Faço minhas orações toda vez que o tempo se fecha


Por Kiane Berté

23/06/2021 16h16 - Atualizado em 23/06/2021 16h33



Sétimo capítulo da série 'histórias que eu ouço na clínica'.

Corredor que dá acesso à entrada da clínica (Foto: Kiane Berté)

Quando o sol desaparece e o céu dá lugar a nuvens e água aos montes, dona Valquíria Vargas (nome fictício) passa a ficar ansiosa e se prepara para iniciar as orações para pedir proteção. E não é a toa que isso acontece sempre que chove.

 

Valquíria sofreu grandes traumas no passado por conta de uma forte tempestade que varreu a casa da família dela do mapa.

 

A tempestade foi mais do tipo furacão, que devastou todas as madeiras da residência e deixou marcas de dor e angustia na família, que viveu a vida toda no interior.

 

Hoje, aos 70 anos, sente um frio na barriga toda vez que olha pela janela e vê o sol indo embora. No mais tardar da noite, o nervosismo de que alguma coisa pode voltar a acontecer, sem nem ao menos estar chovendo, faz com que ela trema da cabeça aos pés.

 

Internada há poucos dias na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada para tratar da depressão e ansiedade, dona Valquíria - que divide o quarto número '3' com outras duas mulheres - tem um problema sério com tremedeira. No dia em que nos concedeu esta entrevista, até a voz tremia com ela.

 

Um pouco era do nervosismo de estar trancada em uma clínica, outro tanto, porque precisou deixar o cigarro do lado de fora para poder se internar, depois, passou a ficar com medo por ser avisada pelo médico de que poderia estar sofrendo de Mal de Parkinson. Mas o que ainda a deixa inquieta, é a preocupação com o tempo se fechando lá fora e que ela conseguia ver pela janela de vidro.

 

A idosa, que trabalhou a vida toda como costureira, criando roupas do início ao fim para vizinhos e também empresas de fora, é bem falante e bastante amigável, mas chorou ao se lembrar do passado e dos momentos de tensão que viveu ao lado da família.

 

Aos 18 anos, enquanto retornava para casa da escola, junto de quatro dos seus nove irmãos, Valquíria percebeu que alguma coisa estava errada. Era de noite, porque naquela época, eles costumavam trabalhar durante o dia e não tinham tempo para se dedicar aos estudos enquanto o sol estava presente.

 

Árvores foram vistas pelo caminho, caídas, bloqueando a passagem da estrada por onde passavam com o Chevette recém adquirido pelo pai Valter (nome fictício) para ir ao educandário.

 

Valquíria não gosta de lembrar das cenas e dos momentos de terror que viveu, mas fez um esforço para falar sobre, para conseguir se libertar do trauma que tem até os dias de hoje.

 

“Eu fumava e me acalmava.”

 

Naquela noite em que um furacão atingiu as redondezas, um rastro de destruição foi presenciado pelos moradores. O desastre da natureza causou pânico na família de Valquíria e em todos que perderam seus pertences naquele episódio memorável.

 

 “Quando chegamos em casa, eu vi aquela coisa branca do chão ao céu. Parecia uma espuma, e tinha uns fogos dentro.”

 

Sofia (nome fictício), mãe de Valquíria, possuía uma imagem de Nossa Senhora Aparecida em casa. Muito religiosa, buscava naquela estátua a proteção que precisava.

 

E foi através dela que a família conseguiu se abrigar na fé. Com oito dos seus irmãos já no quarto dos pais, protegidos e amparados por Valter e Sofia, Valquíria ficou com a missão de acordar o irmão mais novo, que dormia profundamente no quarto ao lado.

 

O relógio marcava meia noite. O vento aumentava cada vez mais e fazia a casa da família tremer. Dona Sofia pedia para que os filhos não olhassem pela janela e que acompanhassem e se concentrassem na oração que estava sendo feita.

 

Quando o irmão mais novo foi acordado e deixado junto dos outros, Valquíria se aproximou da porta para fechá-la e foi prensada contra as paredes pelo vendaval.

 

“Quando eu vi que estava se fechando, que eu não podia mais respirar, eu gritei: ‘Nossa Senhora’.”

 

As lembranças desse pequeno espaço de tempo estão em branco na memória dela. Valquíria ficou inconsciente durante alguns minutos após o episódio, e diz não se lembrar ao certo quanto tempo foi, mas imaginava que tivesse perdido a vida.

 

Quando acordou, Valquíria estava sentada sobre as tábuas da casa já no chão, com ferimentos por todo o corpo. Ela acredita que algum espírito de luz tenha feito com que ela dormisse para não ver nada.

