Minha mãe também tem culpa no cartório


Por Kiane Berté

26/05/2021 09h01 - Atualizado em 26/05/2021 11h01



ATENÇÃO: a história a seguir possui gatilhos.

Banheiros masculinos da clínica de reabilitação em Ponte Serrada (Foto: Kiane Berté/Oeste Mais)

 

“Deus, devolve ela, por favor.”

 

O pai de Fernanda Alba (nome fictício) implorou aos céus que salvasse a menina dele da morte.

 

Era quase certo que Fernanda morreria se não houvesse atendimento rápido, e certamente o pai Acácio (nome fictício) choraria sem parar pela perda.

 

Fernanda foi criada em uma casa humilde, no interior do Rio Grande do Sul, junto com os outros quatro irmãos, sendo três outras mulheres – apenas uma mais velha que ela – e um homem, caçula.

 

A menina sempre sofreu muito quando era mais nova, e com apenas 11 anos de idade, teve uma morte de espírito bastante dolorosa: um estupro por parte de tio.

 

Tio Valdo (nome fictício) era pastor de uma igreja no município vizinho. Dono de uma frota de caminhões, era casado e tinha filhos com a esposa. Um homem bem sucedido e que pregava a fé pelos quatro cantos da cidade.

 

Fernanda via o tio como uma pessoa boa, companheira, e que sempre presenteava a menina com doces, brinquedos e até bicicleta. Ele estava conquistando a sobrinha aos poucos. Ele era pastor, afinal. Uma pessoa de fé e de boa índole.

 

Jamais imaginaria que aquele mesmo homem marcaria a sua vida para sempre.

 

“Eu sentia nojo dele.”

 

Ainda quando criança, Fernanda fazia todas as tarefas em casa. Era responsável por limpar, lavar roupas, e outras coisas mais. Coisas estas que os irmãos mais novos não tinham compromisso algum. A mãe de Fernanda a via como a empregada que nunca teve.

 

Em um dia qualquer, quando a menina foi até um pequeno riacho que ficava a 2 km de distância da casa da família para lavar as roupas dos irmãos e dos pais, ela foi surpreendida pelo tio.

 

Fernanda questionou Valdo sobre os motivos de ele estar por perto, onde nunca antes esteve.

 

“Bem ‘carudo’, ele me disse ‘hoje em vim para te tornar mulher’.”

 

A menina foi segurada pelos braços e teve a boca tapada por uma das mãos grandes que o homem tinha. Sem fazer muito esforço, Fernanda foi ao chão e teve as roupas rasgadas. Mesmo tentando se livrar do tio asqueroso, ela não conseguia se mexer. Eram mais de 90 kg contra um corpo de pouco menos de 40 kg.

 

“Não gosto nem de lembrar disso.”

 

Sob ameaças de morte, Fernanda foi deixada jogada ao chão sem saber o que fazer. Desesperada, chorando, e com o que restava dos pedaços de pano no corpo, ela se levantou, pegou uma das mudas de roupas que estavam para lavar e voltou para casa, sem terminar o serviço que havia começado.

 

Fernanda estava machucada e sangrava pelas pernas, mas tentava disfarçar o máximo que conseguia, pois as vozes do homem maldoso ainda rondavam sua mente.

 

“'Se você contar para alguém, eu vou matar os seus pais na sua frente.'”

 

Era impossível ter coragem naquela hora. Uma criança não pensa em brechas para fugir, ela apenas se cala, apenas absorve o medo e tenta seguir o mais normal possível.

 

Os abusos do tio monstruoso ocorreram outras cinco vezes, conforme as lembranças que vem à mente de Fernanda. A menina tinha medo de ficar sozinha. Já não andava mais sem companhia, e literalmente vivia seguindo os passos da mãe. Onde a mãe Jandira (nome fictício) estava, Fernanda virava sua sombra, sem que a mãe questionasse o porque de toda aquela aproximação repentina.

 

Mas os estupros não eram a única coisa que Fernanda sofria. Jandira sempre foi difícil de agradar, e a cada dia que passava, a filha dela a entregava ainda mais desgostos.

 

Os desgostos que faziam Jandira desabrochar a raiva e a tensão eram os deslizes de Fernanda nas tarefas de casa. Fernanda fazia o pão, limpava a casa, e até acendia o cigarro para a mãe. Mesmo assim, era uma filha desobediente e que merecia ser castigada.

 

“Ela tentou me matar quando eu tinha três meses.”

 

Fernanda não descarta que a mãe possa ter tido uma depressão pós-parto, mas acredita que ela estava em sã consciência, querendo se livrar da filha que teve e que não conseguia aceitar.

 

O bebê foi salvo pela madrinha, que é tia por parte de mãe. Fernanda, então, passou a ser criada pela segunda mãe, na casa dela, longe da violência que nem sabia que a esperava depois de alguns anos.

 

Não demorou muito para que Fernanda voltasse para casa. Talvez a mãe quisesse mesmo uma empregada, então, a menina retornou e passou a fazer as vontades de Jandira.

 

“Ela nunca tava contente com nada do que eu fazia.”

