Cresci em um lar regado de violência


Por Kiane Berté

08/07/2021 14h18 - Atualizado em 08/07/2021 14h18



Nono capítulo da série 'histórias que eu ouço na clínica'.

 

ATENÇÃO: a história a seguir possui gatilhos.

Refeitório da clínica (Foto: Kiane Berté)

Uma infância muito problemática, cheia de inseguranças e medos, que até hoje são difíceis de curar.

 

Cores como as do arco-íris já não faziam mais parte da vida de Junior Vargas (nome fictício), um jovem com 22 anos, que sonhava em partir da vida desgastante e obscura para conseguir liberdade e dias menos nublados.

 

Junior cresceu dentro de um lar de muita violência. A depressão da qual ele se trata até hoje foi crescendo ainda mais ao presenciar crimes dentro da família.

 

Filho mais novo em uma família com cinco irmãos, Junior sempre foi alvo das brincadeiras de mau gosto. Era motivo de risos, de piada, e de agressões frequentes por parte dos dois irmãos mais velhos, hoje com 38 e 40 anos.

 

 “Eles eram violentos.”

 

Flávio e Cleber (nomes fictícios) são usuários de crack, e a droga sempre os deixava fora de si. Além de brigarem com outras pessoas por conta de desavenças que até hoje Junior não sabe o motivo, os irmãos roubavam estabelecimentos porque tinham muitas dívidas com traficantes do bairro em que Junior vive atualmente com a mãe.

 

O ambiente familiar era regado com violência, desentendimentos, e muito sangue. A casa era alvo de tiros por parte dos traficantes, que passavam avisando que os irmãos de Junior estavam na mira dos criminosos.

 

“Vi meu irmão levar um tiro nas costas.”

 

Junior era muito pequeno, mas já passava a entender toda a situação. Com 12 anos, quase presenciou a morte do irmão, que enfrentou um traficante e deixou rastros de sangue e dor pelo caminho.

 

A depressão de criança passou a ficar mais pesada no início da adolescência, o deixando completamente sem chão, sem ter onde se segurar. Não havia suporte algum, e a mãe, a única pessoa que poderia o ajudar naquele momento, não entendia o pedido de socorro do filho caçula.

 

“Minha depressão era tipo ‘dark’. Eu era do escuro mesmo, em todos os sentidos.”

 

O preto não era só uma cor. Fazia parte de Junior, da cabeça aos pés. Ele estava tão acostumado com a escuridão, que preferia viver em um mundo fechado, onde não existisse luz para ser ligada.

 

Com o passar do tempo, o jovem aprendeu a ser uma pessoa ruim, rude, cheia de ódio e incertezas, que traziam até a sua mente, pensamentos duvidosos.

 

“Minha defesa era minha arrogância.”

 

As pessoas mais próximas não o entendiam e não acreditavam no que ele falava. Violavam as suas leis e a sua honra, o deixando descontrolado e passando a ter surtos psicóticos.

 

Ele se via como uma pessoa esquizofrênica, não só pelo problema de saúde em si, mas por todos os momentos de medo e terror que viveu e pelas tragédias das quais presenciou e não quis falar sobre.

 

Junior era alvo de agressões por parte dos irmãos Cleber e Flávio. Eles usavam a droga e ficavam violentos, descontando tudo no caçula da casa.

 

Após as ameaças, os socos e tapas que davam no irmão mais novo, se deitavam para dormir como se nada tivesse acontecido. Os momentos de euforia que os grandalhões tinham por conta do uso do crack, passavam, mas a mágoa interior de Junior só crescia cada vez mais.

 

Enquanto os irmãos descansavam depois de descarregar a raiva, Junior seguia até a cozinha, apanhava uma faca e ficava em pé, ao lado deles, olhando e pensando em como seria fácil acabar com a dor e o sofrimento.

 

“Eu pensava: ‘agora está em minhas mãos’.”

 

Ao cair em si e se dar conta de que aquilo era errado e que poderia lhe trazer consequências severas, o jovem deixava de lado a imaginação e retornava para o quarto e permanecia no escuro, bebendo o café preto forte que passou a ser seu único alimento durante muito tempo.

 

Desacreditando que pudesse existir uma força maior no céu, um Deus que pudesse o proteger e o ajudar, se questionou se ele existia.

 

“Eu pedi para ele que me fizesse feliz.”

 

O menino foi crescendo, mas sem poder viver de verdade. Foram sete anos dentro do quarto, trancado, sem comer direito, e sofrendo por conta de uma gastrite que foi resultado do excesso de café dos últimos anos.

 

“Eu não tinha animo, não tinha cor na minha vida. Era só preto.”

 

O desespero interno era tão grande, que Junior chegou a fazer pactos com forças malignas, as invocando, tentando achar uma saída para a porta interior que não se abria.

 

“Eu conversava com eles à noite e eu queria saber quem eram eles e porque eles queriam estar ali comigo.”

 

Mesmo relatando não ter visto o rosto dessas criaturas perversas, se sentia atraído por elas, porque, assim como a escuridão em que ele mesmo estava, elas viviam da mesma forma que ele.

 

“Eu ficava louco, dominado. Eu parecia um zumbi.”

 

Seu coração era fechado pela dor, pela escuridão, e não havia mais solução para aquilo que ele estava sentindo.

 

A única coisa que acalentava o seu interior era olhar pela janela do quarto, à noite, para observar a lua e as estrelas. Não sabia o porque dessa fascinação pelos pequenos pontos de luz há quilômetros de distância, mas ali habitava uma paz que ele nunca havia sentido antes.

 

Os questionamentos sobre o porque de ter nascido, do porque estar na terra se a única coisa que fazia era sofrer, sempre acabavam em mais perguntas sem sentido e sem respostas.

 

“Nesses 22 anos parece que eu vivi 40.”

 

Junior chegou a um ponto onde não conseguia conversar, se expressar, e se comunicar com ninguém. Mas a única coisa que não o deixou desistir de viver foi a ajuda de uma psicóloga que conversava com ele através de desenhos em uma folha de papel.

 

Com total apoio dela, que nunca deixou de ver o lado bom de Junior, o jovem veio parar na Clínica de Reabilitação para se recuperar e começar uma nova vida. Uma vida de cor, que brilhe mais do que as estrelas no céu durante a noite escura.

 

“Ela não desistiu de mim. Deus talvez me enviou ela. Até hoje ela cuida de mim.”

 

>> A história que você acabou de ler faz parte de um projeto que venho desenvolvendo na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada há mais de dois meses, e pertence a um dos pacientes da unidade. 

Kiane Berté

Kiane Berté tem 26 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


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