Meu amigo me abandonou


Por Kiane Berté

02/06/2021 09h59 - Atualizado em 02/06/2021 10h10



Quarto capítulo da série 'histórias que eu ouço na clínica':

 

ATENÇÃO: a história a seguir possui gatilhos.



Eliza Soares (nome fictício) é uma jovem loira, de 29 anos, que desafia os limites para se sentir bem. Muito apegada a Deus, ela sente falta da igreja e tenta se conectar com Ele para poder vencer a nova batalha que começou recentemente.

 

Ela já passou por poucas e boas nos últimos anos. Está na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada pela segunda vez, e agora, mais do que nunca, necessita de ajuda para se manter em pé.

 

Usuária de múltiplas drogas, Eliza foi diagnosticada com depressão, bipolaridade e ansiedade, e por estes motivos, foi levada para uma clínica na cidade de Palmitos, no início de 2019, permanecendo por apenas quatro dias no local. O motivo ocorreu pelo simples fato de estar socializando com uma pessoa do sexo oposto, já que é proibido dentro de qualquer outra clínica.

 

Segundo a jovem, a chamada “alta administrativa” ocorreu porque ela e um amigo estavam falando de peso. Ele disse à Eliza que pesava mais do que ela, e para comprovar, ela o tocou na cintura e o levantou. Foi nesse momento que uma das enfermeiras do local a flagrou e separou os dois. Ela afirma não ter tido nenhum contato afetivo com ele.

 

Mesmo sendo levada para outra cidade, Eliza se sentiu aliviada, pois não gostava de ficar naquele lugar. Depois dali, ela foi encaminhada para a Clínica de Ponte Serrada, onde permaneceu por 20 dias.

 

Eliza se adaptou fácil com os novos colegas, e quando recebeu alta, deixou o local curada e sem mais nenhum vício.

 

Pelas circunstâncias que encontrou no caminho, a jovem acabou caindo nas drogas mais uma vez. Uma recaída que trouxe mais problemas.

 

“Fiquei 20 dias perdidamente perdida.”

 

Eliza experimentou o sabor das drogas pela primeira vez aos 14 anos de idade. Emancipada pela mãe, ela se casou com um homem mais velho e que trabalhava como caminhoneiro. O casal passou a viajar junto pelas cidades e estados brasileiros, e a jovem passou a conhecer mais a fundo os vícios que o companheiro tinha e que ela desconhecia até aquele momento. Em uma das viagens do casal à São Paulo, dentro do caminhão, ele ingeriu cocaína pela primeira vez na frente dela, a deixando irritada, porém, curiosa. Em um momento em que o marido desceu do veículo e a deixou sozinha, Eliza foi instigada pela curiosidade e fez o uso da droga pela primeira vez na vida.

 

Ela não se recorda de como foi, e da sensação que ficou, mas diz ter sido a única vez naquela época.

 

O relacionamento dos dois durou cinco anos e, depois disso, Eliza começou a trabalhar em uma empresa da cidade onde reside para poder ter sua independência. Lá, ela fez amigos novos e passou a conhecer a maconha, droga da qual fez uso excessivo durante anos. Um tempo depois, Eliza ingressou em um novo relacionamento, e permaneceu nele por quase dois anos. Nesse pequeno período do novo casamento, ela ficou sã e ‘limpa’.

 

Sem se sentir influenciável, na nova faze da solteirice, a jovem passou a sair mais com os amigos, o que acabou sendo mais uma porta aberta para as demais drogas que chegaram em seguida. Eliza participava de diversas festas, haves, shows, e tudo o que a desse um sentimento de liberdade.

 

“Euforia, acho que essa é a palavra certa.”

 

Eliza perdeu o pai muito jovem, e uma coisa que a machucou demais foi o fato de sua mãe ter encontrado outro namorado após a morte dele.

 

Foi na virada de ano de 2019 para 2020, que Esmeralda (nome fictício) conheceu Jorge (nome fictício), e passaram a ter um relacionamento. Eliza acredita que a amizade entre ela e o padrasto não deu certo por ciúmes. Ela é filha única de Esmeralda, e Jorge também possui uma filha. Essa filha, da mesma idade de Eliza, mora em um apartamento na mesma cidade e sempre foi presenteada e bajulada pelo pai com carro, moradia, e outras coisas mais. Já Eliza, não recebia ajuda nem mesmo com a mensalidade da academia, que era algo que fazia bem para ela e não tinha um custo alto. Atestada pelo Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), Eliza não estava trabalhando, o que deixava Esmeralda e Jorge, incomodados.