 

No pedido de uma máquina de lavar roupas ao pai, porque as mãos doíam por conta do inverno forte que ali passava, Fernanda acabou despertando a fúria da mãe.

 

As cicatrizes no braço e na perna mostram marcas de agressões com fio de luz e também uma queimadura grande causada por ferrete, aquele pequeno ferro usado para marcar gado.

 

Jandira também vivia fazendo ameaças à filha. Não permitia que Fernanda falasse sobre as agressões com o pai. Fernanda relata que as ameaças da mãe também chegavam a ser de morte. Então, o que restava a ela era se calar mais uma vez.

 

“Cadê a minha princesa, meu anjinho?”

 

O pai chamava por ela quando chegava em casa do trabalho cansativo na roça. Ao contrário de Jandira, Acácio respeitava os filhos. Todos eles. Os irmãos eram tratados todos da mesma maneira, mas Fernanda era o xodó dele, e isso consolava a menina que já estava doente da cabeça por conta da pressão psicológica que vinha sofrendo às escondidas.

 

Não demorou muito para que ela se abrisse com Acácio. O pai ficou furioso com as revelações da 'Menina dos Olhos Dele' e acabou agredindo a esposa com um soco. Ambos se separaram por conta dos maus-tratos contra a menina, mas voltaram a se relacionar algum tempo depois porque Fernanda pediu.

 

“Quem sabe ela mude e seja diferente. Foi a mesma merda que era sempre!”

 

O tempo passou. As agressões e xingamentos por parte da mãe se acumulavam na lista de Fernanda, e a paciência estava se esgotando.

 

Com 15 anos de idade, já perturbada em um nível altíssimo, a jovem tentou partir. Fazendo uso de comprimidos que a mãe tinha em casa, juntamente com veneno para ratos, ela foi parar no hospital em estado grave.

 

“Eu senti que era um lixo na sociedade.”

 

Por sorte, os médicos conseguiram salvá-la, realizando procedimentos e lavagem estomacal, ela voltou para casa sã e salva.

 

Acácio foi informado pelo médico de que a filha apresentava um quadro grave de depressão, mas como nos anos 80 – época em que ocorreu os fatos – as ideias não eram evoluídas para esse tipo de doença, o pai achou que não havia necessidade.

 

A depressão ia se curar sozinha, foi o que o pai de Fernanda imaginava.

 

“’Nem isso ela faz direito!’”

 

Jandira disse para a filha quando a menina chegou em casa do hospital. Nem mesmo as torturas acabaram depois daquele episódio triste.

 

As coisas só vieram a piorar após um tempo. Fernanda acabou perdendo o pai muito cedo, e ficou ainda mais doente, dependente de ajuda psicológica.

 

“Até hoje eu não acredito!”

 

Acácio veio a falecer aos 55 anos, vítima de uma queda grave e que custou a vida dele. Sem o pai por perto, Fernanda ficou sem chão, sem ter onde pisar e se segurar para poder ficar em pé.

 

A solidão passou apenas quando ela completou a maioridade e saiu de casa. Fernanda Alba acabou casando e tendo dois filhos com o esposo Josué (nome fictício) que ela adora tanto.

 

Mas quando a mãe deu à luz à primeira filha – Joice (nome fictício), hoje com 15 anos – Fernanda voltou a sofrer com a depressão.

 

Ela expressa o amor dos filhos em forma de tatuagens pelo corpo. Um símbolo do infinito e um nome acompanhado com coração azul demonstram um afeto de mãe, que Fernanda não teve com a dela.

 

A chegada de Fernanda à Clínica de Reabilitação foi recente. Ela tentou tomar os comprimidos que tinha em casa, mas foi salva pela filha e pelo esposo, que chegou à tempo da companheira fazer uma besteira.

 

Depois desse novo episódio, a melhor escolha para a família foi internar Fernanda Alba, pois pouco tempo antes, ela também tentou ingerir soda cáustica, o que a mataria com certeza.

 

As dores da jovem mãe vêm de família. Dos irmãos que só a procuram quando precisam de alguma coisa, da mãe que insiste em ignorar os filhos dela e dar atenção apenas para os netos que são filhos dos demais filhos dela, ou daquele tio violento que abusou dela quando era criança e que acabou voltando à cidade após a morte do pai de Fernanda.

 

Valdo retornou há cinco meses à vida de Fernanda, e trouxe com ele todas as lembranças ruins que o tio havia levado com ele, além de desencadear toda aquela insegurança que a sobrinha já possuía.

 

Os trágicos episódios que Fernanda viveu no passado com Valdo, ficaram para trás e sempre em silêncio. Ela não contou a ninguém sobre o ocorrido, nem mesmo ao esposo.

 

O segredo do estupro está guardado a seis chaves. Uma delas foi aberta durante uma conversa informal e bastante emotiva em uma noite fria de quinta-feira. Agora, conhece a história de Fernanda Alba apenas quem ler esse relato emocionante.

 

>> A história que você acabou de ler faz parte de um projeto que venho desenvolvendo na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada há cerca de um mês, e pertence a um dos pacientes da unidade.

Kiane Berté

Kiane Berté tem 26 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


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