levar daquele relacionamento cru.

 

A perseguição começou a partir dali. Sem querer deixar Rafael sair de casa, o agrediu com aranhões e mordidas, há pouco mais de um mês.

 

As marcas ainda continuam presentes na região do pescoço dele, mostrando a violência do ataque e as cicatrizes que ali permanecem, o deixando recordar de tudo toda vez que se olha no espelho.

 

Não demorou muito para que Ruti procurasse a polícia e pedisse por uma medida protetiva contra ele. Como trabalhavam no mesmo local, no interior da cidade onde viviam, Rafael precisou permanecer por ali.

 

Ele passou a dormir na companhia do filho no andar de cima da casa onde vivia com Ruti, e ela, embaixo.

 

 “Toda noite ela queria vir dormir comigo.”

 

Ruti fazia de tudo para tentar se reconciliar com o amado, mesmo depois de toda a situação desastrosa entre os dois. E Rafael permanecia ali, ao lado dela, correndo o risco de ser preso.

 

Alertado pelo chefe sobre aquilo, o homem resolveu colocar um fim em tudo, se mudando para a casa do pai, na cidade.

 

Quando Rafael estava deixando a casa de Ruti, apenas com o carro que trabalhou tanto para ter, a esposa jogou uma pedra em sua direção e acertou o veículo, danificando uma das lanternas.

 

Para não se comprometer por conta da medida protetiva, pediu que amigos fossem até a casa para retirar os poucos pertences que Rafael tinha do casamento antigo.

 

Não demorou muito para que Ruti ligasse para Rafael, pedindo para que ele voltasse para casa. As promessas dela para ele eram sempre as mesmas: que iria mudar.

 

Rafael acreditou, porque Ruti retirou a medida protetiva que tinha contra ele. Com medo de que pudesse ser mentira dela e que ela estivesse fazendo algo para que o prejudicasse, Rafael se deslocou até ao Fórum para ter certeza que poderia se aproximar.

 

O relacionamento dos dois voltou a ser agradável na medida, relembra Rafael. Foram dois meses em que Ruti parecia uma nova pessoa, disposta a lutar por ele e o tratar bem, assim como ele tentava fazer com ela.

 

 “Depois começou de novo.”

 

Ouvindo da boca de Ruti que ela não confiava nele e que não queria deixá-lo sozinho, Rafael tomou a decisão definitiva de colocar um ponto final na relação.

 

“’De você eu nunca vou desistir. Eu vou fazer de tudo, de tudo!’”

 

As palavras desferidas por Ruti passaram a assustar Rafael. A mulher deixou claro para ele que não o deixaria ficar com mais ninguém.

 

E essa afirmação era demonstrada até quando os dois precisavam ir ao mercado para buscar as compras que faltavam para a casa. Para Rafael era torturante demais, pois nem ao menos podia olhar para os lados no corredor, ou arranjava motivos para uma briga sem fim.

 

“Eu não quero um casamento assim, que seja uma prisão. Sem confiança não tem casamento.”

 

Rafael decidiu que mudaria de vida, longe de Ruti. Já, novamente na casa do pai, pediu demissão do trabalho onde estava e, com o acerto, pagou as contas que tinha pendentes e gastou o restante em bebida.

 

A partir daquele dia, o bar virou a segunda casa de Rafael. O que antes era social, se tornou um vício sem fim.

 

Rafael passou 15 dias, dia e noite, dentro de um bar, nas proximidades da casa do pai, afogando as mágoas que tinha e a raiva por ter deixado as coisas chegaram ao extremo aonde chegou.

 

Sozinho e desempregado, Rafael precisava trabalhar. Ele até foi chamado para uma entrevista em uma empresa local, mas foi aconselhado por uma das responsáveis a voltar após uns dias, devido ao cheiro eminente de álcool ao seu redor.

 

Ele era consciente quando fazia as visitas diárias ao bar. Deixava o carro em casa e seguia a pé, para não correr o risco de fazer besteiras depois que afogasse as mágoas. Andava ‘trançando as pernas’ pela rua depois de cumprir com o dever do dia. Ele também não se alimentava, o que o levando a perder peso.

 

“Um dia eu pensei comigo: se eu continuar assim, eu vou morrer.”

 

Ao se darem conta do vício de Rafael, seus irmãos passaram a chamar a atenção dele por conta do excesso de álcool. Eles davam conselhos a ele para que se internasse e tentasse recomeçar, mas Rafael não aceitava conselhos.

 

Na cabeça dele, se livraria sozinho do vício. Mas não foi o que aconteceu.

 

“’Se você não mudar de vida, nós vamos virar as costas para você’.”

 

Os irmãos de Rafael já não conseguiam mais fazê-lo pensar na saúde. Só queriam vê-lo a salvo e longe de coisas que o trouxessem dor no futuro.

 

Foi então que Rafael tomou uma decisão. Enquanto aguardava o encaminhamento para a internação na reabilitação, mudou de cidade e passou uma semana na casa de uma das irmãs.

 

Aqueles sete dias foram de grande aprendizado para Rafael, que não colocou uma gota de quer de bebida alcoólica na boca.  

 

Aos 44 anos, Rafael foi internado na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada para se curar do álcool. Com todo o apoio da família, principalmente dos irmãos, ele passou a se alimentar melhor, recuperando todos os quilos que perdeu por conta de uma separação dolorida e o uso excessivo de álcool.

 

>> A história que você acabou de ler faz parte de um projeto que venho desenvolvendo na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada há mais de dois meses, e pertence a um dos pacientes da unidade. 

Kiane Berté

Kiane Berté tem 26 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


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