As cicatrizes que carrego em meu braço são fruto da dor que sinto


Por Kiane Berté

01/07/2021 08h50 - Atualizado em 01/07/2021 08h59



Oitavo capítulo da série 'histórias que eu ouço na clínica'.

 

ATENÇÃO: a história a seguir possui gatilhos e cenas fortes.

Um dos quartos da ala feminina da Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada (Foto: Kiane Berté)

As marcas que aparecem no braço esquerdo de Olívia Farias (nome fictício) e que são escondidas pelas mangas compridas da blusa, ainda estão rosadas, indicando que são recentes.

 

São cicatrizes que ela precisa esconder da família e dela mesma para não se lembrar de tudo o que aconteceu no passado. Elas iniciam no antebraço, seguindo até o pulso, feitas por uma faca de cozinha afiada e que estava dando bobeira sobre a pia.

 

Aos 52 anos, ela foi internada na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada para tratar a depressão profunda em que se encontra, e também o uso de drogas.

 

A depressão seguiu com ela durante anos. Olívia sentiu os primeiros sintomas ainda quando nova, adolescente, ao conhecer o primeiro marido, o Bernardo (nome fictício), aos 16 anos.

 

Bernardo era basicamente o contrário do que se espera de uma história de princesas, dos contos de fadas. Ele era o príncipe que virou sapo.

 

Olívia se lembra dele como um bom namorado. Ele a agradava e a cuidava o tempo todo, talvez tentando ganhar a confiança dela para depois destruí-la da pior forma possível para que jamais pensasse em deixá-lo.

 

 “Fiquei tempo sofrendo com ele. Mais de 20 anos.”

 

Bernardo passou a mudar depois de um tempo. Olívia não sabia, mas o marido conheceu outra mulher, com quase o dobro da idade dele, e a traia às escondidas.

 

“Se eu não ficasse com ele, ele disse que me mataria.”

 

Olívia lembra exatamente do dia em que foi maltratada pela primeira vez por ele. Além de agredi-la fisicamente, lhe acertou uma pedrada no olho direito, quase a deixando cega, porque a esposa saiu para visitar uma irmã. Bernardo só não fez pior, porque um dos familiares de Olívia a socorreu.

 

A primeira vez em que Olívia fez o uso de droga foi com uma amiga, uma vizinha da família, que era alguns anos mais nova do que ela. Ao ver a situação da Olívia, Gislaine (nome fictício), a convidou para tomar um chimarrão, coisa que elas sempre costumavam fazer juntas nas tarde em que se encontravam sem nada para fazer.

 

Gislaine podia ver, através dos olhos e também das atitudes de Olívia, que as coisas não estavam muito bem. A amiga já imaginava que a tristeza sem fim de Olívia não era apenas uma tristeza, e sim, uma doença que estava evoluindo dentro dela.

 

Para tentar amenizar a dor que Olívia sentia, Gislaine lhe ofereceu um ‘breu’ – um dos nomes dados à maconha.

 

Mesmo consciente de que aquilo podia mudar a sua vida, Olívia usou e se sentiu livre, feliz, como se a raiva, a angustia e a dor interna tivessem deixado o seu corpo. O que ela não esperava, era que a droga a levaria para o fundo do poço mais depressa, talvez, sem conseguir sair a tempo.

 

Quando descobriu sobre o "passatempo" da esposa, Bernardo passou a obrigá-la a usar drogas com ele. Olívia sabia que naquela mistura que ele dava a ela não continha só maconha, e sim, uma droga mais forte, que a deixava incapaz de tomar as próprias decisões.

 

Era usar ou morrer, e Olívia preferiu não arriscar as ameaças do esposo. Por causa da droga pesada, ela passou a emagrecer demais, pois não comia mais nada. Não sentia fome e também não se sentia viva.

 

 “Eu só tomava chimarrão e fumava.”

 

As drogas eram misturadas com medicamentos. Remédios controlados para dormir, para ansiedade e depressão, e também para ajudar a não ter convulsões - problema de saúde que ela sofre até hoje.

 

Ela passou a ser vigiada. Não podia sair de casa para trabalhar, para caminhar, e nem para ver amigas das quais ela sentia muita falta. Além de maltratar a companheira, Bernardo fazia ameaças de morte, como se fosse algo que estava planejando há bastante tempo.

 

 “'Se eu te matar não custa nada. Para mim não vai existir cadeia'.”

 

As agressões e ameaças não foram as coisas mais pesadas que Bernardo fez Olívia passar.

 

As três primeiras crianças que Olívia deu à luz, eram filhas de Bernardo. Hoje, Olívia é mãe de cinco, mas a primeira criança que veio ao mundo acabou morrendo com um mês de vida. Até hoje Olívia não sabe o que aconteceu com a filha, mas desconfia que ela possa ter nascido com algum problema de saúde.

 

Na gestação do segundo bebê do casal, ainda tentando superar a perda do primeiro, Olívia levou uma surra bem grande, de deixar marcas, e quase abortou a filha.  

 

Após chegar em casa bêbado, cheio de ódio nos olhos e decidido a acabar com Olívia, o marido espancou a mulher e depois pisou na barriga dela. Foi um milagre a criança sobreviver àquilo tudo.

 

Mesmo assim, Olívia o defendia, porque o coração falava mais alto sempre, mesmo precisando sentir a dor na pele.

