Bebida alcoólica não foi feita para crianças


Por Kiane Berté

10/06/2021 10h17 - Atualizado em 11/06/2021 15h13



Quinto capítulo da série 'histórias que eu ouço na clínica':

 

A bebida alcoólica não era a coisa que mais viciava Jorge de Lima (nome fictício). O nervosismo batia e uma tragada no cigarro resolvia um pouco dos problemas, mas como o vício era tamanho, um gole de cachaça também ajudava a relaxar. E por isso ele bebia.

 

Ainda pequeno, sem entender muita coisa da vida, Jorge observava os pais brigarem na frente dele e dos irmãos, após terem ingerido muita bebida alcoólica.

 

João (nome fictício), pai dele, era viciado em caipirinha. A bebida que contêm cachaça, limão e açúcar foi uma porta de entrada para que Jorge se tornasse alcoólatra.

 

Quando o drink estava para se acabar, João molhava a chupeta do filho mais novo no açúcar e no restante do líquido forte do corpo de vidro e depois o entregava para que Jorge degustasse daquele sabor inconfundível.

 

Foi dessa forma que o erechinense, de 48 anos, aprendeu a gostar tanto de beber. Com os demais irmãos não foi diferente. Todos eles eram mimados da mesma forma: com o “bico” mergulhado nas doçuras de um vício.

 

As brigas de João e Maria (nome fictício) eram constantes, e sempre aconteciam por conta da cachaça. Jorge e os sete irmãos que tinha, estavam sempre com medo, pois não sabiam como lidar com aquela situação.

 

Com nove anos, ao presenciar uma desavença corrosiva entre João e Maria, Jorge deixou a casa dos pais e passou a morar na rua durante alguns meses.

 

“Começou a voar litro de vinho de um lado, garrafa de cachaça do outro. Eu comecei a chorar e saí.”

 

Não demorou muito para ser abrigado por uma vizinha da família, a dona Tereza, que hoje já é falecida.

 

“Mesmo assim, eu ia ver minha mãe, quase todos os finais de semana. No que eu podia ajudar, eu ajudava. Levava dinheiro, presente que eu ganhava, vestido, roupas...”

 

Com dez anos de idade, Jorge já trabalhava no pesado, cortando lenha para ganhar seus trocados e se sentir independente. Esses poucos valores que recebia em mãos, ele usava em um bar nas proximidades da residência da família. Naquela época, era normal uma criança beber, fumar, e ter qualquer tipo de vício, relembra Jorge. Foi assim que ele conseguiu comprar, durante anos, cachaça com o dono do estabelecimento.

 

As coisas passaram a melhorar para o menino. Ele já não era mais obrigado a ouvir e ver as brigas de família, e passou a buscar por mais oportunidades com pessoas que queriam vê-lo crescer.

 

Aos 14 anos, Jorge foi levado para um grande colégio para acompanhar um jogo de futebol. Descalço na arquibancada, percebeu a presença de um senhor, de pé ao seu lado, e pronto para lhe fazer um convite. Jorge foi chamado para fazer um teste no Internacional.

 

No mesmo local, depois de ser levado ao vestiário, ele recebeu a camisa número 7, para jogar como ponteiro-direito.

 

“Fiz dois gols naquele jogo.”

 

Depois de ter dado um show em campo, o jovem passou no teste e foi conquistado pelo convite de que seria levado ao Estádio Beira-Rio, em Porto Alegre (RS), para dar sequência nas avaliações e possivelmente entrar para o time.

 

Ao retornar para a moradia dos pais, para avisar de que seguiria para um sonho em outra cidade, foi trancado em casa por João e Maria, que estavam alcoolizados e iniciaram uma “choradeira”, evitando que o filho partisse.

 

Sendo analfabeto na adolescência, Jorge precisou desistir do sonho que nem havia começado direito. Mesmo sendo barrado de seguir uma carreira profissional em um time de futebol muito conhecido, o gaúcho passou a jogar em times de comunidade, onde conseguiu experiência e fez muitos amigos.

 

“Minha família nunca me botou na escola. Aprendi meu nome com um amigo meu.”

 

Durante os jogos de futebol que ele participava, Jorge, aos 20 anos de idade, foi instigado a aprender a escrever o próprio nome. Junto de Vanderlei (nome fictício), que morava na frente do campo de futebol em que Jorge frequentava, sentava-se à mesa para aprender o pouco que conseguia.

