Era para ser um conto de fadas


Por Kiane Berté

13/05/2021 10h01 - Atualizado em 26/05/2021 11h07



Primeiro capítulo da série 'histórias que eu ouço na clínica':

 

ATENÇÃO: a história a seguir possui gatilhos.

Corredor principal da clínica de reabilitação de Ponte Serrada (Foto: Kiane Berté/Oeste Mais)

Era para ser um conto de fadas

 

Naquele dia em que a Milena Costa (nome fictício) conheceu o esposo Robson (nome fictício), as coisas estavam prestes a mudar em sua vida. O cheiro de amor no ar, aquela vontade imensa de poder beijar e tocar o namorado era nítida no rosto dela. Ambos estavam aparentemente apaixonados.

 

Era para ser o início de uma vida juntos, porque Milena sempre sonhou com o príncipe encantado, o sapatinho de cristal e o anel de diamantes no dedo anelar da mão direita.

 

Milena era muito nova quando começou a namorar Robson. Aos seus 16 anos, passou a desfrutar de uma paixão gigantesca ao lado de um cara mais velho, que prometeu amá-la incondicionalmente.

 

Eles se conheceram no ano de 2012.  Ambos trabalhavam na mesmo local e se esbarraram pelos corredores na empresa, em um dia qualquer.

 

“Ele disse que foi amor à primeira vista.”

         

Milena passou a ficar encantada pelo colega. As palavras bonitas que ele usava para conquistá-la sempre davam certo. E isso acabou acarretando em um relacionamento completamente errado e conturbado.

         

Seis meses depois de terem se conhecido e embarcado em um namoro à velocidade da luz, Milena e Robson se juntaram como um casal. A mãe de Milena era contra o relacionamento dos dois. Algo no novo genro não a agradava, pois conhecia a família dele e sabia que acabaria trazendo problemas para a filha mais nova.

 

A jovem relembra do início do namoro como algo dos sonhos, algo perfeito, e que ela não imaginava que acabaria do jeito que acabou.

 

“Ele era o amor da minha vida.”

 

Robson era um doce de pessoa. Tratava Milena como uma princesa, o que a fazia ficar ainda mais encantada com o castelo que estava construindo ao lado do marido. Depois de um tempo, pouco antes engravidar do primeiro filho, Milena passou a sentir as mudanças de comportamento do amado que acabou ficando mais agressivo nas palavras e demonstrava estar incomodado com alguma coisa.

 

Não demoro muito para descobrir uma traição dele. Esse foi o motivo da primeira desavença do casal. Um dos cinco términos deles durante o relacionamento que durou oito anos.

 

No último rompimento do casal, Milena saiu de casa e passou a morar com a mãe, em outra cidade, para poder trabalhar e seguir a vida com outra pessoa que havia conhecido.

 

Pouco tempo depois, Robson voltou a procurar a ex-companheira. Ela relembra que as promessas dele eram sempre as mesmas: iria mudar por ela; a amava muito; precisava dela ao seu lado.

 

Milena pediu demissão do emprego e voltou para casa. Voltou para os braços do marido.

 

Não demorou muito para que ela engravidasse de Robson e desse à luz uma menina – hoje com quatro anos. A pequena Lari (nome fictício) veio ao mundo para fazer companhia para Luiz (nome fictício), seu irmão mais velho, de seis anos de idade, também fruto do casamento de Robson e Milena.

 

“Ali eu percebi que não existia mais amor. Existia convivência.”

 

Apesar de amar a filha com todas as forças, Milena não tinha planos de engravidar. Já não sentia mais atração pelo esposo, e descreve o quanto sofria quando era tocada por ele, beijada por ele, e outras coisas mais. O amor que antes era sentido de forma suave se transformou em repulsa, e logo mais, tortura. Física e psicológica.

 

O sexo passou a ser mecânico da parte dela. E violento da parte dele. Ela fechava os olhos, imaginava coisas que a fizessem sair daquela zona de tortura que estava sentindo, mas a dor não a deixava esquecer em nenhum momento. Ele, por outro lado, se satisfazia por completo, ignorando todo o trauma que estava prestes a desencadear na amada Milena.

 

O casal frequentava a igreja, mas Milena muitas vezes, ia sozinha.

