A solidão me adotou


Por Kiane Berté

19/05/2021 14h46 - Atualizado em 26/05/2021 11h16



Um dos quartos da ala masculina da clínica de reabilitação em Ponte Serrada (Foto: Kiane Berté/Oeste Mais)

Desde muito pequeno, Marcelo (nome fictício) sempre foi um garoto quieto, tímido, e solitário. Quando menor, residia com a família em uma casa bem pequena, na cidade de Porto Alegre (RS), onde viveu até completar oito anos de idade.

 

Filho do meio, em uma família de três irmãos, ele cresceu rodeado de inseguranças e medos, apesar de sempre ter companhia para brincar ou desenvolver as atividades que gostava de fazer.

 

Os dois irmãos mais velhos de Marcelo – Cristiana e Cristiano (nomes fictícios) – são filhos de outro pai, fruto do primeiro casamento da mãe dele, a Valéria (nome fictício). Apesar de não terem uma ligação tão grande, Marcelo diz ser muito apegado a eles.

 

Marcelo veio ao mundo depois que a mãe conheceu o segundo marido e com quem ficou por pouco tempo. Com ele, Valéria também teve outro filho, o Lucas (nome fictício), que se tornou o caçula da família.

 

Mesmo não sendo filhos dele, o primeiro marido de Valéria passou a cuidar de Marcelo e Lucas depois que ela se separou. Os dois não tinham mais nenhuma ligação como casal, exceto pelos dois filhos que tiveram juntos no passado. Apesar disso, Marcelo se lembra dele como um pai de verdade, já que o biológico praticamente abandonou ele e seu irmão mais novo.

 

“Eu considero ele como um pai mesmo, porque foi ele quem me criou.”

 

O tempo passou e Valéria, já solteira, resolveu se mudar de cidade, levando os filhos com ela para outro estado. A família acabou em uma cidadezinha no interior de Santa Catarina, e nessa cidade, a mãe de Marcelo cuidaria da avó dele, que estava debilitada.

 

Com a mudança repentina, Marcelo acabou ficando deprimido, pois havia se separado dos poucos amigos que tinha na cidade antiga. Começar do zero para ele, ainda criança, foi um desafio muito grande.

 

Muito tímido e sempre olhando para baixo durante a entrevista, Marcelo contou que sempre sofreu por causa de um problema que tem na voz e que causa dificuldade em articular as palavras. O jovem, hoje com 19 anos, relembra que chegou a sofrer bullying na escola por causa disso.

 

“Eu lido bem com isso hoje em dia, mas quando era mais novo, sempre me zoavam na escola.”

 

O problema na voz acabava afastando os colegas, o deixando sempre sozinho e isolado, criando a partir dali, um problema sério que ele enfrenta hoje.

 

Marcelo não fazia amigos, e isso o deixava sempre desanimado e sem vontade para ir à escola. Ele, por muitas vezes, inventada desculpas para não precisar frequentar as aulas. O que ele mais queria, era poder ficar em casa, longe de tudo, e se sentir livre.

 

Marcelo relembra que sofria “zoação” até mesmo da família. Como ele não via aquilo como uma brincadeira, e sim, algo ruim, acabava ficando decepcionado. As brincadeiras acabaram desencadeando traumas em sua vida.

 

“Mesmo que eles não estivessem falando sério, me magoava muito e sempre fazia eu me isolar mais.”

 

Na escola, quando criança, também acabava recebendo sermões das professoras, que não faziam ideia de que a dificuldade dele para pronunciar o sobrenome que contém a letra “R”, era devido a um problema na fala.

 

Ainda em Porto Alegre, Marcelo entrou na escola um ano mais tarde do que o necessário, e acabou repetindo o ano letivo duas vezes por causa de faltas. A maior tortura para o menino na época era ter que sair de casa e ser motivo de piada na escola.

 

“Eu achava que iria ficar sozinho, não fazer nenhuma amizade. Eu tinha dificuldade de aprender.”

 

Marcelo nunca tinha lido um livro por completo na vida. Depois que foi internado de forma involuntária da Clínica de Reabilitação, de Ponte Serrada, teve a oportunidade de ler, pela primeira vez, um livro que chamou a atenção dele e despertou a curiosidade: o meu pé de laranja lima.

 

Ciente de que sempre foi apaixonado por literatura, ele nunca teve oportunidade de buscar por um livro que gostasse de verdade. O que o afastou do mundo mágico dos livros foi o fato de não ter condições para comprá-los, além de ser obrigado a ler livros “chatos” na concepção dele, na escola.

