Salvei meu irmão e ele não me visitou na prisão


Por Kiane Berté

15/06/2021 15h19 - Atualizado em 15/06/2021 16h20



Sexto capítulo da série 'histórias que eu ouço na clínica':

 

ATENÇÃO: a história a seguir possui gatilhos e cenas fortes.

Biblioteca da Clínica de reabilitação de Ponte Serrada (Foto: Kiane Berté)

Deitado sobre cobertores finos, descalço, e concentrado em um livro sobre saúde, na pequena biblioteca da Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada, Jorge (nome fictício) tenta alugar a mente com assuntos que não o perturbem ainda mais.

 

Internado há pouco tempo para tratar uma depressão profunda e também o alcoolismo, Jorge busca nos livros, quase todos os dias, um refúgio que não encontra em programas de televisão.

 

Hoje com 35 anos, a vida segue um pouco sofrida, dolorida e cheia de inseguranças, tudo isso causada por situações desesperadoras que viveu há alguns anos.

 

Seis anos preso por homicídio, Jorge deixou a prisão há pouco mais de um ano, mas levando com ele um sentimento de dor.

 

“A minha depressão aumentou bastante por causa do nervosismo que a gente passa na prisão. Não que eu queira jogar a culpa nisso, mas eu peguei uma situação bem complicada lá dentro.”

 

Após deixar a prisão, Jorge passou a se tratar da depressão em casa, com uso de medicamentos bastante fortes. Jorge se separou da mulher e voltou a beber. A bebida também o levou a pensar em suicídio.

 

Em uma manhã qualquer, há algumas semanas, Jorge acordou perturbado. Era como se já sentisse que aquele era o momento certo para acabar com tudo.

 

Após apanhar uma faca que tinha em casa, se deslocou para um parque que sempre gostou de visitar para poder ficar sozinho e ter paz. Lá, seria o lugar ideal para cometer o ato, já que era o local que mais adorava descansar.

 

Com a arma branca afiada e apontada em direção ao peito, Jorge sentiu uma presença diferente no ambiente, tentando impedir que ele fizesse alguma besteira.

 

“Se Deus existe, naquela hora ele estava comigo, porque eu vi o rosto da minha mãe.”

 

O que mais tocou o rapaz naquele momento foi imaginar como a mãe ficaria ao saber que o filho sofreu daquela forma para partir. Isso acabou enfraquecendo as mãos dele e o fez abandonar a faca. Mas a dor ainda continuava.

 

Após a tentativa frustrada, já em casa, Jorge apanhou oito cartelas de remédio e dissolveu em um copo com vodka para beber.

 

“Só fui acordar depois de um dia e meio no hospital.”

 

Ele foi encontrado no chão de casa pela irmã, que passou lhe deixar pães para o café da manhã.

 

Trabalhando como pedreiro, carpinteiro, e outras coisas mais, Jorge precisou dar um tempo de tudo para ficar em casa para se tratar, depois de receber alta do hospital. A mãe e a irmã não o deixavam sair para nada, pois a preocupação de que o familiar tentasse contra a própria vida novamente, era grande.

 

Música e televisão são duas coisas que Jorge não consegue ter por perto. O som já o incomoda de uma forma absurda.

 

“Pelo que eu passei na minha vida, eu já tenho bastante calo e daí quando eu vejo certas bobagens na novela, já me irrita.”

 

Quando Jorge assiste à filmes, principalmente aos que contém histórias em presídios, a raiva aumenta. Ele já passou pela situação, então, diz se tratar de pura mentira.

 

 A infância de Jorge também não foi muito fácil. Aos dez anos, as brincadeiras que ele mais gostava eram as que proporcionassem dor aos outros, as que machucavam.

 

Uma em especial, era um buraco feito no chão, preenchido com estacas de madeira pontudas, escondidas em folhas em meio aos carreiros, feito para que as pessoas que passassem pelo local caíssem nele.

 

Ele e um dos sete irmãos que tem, Berto (nome fictício), costumavam nadar em um poço próximo de casa quando eram crianças. Nesse mesmo local, duas meninas, vizinhas da família, também brincavam naquele espaço. Jorge se lembra que elas eram de família rica, e costumavam ignorá-los e deixá-los de lado por conta disso, até mesmo no lago, onde não se misturavam com os irmãos e não os deixavam nadar ali enquanto estavam por perto.

 

Na esperança de se vingar e de espantá-las do local, Jorge chamou por Berto para bolar um plano. Após juntar o máximo possível de garrafas e litros de vidro que encontraram em casa, as quebraram pela metade e levaram os pedaços até o pequeno riacho.

 

Mergulhando até o fundo, Jorge enfileirou os vidros pontudos no fundo do poço de água, fazendo daquele espaço, uma armadilha perigosa.

 

Eles se esconderam atrás de algumas árvores na localidade assim que terminaram o serviço, e aguardaram a chegada das irmãs para assistirem de camarote o episódio sangrento.

 

A primeira irmã se jogou no lago e logo levou um susto. Uma mancha de sangue se formou na água, acompanhada de um choro de dor. Ao deixar o poço, a menina estava com o pé dilacerado, todo machucado devido a os cortes causados pelos vidros.

 

O plano deu certo para Jorge e Berto.