 

“Para ter o refúgio de Deus.”

 

Sempre calada e guardando para si, chorava no caminho e tentava esconder em casa o que sentia realmente. As falsas promessas sempre voltavam a ser feitas por ele quando ela deixava a casa. Ele não a queria longe, mas sim, bem perto, onde ele pudesse a controlar, a manipular, e obrigá-la a coisas absurdas que a machucavam muito: o sexo forçado, também conhecido como estupro ou abuso sexual.

 

“O que mais me dói, eram os abusos que ele fazia. Mesmo eu não tendo vontade, ele forçava.”

 

A frase acima foi dita por ela aos prantos. Qualquer pessoa que estivesse por perto, escutando o relato doloroso de uma mulher que já sofreu ou sofre abusos, se comoveria.

 

O dia 26 de fevereiro é marcado por um acontecimento doloroso na vida de Milena. Nessa noite, durante uma das relações sexuais mecânicas do casal, a jovem mãe foi violentada pelo marido, chegando a gritar, mostrando que estava sentindo desconforto e que a machucava. Mas ele não parou!

 

No dia seguinte à noite de tortura, Milena passou a sangrar fora do período menstrual, indicando que alguma coisa estava errada. O sangramento era tamanho, que nem mesmo absorventes noturnos conseguiam suprir. Aquilo mostrava as marcas de um abuso doloroso, e que hoje a faz chorar ao se lembrar.

 

“Se eu fizer queixa, ele vai preso. Então, eu prefiro aguentar, para as crianças não sofrerem.”

 

Milena se arrumava para o marido, mas ele dizia que ela estava ficando bonita para ir atrás de outros homens. As consultas semanais com a psicóloga era motivo de desconfiança de que ela teria um amante. Os motivos para as brigas do casal eram sempre frequentes e, muitas vezes, sem sentido algum.

 

Milena não segurou as lágrimas ao descrever as cenas que lhe vinham em mente, principalmente quando o filho mais velho precisou passar por uma cirurgia de emergência devido ao rompimento do apêndice. No hospital, enquanto passava os dias e noites ao lado de Luiz, passando fome, sem dormir direito e completamente cansada, recebia ligações do esposo, que a deixava completamente desanimada. Era sermões o tempo todo, durante os oito dias de internação, mas nenhuma visita ao filho, que poderia ter morrido por uma infecção generalizada.

 

“Você é ingrata!”

     

Essa é a frase que ela mais lembra que era dita por ele. Ao ver o pai repetir a fala à Milena, o pequeno Luiz reprisou as palavras ditas por Robson, na inocência, o que deixou a mãe extremamente triste.

 

O menino é muito religioso, assim como a mãe, e costuma dobrar os joelhos para orar e pedir pelo bem da irmã mais nova. Milena contou que o menino passou a ir à psicóloga por conta das várias separações do casal, e que orava diariamente pedindo para que ela voltasse para casa e para que Deus salvasse o casamento dos pais. Robson, por outro lado, culpava Milena por o filho precisar de ajuda.

 

Em uma noite, em uma briga por causa de mensagem de celular, Robson perdeu a cabeça e passou a tentar agredir a mulher. Lembranças dessa noite estão com a jovem até hoje, pois, enquanto tentava escapar dele, Milena acabou caindo sobre uma cadeira no quarto e sofreu um corte na região da virilha, resultando em uma cicatriz.

 

Milena perdeu a cabeça, e pegou o esposo pelo pescoço, o ameaçando e decidindo que acabaria com aquilo. No medo e na adrenalina do momento, Robson conseguiu acalmar a companheira até a manhã seguinte. Não demorou muito para as brigas iniciarem novamente, e Milena chora ao relatar que Robson alega que ela agrediu a filha durante os excessos de raiva da noite anterior, mesma ela tendo a sã consciência de que aquilo não era verdade.

 

A pressão psicológica era tamanha, que na saída de Robson de casa, Milena tomou uma grande decisão: acabaria com a própria vida. A primeira coisa que passou em sua cabeça foi usar uma faca de cozinha, mas pelo medo que sentia em ver sangue, decidiu que a melhor opção era tomar todos os remédios que conseguisse encontrar pela casa. De primeiro momento, Milena pegou uma cartela de Nimesulida – medicamento anti-inflamatório e analgésico – e tomou todos os comprimidos.

