As histórias que eu ouço na clínica


Por Kiane Berté

07/05/2021 10h06 - Atualizado em 07/05/2021 11h03



Olá, pessoas

 

Hoje eu gostaria de contar que, a partir da próxima semana, estarei postando no meu espaço aqui no site, 'as histórias que eu ouço na clínica'.

 

Para quem não sabe, há pouco mais de um mês eu iniciei um projeto na clínica de reabilitação, que está ambientada no Hospital Santa Luzia, de Ponte Serrada. E todas as quintas-feiras, me sento de frente para os pacientes – de forma individual ou em grupo – e ouço a história de vida de quem se sente confortável para falar.

 

Os primeiros dias foram bem complicados, porque eu ficava muito triste tendo que ouvi-los relatar coisas ruins que passaram na vida, e depois ter que reouvir o áudio gravado para transcrever. Era sofrimento em dobro.

 

No momento em que tu ouve os relatos, é meio que no automático. Você presta atenção nas palavras, nas histórias, mas você só cai em si sobre tudo aquilo quando precisar colocar o fone de ouvido e ouvir novamente, com mais atenção ainda.

 

Bom, só queria dizer que é bem triste a realidade deles. Cada pessoa lá dentro, seja jovem, adulto ou idoso, todos eles estão passando por momentos difíceis e tudo o que precisam é de um amigo e alguém para ouvi-los.

 

E esse tá sendo o meu trabalho. Cara, dou até uma de psicóloga lá. HAHA

 

Eu já fiz duas meninas - que eram muito amigas e brigaram por um motivo que eu não vou falar aqui - fazerem as pazes antes que uma delas deixasse a clínica.

 

Se eu contar pra vocês que eu ammmo estar lá, vocês vão acreditar? Eu rio muito com aquele povo – com as meninas principalmente – e descubro coisas novas todos os dias. É uma pena eu não ter muito tempo para isso, mas o tempo que passo lá dentro eu aproveito ao máximo.

 

Lá dentro encontramos história do tipo: envolvimento com drogas, a luta para deixar o álcool, depressão das grandes, mulher que foi abusada pelo próprio marido... Cheguei a me arrepiar!

 

Ontem, depois de muitas tentativas, consegui convencer um menino de 21 anos a falar sobre a vida dele. Ele é bem quieto e fechado para tudo, provavelmente por causa dos traumas dele do passado. Nos sentamos à mesa do lanche, na companhia de outros dois amigos dele, ambos da mesma idade, novos, e que eu já havia conversado antes.

 

Mas ele deixará a clínica nesta sexta-feira. O menino me relatou coisas bem tristes, coisas dolorosas, que faz a gente se perguntar: que droga eu tô fazendo da minha vida reclamando de tudo?

 

Ele presenciou morte, sangue, tortura, além de sofrer calado por causa da depressão profunda em que se encontrava. Ver um irmão levar um tiro pelas costas é complicado, né? Ah, vocês não devem saber como é. Pensem nisso!

 

Vale a pena ficar reclamando de tudo? Eu mesma reclamo. Penso muita bobagem, e tudo para quê? Estamos pisando em ouro, enquanto outras não tem onde tocar.

 

Vamos começar a agradecer mais e reclamar de menos, porque existem pessoas em situações horríveis e que a gente nem imagina.

 

Tenham um ótimo final de semana, e fiquem de olho nas histórias que eu ouço na clínica, na próxima semana.

 

Um beijo e tchau.

Kiane Berté

Kiane Berté tem 26 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


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