 

“Eu acreditava nele, porque eu o amava. Parecia que quanto mais ele me batia, mais eu gostava dele.”

 

O homem gostava de beber. Olívia conta que ele chegava a passar a noite no meio do mato, voltando desnorteado para casa. Muitas vezes, agressivo, outras, de ressaca.

 

Com o passar do tempo, Olívia passou a entender que estava sofrendo demais e que não merecia passar por tudo o que estava passando. Ao anunciar um possível término entre os dois, Bernardo se enfureceu. Passou a perseguir Olívia por todos os lados, fazendo-a recuar.

 

Quando finalmente conseguiu a liberdade, Olívia já se via abandonada. O esposo a deixou na rua, sem nada, até mesmo sem roupa.

 

“Ele me ameaçava, dizia que se eu não entregasse meus filhos para ele, acabaria me matando.”

 

Mesmo com medo, a mãe não abriu mão dos filhos, hoje adultos. Bernardo acabou se casando com a suposta amante da época depois que Olívia deixou de vez a casa da família junto dos filhos. Mas ele também acabou abandonado pela outra mulher um tempo depois, porque resolveu descontar a raiva na nova companheira.

 

Olívia ouviu boatos de que a amante do marido também estava apanhando e sendo ameaçada.

 

“O que ele fazia pra mim, fez pior pra ela. Ele quase a matou com um tiro.”

 

“Bem diferente do outro”, é assim que Olívia descreve Samuel (nome fictício), o novo companheiro com quem se juntou após a separação com Bernardo, e que é pai dos seus outros dois filhos.

 

O novo integrante da família é gentil, atencioso, uma pessoa que vê o melhor de Olívia em tudo o que ela faz. Os remédios que ela ingere são todos comprados por Samuel, que controla a saúde de Olívia com a maior preocupação.

 

Apesar de Olívia não ter fome e não conseguir comer, Samuel faz de tudo para que a esposa melhore dessa tempestade.

 

“Eu não queria comer mais, eu só queria morrer.”

 

A pressão psicológica que sofreu do antigo marido, ainda ficou presente na vida de Olívia. As decisões difíceis que ela havia tomado sobre tirar a própria vida, sempre acabavam dando em nada, apesar de nunca desistir da ideia.

 

Quando ela utilizou uma corda para tentar se enforcar, percebeu que não teria forças para continuar com o plano.

 

Samuel chegou a chorar na frente da companheira, demonstrando não estar contente com a decisão dela. Ao perceber que aquilo poderia significar um surto por falta de drogas e cigarro, Samuel entregou dinheiro nas mãos de Olívia para que ela comprasse a droga e o cigarro, e ficasse bem.

 

Os medicamentos já não faziam mais efeito, porque eram misturados com drogas e bebidas. A cabeça de Olívia já não funcionava nas melhores condições possíveis. Em um dia em que ela estava sentada na área de casa, tomando chimarrão junto dos filhos e de Samuel, um surto bateu à porta da consciência, induzindo Olívia a fazer besteiras.

 

Rapidamente, a mãe correu até a cozinha e apanhou uma faca de serrinha que ainda estava por ali, já que Samuel havia escondido todas as outras depois que Olívia ameaçou de se ferir. Já com os braços fora da roupa, retalhou a pele fina, deixando diversos cortes espalhados pelo antebraço. Ao presenciar a cena, os filhos e o esposo correram para evitar o pior e chegaram a lutar com a mãe para desarmá-la.

 

“Eu não podia ver sangue, eu tinha medo. Mas naquele dia, eu não tinha medo de nada.”

 

Os filhos choravam pelo acontecido, e Olívia permanecia em choque pelas coisas que havia feito na presença deles. Samuel enrolou o braço dela com alguns panos que encontrou pela casa e depois tentou acalmar a companheira.

 

“Ele me disse que eu lambia o sangue que saia do meu braço, mas eu não me lembro de nada.”

 

Agora, Olívia anda somente com blusas de manga comprida. Tudo o que ela quer é esconder as marcas de dor que a fazem se lembrar de coisas tristes. Apesar de saber o que tem por baixo dos panos, no braço, ela evita deixá-los à mostra para que os filhos também não vejam.  

 

Depois desse episódio, Olívia deu entrada na clínica de forma voluntária, para melhorar e dar orgulho à família. O maior motivo para que ela aceitasse se internar foi por medo de que tentasse contra a vida dos filhos ou do esposo.

 

Quando Olívia chegou à clínica, o surto pela falta do cigarro e da droga foi grande. A paciente andava desesperada pelos corredores, sem dormir à noite, tendo alucinações exageradas e vendo bichos pelas paredes. O que ela mais se recorda de ter visto pelos corredores foi cobras, que também são frutos de traumas do passado.

 

Hoje, às vésperas de deixar a Clínica de Reabilitação, Olívia se sente aliviada por estar prestes a ver a família novamente. Uma nova pessoa que se tornou nas últimas semanas, Olívia deve usar seu dinheiro para fazer um churrasco e reunir a família novamente, para que todos fiquem felizes com a sua volta.

 

“Não vejo a hora de ir para casa e ver meus filhos.”

 

>> A história que você acabou de ler faz parte de um projeto que venho desenvolvendo na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada há mais de dois meses, e pertence a um dos pacientes da unidade. 

Kiane Berté

Kiane Berté tem 27 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


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