 

O esposo Robson chegou logo em seguida, por sorte, para levá-la ao hospital e evitar que algo pior acontecesse.

 

“Socorro!”

 

Ela gritou pedindo ajuda quando o desespero bateu. Com ajuda de um vizinho, Milena foi levada ao Pronto-Socorro, mas abandonada pelo marido nos corredores.

 

Até explicar para o médico plantonista o que havia acontecido, Milena respirou fundo e se abriu com ele, deixando claro que aquela era a melhor decisão que ela havia tomado em sua consciência.

 

“Eu só quero acabar com o meu sofrimento, com a minha dor que ninguém consegue tirar. Nem mesmo Deus!”

 

Milena passou por exames para saber se a quantidade de medicamentos ingeridos não prejudicaria sua saúde, e depois permaneceu em observação no hospital até o dia seguinte. O médico, em uma conversa sincera e aberta, queria saber os motivos que a levaram fazer aquela atrocidade com a própria vida. Depois de relatar que já havia tentado se suicidar antes, e que o pensamento de morte vagava sua mente o tempo todo, Milena foi surpreendida pelo profissional com o pedido de internação.

 

Rejeitada pela mãe, que ficou extremamente irritada e confusa com a tentativa de suicídio da filha, Milena decidiu que estar em uma clínica de reabilitação seria a melhor escolha no momento.

 

Milena deu entrada voluntariamente na Clínica de Reabilitação em Ponte Serrada no dia 1º de abril de 2020. ”Parecia uma mentira”, como ela mesma disse.

 

Foi depois de uma das tentativas de suicídio, que ela foi obrigada a tomar uma decisão na vida. Esgotada psicologicamente, e completamente sem chão, a jovem de 26 anos só queria acabar com o sofrimento que não ia embora de jeito nenhum. Pensava nos dois filhos que tem, mas não era o suficiente, porque a dor, a angustia, e a vontade de não sentir mais nada de ruim, não a deixou pensar direito. O trauma das coisas horríveis que vinha passando era algo amedrontador e que a deixava frágil e vulnerável demais.

 

No primeiro dia de Clínica, Milena ficou assustada com o que viu do lado de dentro. As pessoas ao seu redor – uma em particular – lhe causou medo por estar bastante dopada e fora de si, mas relata ter sido bem recebida pelas enfermeiras, médicos e outros profissionais que ali trabalham.

 

Milena realizou um pequeno tour pelo espaço, conhecendo melhor as alas masculina e feminina, e sendo apresentada para os demais pacientes que estavam por perto, buscando pela mesma coisa que ela: a cura.

 

A jovem mãe, uma mulher falante, de fazer amizades rapidamente, se viu um pouco retraída, mas não demorou muito para que fosse se enturmando com outras pessoas ao seu redor. Alguns dias depois de sua estadia, através da bíblia sagrada que fica na clínica para que os pacientes possam orar e ter algum contato com Deus, Milena se aproximou de Eliza (nome fictício), outra paciente que já estava naquele lugar há mais tempo que ela. Loira e religiosa, Eliza, vizinha de quarto, foi a salvação para os dias de tédio de Milena. Ambas passaram a conversar mais, desabafar, orar sempre juntas, fazer as atividades sempre perto uma da outra, e dar apoio e suporte quando as coisas não estavam boas.

 

“Ela é a pessoa que está sempre do meu lado.”

 

Milena diz não saber que rumo tomar sem a amiga por perto quando precisar deixar a clínica, pois até nos sonhos diz ter Eliza ao seu lado, a levantando quando uma recaída lhe atinge.

 

Apesar de estar com medo do que a espera do lado de fora, Milena já tomou uma decisão importante para quando deixar a Clínica: ficará com sua mãe e lutará pelos seus direitos e pelos seus filhos.

 

>> A história que você acabou de ler faz parte de um projeto que venho desenvolvendo na Clínica de Reabilitação de Ponte Serrada há cerca de um mês, e pertence a um dos pacientes da unidade.

Kiane Berté

Kiane Berté tem 26 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


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