 

Porém, as regalias que foram dadas à irmã por consideração, não foram justas, já que Eliza foi praticamente abandonada e deixada de lado pela mãe.

 

“Eu não sabia se era birra minha ou se era ciúmes. E acabava brigando com a minha mãe por causa dele.”

 

Além de ter se envolvido com maconha, cocaína, ter feito uso também de crack, LSD, e demais drogas, Eliza foi fumante por um bom tempo, e o vício pelo cigarro desapareceu depois que ela entrou na Clínica para se curar.

 

Antes de o pai morrer, Eliza foi presenteada por ele com uma casa aos fundos da de sua mãe e quando ela recebeu alta médica, precisou voltar para casa, mas não foi recebida como imaginava.

 

Sua mãe a deixou sozinha naquele lugar onde Eliza costumava fazer uso das drogas, e que a lembrava de todos os vícios. Além disso, foi naquele mesmo lugar onde ela tentou cometer três suicídios.

 

Jorge é fumante, e costumava fazer o uso do cigarro por toda a casa de Esmeralda. Eliza descreve que a casa é de madeira e não é grande, então, o cheiro forte da fumaça do cigarro impregnava facilmente nos cômodos, chegando até ela, que havia largado o vício do cigarro recentemente.

 

“Acho que ele deveria me respeitar.”

 

Antes de Eliza retornar da clínica para a casa, a prima da jovem, que é estudante de Psicologia, informou à Esmeralda que a filha dela precisava ter um cantinho para dormir em sua casa, e quando a mãe de Eliza percebeu que não poderia deixá-la sozinha na casa ao lado, a trouxe para morar com ela, em um quarto aos fundos para dormir sobre um colchão, no chão.

 

Eliza não encontrou problema e estava grata pelo gesto da mãe, mas foi colocada em um quarto onde cordinhas de varal estavam espalhadas pelas paredes. Aquilo a lembrava, a todo momento, das tentativas de suicídio mal sucedidas.

 

A jovem foi estudante de Farmácia por um período curto, e durante suas aulas, aprendeu a fazer uma combinação de remédios faixa-preta, fortíssimos, para realizar a primeira tentativa de tirar a própria vida. Eliza precisou passar por uma lavagem estomacal de urgência depois disso e, por sorte, sobreviveu.

 

Depois de um tempo em casa, as coisas começaram a melhorar na relação dela com a mãe. Eliza passou a frequentar uma igreja evangélica, junto de Esmeralda, chegando até a se batizar. Não demorou muito para que Jorge começasse a entrar na mente da esposa, e a afastando da igreja e de Deus, dizendo que os pastores roubavam o dinheiro das pessoas. 

 

“Ela foi abandonando a igreja e me deixando de lado.”

 

Eliza estava tão apegada à igreja e a Deus, que em suas redes sociais o que mais se via eram postagens sobre círculo de oração. Era rotina de sua semana estar dentro da igreja, dobrando os joelhos, e pedindo ajuda e proteção para Deus, mas sem a companhia da mãe. Mesmo assim, Eliza se sentia acolhida naquela multidão de pessoas que queriam a mesma coisa que ela. 

 

“O que eu mais sonho quando sair daqui é ir para a igreja.”

 

Não demorou muito para que Eliza e a mãe começassem a brigar. O motivo era sempre o mesmo: Jorge. Como a mãe dela preferia ficar sempre do lado do esposo, resolveu pedir medida protetiva contra a filha, alegando sentir medo de que Eliza tentasse alguma coisa contra o casal.

 

Nesse instante, Eliza Soares foi expulsa de casa.

 

Ficando alguns dias na casa de uma amiga, a menina precisou encontrar outro local para passar a noite. Quem a abrigou em seguida foi sua comadre, mãe do único afilhado de Eliza, mas a estadia também durou pouco tempo. Após isso, a jovem passou a ficar na casa de uma tia, onde não foi tão bem recebida quanto imaginava.