 

“Todo mundo diz que foi um milagre sobreviver.”

 

Quando a tempestade acalmou, a família de Valquíria ainda estava no quarto onde se abrigou mais cedo. Apesar do espaço também ter sido praticamente revirado pelas mãos de alguém, pai, mãe, e os nove irmãos da jovem, estavam vivos, também com arranhões.

 

A única coisa que ficou parcialmente intacta na residência foi o piso e parte do porão onde os cachorros da família se abrigaram para sobreviver.

 

Para sair naquela cena de guerra, a família precisou arranjar uma solução, antes que a tempestade retornasse. Próximo da casa deles, antes, havia uma balsa que era utilizada para atravessar o rio, mas com tamanha força do vento, ela foi levada pela correnteza.

 

O que permaneceu no local além de uma parte de ferro que prendia a balsa, foi um barco pequeno usado para pesca, chamado de caico. E foi com esses dois meios que pais e irmãos conseguiram fugir do medo.

 

Já na casa de um dos vizinhos mais próximos, onde o vento nem se quer havia se atrevido a chegar, Valquíria e os irmãos perderam a voz. Estavam traumatizados pelo medo e desespero.

 

“Ele fez café com ‘graspa’, porque nós estávamos congelados.”

 

O vizinho fazia perguntas à eles, e apenas Sofia conseguia responder. Foi assim durante as últimas horas da noite.

 

No dia seguinte, quando a família precisou retornar para casa para cuidar da lavoura que também foi tomada pela tempestade, os moradores puderam ter a dimensão do estrago ao ver a casa aos pedaços e tudo ao redor completamente amassado.

 

“Parecia que o mato tinha sido quebrado a mão.”

 

Valter estava apreensivo com tudo, mas Valquíria se lembra como se fosse hoje, que o pai só sabia agradecer por estarem todos vivos, e não se importou em perder os bens materiais.

 

As roupas de Valquíria, por exemplo, foram encontradas a 30 km de distância da casa.

 

Em meio ao improviso, eles passaram a noite nos colchões completamente encharcados pela chuva. Como o furacão resolveu visitar a família no mês de junho, no inverno, em um dia bastante frio, deixou muito mais do que destruição por onde passou. As sequelas da família estão muito além do psicológico.

 

 “Por isso todo mundo sofre de asma.”

 

Até hoje, Valquíria ora e pede a Nossa Senhora para que leve dela esse medo absurdo que ficou durante tantos anos e que hoje tira seu sono. Além dela, todos os irmãos sofreram com traumas dessa tempestade, inclusive o irmão mais novo que dormia e que foi salvo por ela naquela noite.

 

O irmão Isaias (nome fictício) acabou falecendo nos últimos meses, vítima de Covid-19. Outro irmão que acabou partindo por uma doença grave foi Marcos (nome fictício), que perdeu a batalha para a depressão.

 

 “Eu não me conformo, sabe?”

 

Valquíria chora ao se lembrar dessas perdas, porque amava muito os irmãos. Ela recorda que todos eles eram bastante ligados uns aos outros. Nenhuma discussão, nenhuma briga, porque todos eram companheiros e verdadeiros amigos.

 

O nome Valquíria não surgiu de repente. A dona dessa história o escolheu por se tratar de uma amiga da juventude, que ela conheceu em um colégio de freiras, no Rio Grande do Sul, onde permaneceu durante cinco anos.

 

Valquíria e a amiga deixaram o colégio ao mesmo tempo. Uma delas permaneceu no Estado e, a outra, passou a viver em Santa Catarina. As amigas trocaram cartas por anos e Valquíria lamenta não tê-las mais consigo, porque as perdeu ao reviver o pesadelo da infância com um tornado há alguns anos. 

 

Além de trazer péssimas lembranças e perder parte da casa onde vivia, a tempestade levou dela as recordações da amiga.

 

“Ela não queria conversar pelo celular, porque o celular acaba.”

 

A Valquíria da vida real acabou falecendo há pouco tempo, vítima de um acidente de carro, mas a dona dessa história está tentando recomeçar, apesar das dificuldades que encontrou no caminho.

 

Mesmo com a saudade que ficou, e dos traumas que ela ainda não conseguiu superar, Valquíria tem certeza de que vai encontrar a paz e viver com felicidade daqui para frente.

 

>> A história que você acabou de ler faz parte de um projeto que venho desenvolvendo na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada há cerca de um mês, e pertence a um dos pacientes da unidade. 

Kiane Berté

Kiane Berté tem 27 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


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