Chimia, geleia ou doce de fruta?

29/10/2020 15h23 - Atualizado em 29/10/2020 16h16



Por Atelli da Rocha

Mestrando em Estudos Linguísticos pela UFFS

 

O certo é “biscoito” ou “bolacha”? Devemos falar “chimia”, “geleia” ou “doce (de fruta)”? Quem nunca se deparou com essas perguntas que atire a primeira pedra. Mas você sabia que, para a Sociolinguística, essas duas perguntas não fazem o menor sentido? A Sociolinguística é a ciência que estuda as relações entre língua e sociedade e, para os pesquisadores, a pergunta certa é: quem fala dessa forma e por quê?

 

O primeiro trabalho científico que comprovou a existência da variação linguística pode ser atribuído a William Labov, um americano que, na década de 1960, investigou as causas da variação na pronúncia do R na cidade de Nova York. Labov (2008 [1972]) chegou à conclusão de que fatores sociais, como a classe social e origem do falante interferiam na pronúncia de algumas palavras. A partir daí foi só uma questão de tempo para os estudos sociolinguísticos serem ampliados por todo o globo.

 

Hoje, os linguistas, cientistas que estudam a língua de forma científica, sabem que todas as línguas do mundo variam, isto é, apresentam variação no tempo e no espaço. Essa variação recobre não apenas o vocabulário, mas também o sotaque, a pronúncia, a organização das palavras nas frases, o sentido, entre outros aspectos (CARDOSO, 2010). Muita gente pensa que essas diferenças são causadas apenas pela região. No entanto, dentro de uma mesma cidade há muita variação entre pessoas de idades diferentes, de níveis de escolaridade diferentes e até de sexo diferente. Quem nunca ouviu que as mulheres falam mais e melhor que os homens? A ciência corrobora com essa versão.

 

Mas como dar conta de registrar a variação e ao mesmo tempo captar os fatores que geram essas diferenças? É aí que entram os estudos da Dialetologia (ou Cartografia) Pluridimensional. Eu sei, o nome pode parecer complicado, mas o que essa disciplina faz é ampliar as variáveis consideradas pela Sociolinguística para explicar um pouco melhor como ocorre a variação. Enquanto a Sociolinguística considera a variação levando em conta apenas uma ou duas variáveis (como região e classe social), a Dialetologia considera pelo menos quatro variáveis ao mesmo tempo: espaço, idade, escolaridade e gênero.

 

Assim, enquanto para o Sociolinguística interessa saber em que lugares se fala chimia, doce de fruta, geleia, musse ou doce de fruta, para a Dialetologia interessa muito mais saber quem são os falantes que empregam uma ou outra variante. Variante é cada uma das formas diferentes de dizer a mesma coisa (BAGNO, 2007). Assim, chimia, geleia, musse ou marmelada são variantes do mesmo tipo de alimento; e bodoque, estilingue e funda são variantes do mesmo objeto.

 

Vejamos um exemplo prático: a pronúncia do R na cidade de Chapecó. Aqui podemos identificar pelo menos três pronúncias distintas. O tepe (popularmente conhecido como r fraco), como na pronúncia de “prato”. O vibrante (também conhecido como r forte) aquele R que pode aparecer no início de palavra ou na pronúncia de “carro”. E o velar (que corresponde à pronúncia da letra h do inglês) e pode ser encontrado em palavras como “rato” e “carroça”. Tá, até aí tudo bem. Mas onde entra a Dialetologia Pluridimensional nisso?

 

A Dialetologia irá investigar quem são os falantes que usam cada uma dessas variantes e irá construir mapas mostrando esses nuances. Para construir um mapa que mostre como o R é pronunciado em Chapecó, o cientista vai selecionar pelo menos oito informantes que residem a pelo menos cinco anos na cidade. Pode parecer pouco, mas é assim mesmo. O objetivo da Dialetologia não é criar um mapa perfeito da variação, algo que só seria possível consultando 100% da população de um determinado lugar. O que a Dialetologia busca é registrar “uma espécie de foto” captando aquele fenômeno, naquele lugar, naquele espaço de tempo, com aqueles informantes.  É como se a Dialetologia tirasse uma foto da região estudada e conseguisse reproduzir os nuances da variação, ou seja, em que lugar, classe social, idade ou sexo essa variação se concentra. Assim, é possível inferir hipóteses se o fenômeno tem relação com a idade, com a escolaridade ou com o sexo da pessoa.

 

Muitos estudos baseados na Dialetologia Pluridimensional já foram desenvolvidos aqui em Chapecó, pelo campus da UFFS. Alguns desses estudos investigam o uso da variante “uma vez” no português falado em Itapiranga e São João do Oeste (RUSCHEINSKY, 2014) e a realização do /r/ (CURIOLETTI, 2014) e valem muito a pena serem conferidos.

 

Voltando à dúvida de abertura deste texto, já existem estudos que mostram em que lugares da região Sul se fala “chimia”, “doce (de fruta)”, “geleia”, “musse” ou “marmelada”. Um desses estudos consta no Alers (Atlas Linguístico Etnográfico da Região Sul do Brasil) e revela que, na região Sul, com exceção do Paraná, a forma linguística mais utilizada pelos falantes é “chimia”. Em Santa Catarina, a forma “chimia” se estende por todo o Oeste e meio oeste, sendo que, no litoral, os falantes optam pelas formas “doce (de fruta)” e “musse”. Observe o mapa abaixo:

Fonte: Atlas linguístico-etnográfico da Região Sul do Brasil (ALERS)

A explicação para esse fenômeno é relativamente simples. As regiões onde a forma “chimia” predomina foram colonizadas por imigrantes alemães, que têm em sua língua materna, o alemão, a palavra Schmier, conjugação do verbo alemão Schmieren, que significa “passar algo em outra coisa”. Esse uso acabou se cristalizando na língua e incorporado pelos falantes que passaram a usar a forma “chimia” para esse doce feito de frutas.

 

Agora que você já sabe que não é errado falar diferente, que tal mergulhar mais afundo nos estudos sociolinguísticos conferindo os textos que foram citados neste artigo? As referências completas estão aí logo abaixo. Boa leitura.

 

REFERÊNCIAS

 

BAGNO, M. Nada na língua é por acaso. São Paulo: Parábola, 2007.

 

CARDOSO, S. A. Geolinguística: tradição e modernidade. São Paulo: Parábola, 2010.

 

CURIOLETTI, Daiane Sandra Savoldi. Lusismos no inglês em comunidades bilíngues português / italiano no oeste catarinense: a realização do /r/. Orientador: Prof. Dr. Marcelo Jacó Krug. 2014. 139 f. Dissertação (Mestrado em Estudos Linguísticos) - Universidade Federal da Fronteira Sul, Chapecó, 2014.

 

LABOV, W. (1972). Padrões sociolinguísticos. Tradução de Marcos Bagno. São Paulo: Parábola, 2008.

 

RUSCHEINSKY, E. W. “Uma vez” falando em alemão: o uso da variante uma vez no português falado em Itapiranga e São João do Oeste-SC. Orientador: Prof. Dr. Marcelo Jacó Krug. 2014. 118 f. Dissertação (Mestrado em Estudos Linguísticos) - Universidade Federal da Fronteira Sul, Chapecó, 2014.


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