 

As brincadeiras deram uma esfriada depois desse episódio. Aos 12 anos, Jorge já trabalhava com o pai na roça, fazendo todo o tipo de trabalho braçal e outros que a propriedade necessitava.

 

Os pais dele acabaram se separando um tempo depois, e os irmãos precisaram escolher com quem ficar. Cada um dos seis, se dividiu entre pai e mãe, mas Jorge, com vontade de viver a vida sozinho e seguir seu caminho, decidiu se emancipar da família.

 

“Nem o pai e nem a mãe aceitaram. De noite eu peguei minhas roupas e fugi.”

 

O tempo passou. Jorge passou a trabalhar bastante e chegou a ser contratado por empresas grandes como a Vale e Petrobras, e depois precisou dar uma pausa na vida, porque acabou preso.

 

Jorge costumava andar armado. Em uma tarde qualquer, voltando do trabalho, avistou um de seus irmãos brigando com outro homem em um bar.

 

Ao ver que ele poderia ser ferido pela faca que o outro homem segurava nas mãos, Jorge desceu do carro e atirou contra o peito do homem, o esfaqueando em seguida com a própria arma, três vezes.

 

“No dia do laudo apareceu que foram cinco. Acho que na hora da raiva eu acabei dando duas a mais.”

 

 A cadeia era solitária, apesar de dividir a cela com mais 11 pessoas. Jorge não queria receber a visita da mãe, porque achava o ambiente bastante pesado e não queria que ela o visse naquela situação. Já o irmão que Jorge salvou naquele dia, e que aguardava impaciente para vê-lo, se ausentou.

 

“Fiquei seis anos preso e esse irmão não fez nenhuma visita para mim.”

 

A raiva foi crescendo dentro de Jorge. Durante esse tempo em que permaneceu na prisão, foi jogado na “toca” onze vezes por conta do mau comportamento.

 

O espaço, que é mais conhecido como solitária, era pequeno, frio, desconfortável, e subterrâneo. Em uma das vezes que Jorge ficou nesse espaço, e que permaneceria por quase um mês, foi deixado nas primeiras semanas sem água. Muitas vezes, a comida que era lançada através de um pequeno espaço na porta de ferro de correr, vinha com bolas de sal, e apenas uma garrafa de água era deixada para que ele conseguisse se hidratar.

 

“Não é como aparece na tevê, pode ter certeza que é muito pior.”

 

As coisas foram só piorando dentro da prisão. Jorge precisou tomar uma decisão importante para salvar a própria vida. Lá, dentro da própria cela, junto dos companheiros, Jorge ajudou a cometer um novo crime, que afetaria seu psicológico dali para frente. Se ele não fizesse o que foi pedido pelos ‘amigos’, acabaria por se dar mal.

 

Esse crime não será detalhado aqui, porque se trata de algo pesado e que não deve ser lembrado.

 

Para passar o tempo lá dentro da prisão, Jorge e os colegas de cela reutilizavam restos de rolo de papel higiênico para criar cartas de baralho para se divertir enquanto cumpriam a pena.

 

Jorge seguiu assim durante todo o tempo. Entre os dias solitários dentro da cela e no pátio enquanto tomada um pouco de sol para receber ‘vitamina D’, ele também era jogado na ‘toca’ para receber uma lição dos agentes penitenciários.

 

Muitas dessas vezes em que visitou a solitária, Jorge conta que tomou as dores dos companheiros. Quando ele não gostava de receber as visitas da mãe, fazia de tudo para perder esse direito. Quando os colegas que esperavam ansiosos para ver os filhos e esposas, aprontassem algo que pudesse tirar o direito de visitação, Jorge se colocava no lugar deles e acabava punido no isolamento.

 

“Por culpa minha mesmo, foi no máximo duas vezes.”

 

O tempo passou e Jorge deixou a prisão há um ano. Ele conheceu uma mulher, com quem permaneceu junto durante alguns meses.

 

A depressão passou a se desencadear na vida dele. As coisas já não faziam sentido e o que ele mais queria era colocar um fim em tudo. Antes de ser preso, Jorge já havia se internado na Clínica de Reabilitação para tratar do alcoolismo que sofria.

 

Pouco antes de retornar à internação, voltou a beber e acabou tentando o suicídio.

 

Era visto que ele precisava de ajuda, e por causa do padrasto, que está junto de sua mãe há 22 anos – idade que a irmã mais nova tem hoje – Jorge conseguiu se internar novamente para se recuperar.

 

Quando chegou na clínica, Jorge não falava com ninguém e até hoje não se sente à vontade no meio de tantas pessoas. A raiva que sentia era tamanha, que nem ao menos ‘bom dia’ respondia.

 

Ele espera, com a saída da clínica, que as coisas melhorem para si. O trabalho que tinha antes, ainda está de pé, e tentando ter paciência para conseguir conviver em sociedade, ele deverá seguir a vida em paz.

 

“Eu aprendi que o princípio de tudo, para eu conseguir qualquer coisa, é me esforçando para ser menos nervoso com os outros. Se eu conseguir isso, eu consigo tudo, porque assim, eu não vou mais ser depressivo, vou conseguir conversar com as pessoas, e o meu serviço vai começar a dar certo."

 

>> A história que você acabou de ler faz parte de um projeto que venho desenvolvendo na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada há cerca de um mês, e pertence a um dos pacientes da unidade. 

Kiane Berté

Kiane Berté tem 27 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


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