 

O tempo foi passando, e os traumas e inseguranças de Marcelo cresceram junto com ele. As brigas em casa eram constantes, e o jovem passou a ficar ainda mais isolado em seu quarto, evitando manter contato com quem fosse.

 

Na escola as coisas até mudaram de figura, e ele conseguiu fazer alguns amigos. “Estava se dando bem”, mas ainda assim, preferia ficar sozinho.

 

Ele já estava se acostumando a sair com os amigos e com o irmão mais novo, mas aí a pandemia chegou em 2020 e atrapalhou a vida de Marcelo.

 

O que antes era “sair com colegas”, se tornou o “ficar em casa”, e tudo voltou à estaca zero. Sozinho, sem poder ir à escola, trancado no quarto tentando achar maneiras de passar o tempo, Marcelo começou a se sentir esgotado.

 

A rede social favorita dele, o Twitter, passou a servir para desabafos. Além de tudo, Marcelo conheceu amigos virtuais com quem podia conversar, contar coisas sobre sua vida e receber a atenção que não estava tendo em casa.

 

As aulas online, que passaram a acontecer há um ano quando as escolas fecharam, já não eram atrativas para ele. Marcelo havia repetido de ano por causa das inúmeras faltas, e também não via motivo algum para frequentar as aulas pelo computador.

 

“Eu tinha desistido da vida, eu desisti de tudo. Só ia para a escola de vez em quando.”

 

Devido às repetições na escola, Marcelo chegou à nona série com 17 anos. Aquilo também se tornou torturante para ele, já que se sentia envergonhado por estar tão acima de todos os demais colegas.

 

A segunda opção de Marcelo era frequentar o EJA (Educação para Jovens e Adultos), que é um programa do governo que visa oferecer o Ensino Fundamental e Médio em um tempo menor. Mas a pandemia atrasou tudo e ele acabou desistindo.

 

Era como se o universo conspirasse para que ele não saísse do chão. Já esgotado e tendo que presenciar certas coisas em casa, Marcelo - que já estava depressivo - acabou tendo um excesso de raiva e quebrou muitas coisas dentro da casa da mãe.

 

As recordações dele são da avó doente assistindo a um programa evangélico a todo volume na sala, e sendo advertida pela filha Valéria, de que o som estava a incomodando. Ambas começaram a brigar e gritar uma com a outra, desferindo ofensas em bom tom, e deixando Marcelo irritado.

 

Não demorou muito para que Valéria chamasse a polícia para conter o filho. Uma viatura foi até a residência da família e escoltou Marcelo até o hospital da cidade. Na unidade, ele foi medicado, passou por exames e no outro dia, sem se lembrar de muita coisa, acordou na Clínica.

 

“Eu estou me sentindo bem nesses últimos dias. Durmo bem, me alimento bem, e comecei a fazer exercícios.”

         

Os três primeiros dias que Marcelo passou na clínica não trazem muitas lembranças para ele, já que acabou sendo medicado e ficava sonolento o tempo todo. Apesar de ser um lugar diferente, Marcelo diz estar contente por estar ali, pois agora tem com quem conversar, desabafar, e passa por diversas atividades junto com os colegas de recuperação.

 

Ainda sem conseguir se abrir direito com as pessoas, Marcelo aprende dia após dia que precisa se comunicar e interagir com os demais. O que antes era algo solitário para ele, agora passou a ficar divertido.

 

Marcelo conheceu o Pablo (nome fictício), um jovem da mesma idade dele e que está internado na mesma clínica. Pablo era colega de quarto de Marcelo, mas depois de um tempo, ambos foram separados e colocados lado a lado, no mesmo corredor. Mesmo assim, eles se divertem juntos e dividem suas histórias um com o outro.

 

Não faz muito tempo que Marcelo pôde fazer contato com a mãe pela primeira vez desde que entrou na clínica. Um pouco emocionado, se lembra do áudio que enviou a ela pelo WhatsApp, pedindo para que trouxesse algumas coisas para ele, e falando que a amava pela primeira vez em anos.

 

“Foi muito importante para mim e para ela.”

 

Marcelo sairá em poucos dias, e se sente confiante com o que o espera do lado de fora. O desejo maior é poder se sentar na companhia da mãe Valéria para poder tomar chimarrão. Arrumar um trabalho, ser mais sociável, e estudar Psicologia para ajudar as pessoas, também são metas que ele tentará alcançar do lado de fora da clínica.

 

>> A história que você acabou de ler faz parte de um projeto que venho desenvolvendo na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada há cerca de um mês, e pertence a um dos pacientes da unidade.

Kiane Berté

Kiane Berté tem 26 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


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