 

Vanderlei comprou um caderno para ele e o ensinou a ler e escrever o próprio nome. Vanderlei ficou marcado na vida dele por conta disso, e hoje é lembrado por Jorge como um grande companheiro que deixou um legado em sua vida. Vanderlei foi vítima de homicídio algum tempo depois, mas jamais foi esquecido pelo amigo que jogava em frente à sua casa.

 

A bebida o acompanhou durante todos os anos. Era um vício sem fim. O copo estava sempre cheio em sua frente, pronto para ser inclinado e o satisfazer como sempre fazia.

 

Jorge de Lima se casou um tempo depois com Cléo (nome fictício), e se tornou pai da Vivian (nome fictício), filha única e que hoje tem 18 anos.

 

O casamento acabou não dando certo. Prosperou até certo tempo, mas depois, por causa das inúmeras ressacas dele, a mulher foi se cansando e resolveu o abandonar.

 

“Hoje eu vou lá, visito ela, e somos amigos. Ela me recebe bem, com respeito.”

 

Foram 15 anos de casamento, Cléo já estava saturada com a embriaguez do marido. Depois de sair da casa do esposo, com quem já não dividia mais a mesma cama, foi morar na cidade com as irmãs, para começar uma vida nova sem ele. Vivian ficou com a mãe, ao lado dela, já que estava muito irritada com Jorge por tudo o que tinha acontecido.

 

 “Minha vida de casado era boa. Minha mulher sempre trabalhou na vida, o errado fui eu por causa da bebida.”

 

Jorge de Lima sempre foi esforçado. Passou a vida toda trabalhando em serviços diferentes para conseguir sustentar a família. Empregado em três locais diferentes, Jorge se orgulha em dizer que hoje trabalha como jardineiro para um médico da cidade dele.

 

Doutor Roger (nome fictício) sempre acreditou no potencial dele, mesmo sabendo do vício pelo álcool. Ele tentou pagar os estudos para Vivian, mas a menina recusou a ajuda. Por outro lado, ajudou Jorge a se internar em uma boa clínica.

 

A história da família de Jorge teve muita tristeza em todos esses anos, isso porque, três dos seus irmãos acabaram morrendo por conta do abuso de bebida alcoólica. Sem falar nos pais, que também tiveram um fim doloroso. Pai e mãe também sofreram com cirrose.

 

Outro caso triste que resume a história da família, foi a morte de outro irmão dele, que foi vítima de homicídio. Jorge não quis falar muito sobre isso, então, vamos deixar apenas na imaginação.

 

Dos demais irmãos de Jorge, há um homem e três mulheres vivos. Todos bebem, mas com consciência.

 

Jorge não conseguia largar a bebida. Era como se o copo cheio viesse até ele, sem que fizesse muito esforço. Era um ímã, um dispositivo que ligava um ao outro. Tentado pela melhora e pela saúde, já que acompanhou a perda dos irmãos pela bebida, Jorge de Lima caiu em si de que precisava de ajuda.

 

Ele buscou apoio na cidade onde reside e foi trazido à Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada.

 

“Cheguei na clínica barbudo e sujo. Tomei meu banho por que eu estava meio tonto por conta da bebida.”

 

Outro motivo que também fez com que Jorge pedisse por ajuda, foi um AVC que sofreu há pouco mais de três meses.

 

“Foi por conta da cachaça.”

 

Um dos dedos da mão esquerda de Jorge acabou ficando deformado por conta disso.

 

“Em 40 anos, nunca tinha ficado um dia sem fumar e sem beber.”

 

Jorge não estava conseguindo dormir direito na clínica. O lugar era diferente e ele se sentia deslocado, mas por outro lado, se alimentava como nunca. Durante sua estadia na clínica, que durou 30 dias, engordou 11 kg.

 

Os dias de internação passaram voando para ele. O que mais gostava de fazer para passar o tempo era jogar bingo com os amigos que fez dentro da unidade. Mesmo não deixando sua marca com tinta na parede do lado de fora da clínica, por não saber pintar, Jorge ganhou prêmios no bingo e saiu de lá uma nova pessoa.

 

>> A história que você acabou de ler faz parte de um projeto que venho desenvolvendo na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada há cerca de um mês, e pertence a um dos pacientes da unidade.

Kiane Berté

Kiane Berté tem 26 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


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