 

A pandemia chegou. Eliza não esperava que a vida dela voltasse a mudar novamente. Mas para pior. Ela não imaginava que, ao invés de subir degraus, desceria diversos outros, e precisasse começar do zero. O fechamento das igrejas em 2020 foi uma porta aberta para que Eliza retornasse para o mundo das drogas.

 

Ela tinha um amigo chamado Vagner (nome fictício), e pouco antes do fechamento das igrejas, Eliza o reencontrou. Vagner era usuário de cocaína, e mesmo sabendo da condição da amiga, que havia passado por uma desintoxicação recente, fazia o uso da droga na frente dela, sem se importar muito com o que poderia fazer com o psicológico de Eliza.

 

Eliza disse não se importar com a situação, pois estava bem e que as drogas já não a faziam falta. Ela se manteve firme até que a igreja que ela frequentava fechou as portas. Vagner, então, foi até a casa da tia de Eliza e levou com ele o pó branco que já havia sido extinto da vida da amiga. Ao ver aquela cena, Eliza não resistiu e pediu para que o amigo fizesse uma “carreira” para ela. Sem questionar, Vagner atendeu ao pedido da amiga e ambos fizeram o uso da cocaína juntos.

 

Ambos se aproximaram ainda mais depois desse encontro “amigável”, e Eliza passou a frequentar a casa de Vagner que morava com a mãe. Depois, o amigo de Eliza e a mãe dele estavam com suspeita de contaminação pela Covid-19, e a tia da jovem a mandou ficar isolada na casa do amigo para evitar que a contaminasse também. Nesse período de isolamento, o amigo e a mãe dele se mudariam para a cidade vizinha, e Eliza arrumou as malas para seguir junto.

 

Já viciada novamente pelas drogas, Eliza buscava por dinheiro para conseguir comprar cocaína e se satisfazer. Foram 20 dias difíceis em que a jovem cheirava em médica três gramas de cocaína por dia.

 

Ainda sendo medicava com Quetiapina, Topiramato, Alprazolam, e outros, Eliza tomava os comprimidos após fazer o uso da droga. Como o efeito era forte, acaba perdendo a consciência.

 

“Por isso me tornei tão imune aos remédios.”

 

Em uma noite, quando Eliza havia feito uso de cocaína e dos medicamentos prescritos pelo médico, acabou desmaiando sobre a cama da mãe de Vagner. Ao ver a situação da jovem, a mulher arrumou as roupas de Eliza em uma sacola, e a mandou para o hospital da cidade em que ela residia antes, a deixando completamente sozinha na unidade.

 

Eliza Soares acordou no dia seguinte em um quarto estranho de hospital, e tomando medicamento na veia. Sem saber como foi parar naquele lugar, foi amparada por uma das enfermeiras da unidade, que explicou a situação, a deixando mais tranquila.

 

Eliza ficou magoada com a atitude da mãe do amigo, por ter sido praticamente jogada do Pronto-Socorro do hospital, sem quaisquer ajuda ou amparo. Vagner não procurou a amiga para saber como ela estava e se precisava de alguma coisa, apenas fingiu que nada tinha acontecido e seguiu a vida sem ela. Eliza diz não querer mais contato com ele, pois a mágoa continua intacta em seu coração.

 

Depois desse episódio no hospital, Eliza voltou para a casa da mãe, mesmo tendo uma medida protetiva contra si. Esmeralda sabia do vício da filha pelas drogas, e mesmo dizendo não o tempo todo, Eliza sempre pedia dinheiro para poder comprar a cocaína que lhe causava abstinência.

 

Ainda naquela tarde, Eliza estava com fissura pelas drogas, e foi surpreendida por uma viatura policial, com agentes armados, acompanhados de uma assistente social, em frente à casa da mãe. Eles estavam ali para levá-la ao CAPS.

 

Depois disso, Eliza foi transferida novamente para a Clínica de Reabilitação em Ponte Serrada, pela segunda vez, e como já conhecia o lugar e os profissionais, sentiu menos dificuldade para se readaptar. Também conheceu Milena, a vizinha de quarto que se tornou uma grande amiga e que hoje deixa seus dias nublados mais iluminados e divertidos.

Kiane Berté

Kiane Berté tem 26 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


COMENTÁRIOS

Os comentários neste espaço são de inteira responsabilidade dos leitores e não representam a linha editorial do Oeste Mais. Opiniões impróprias ou ilegais poderão ser excluídas sem aviso prévio.