Variação linguística: você sabe o que é?

Os usos linguísticos de um indivíduo estão fortemente relacionados ao meio em que estão inseridos

16/10/2020 14h21 - Atualizado em 16/10/2020 14h22



Por Elis Regina Baú Maier

Professora de Letras (Inglês/Português) Titular da EEB. Profª Corália Gevaerd Olinnger; Pós-graduada em Ensino da Língua Inglesa e em Mídias na Educação. Mestranda em Estudos Linguísticos UFFS – Chapecó.

 

Os usos linguísticos de um indivíduo estão fortemente relacionados ao meio em que estão inseridos, o envolvimento comunitário, as relações de proximidade e ou de distanciamento, suas redes sociais estáveis e variáveis. Silva salienta da importância dos valores sociais que interferem na sustentação destas mudanças afirmando que além dos fatores sociais como idade, escolaridade, sexo, “muitos estudos atestam a importância do reconhecimento dos padrões de prestígio sustentados pelas comunidades linguísticas e suas influências no processo de variação ou de mudança” (SILVA; AGUILERA, 2014, p. 707).

 

Um fator importante é a diferença de idade, assim sendo, será maior a probabilidade de encontrarmos diferenças na forma de falar das pessoas. Essas diferenças são mais visíveis na fala do que na escrita, embora seja de conhecimento nosso que as línguas mudam, porém, a língua escrita é sempre mais conservadora do que a língua falada.

 

Labov diz que toda língua apresenta variação, que é sempre potencialmente um desencadeador de mudanças e afirma que esta está suportada pela estrutura da sociedade e sua história. Já Coseriu (1979) diz que uma língua nunca está pronta, cada falante a recria, existe um jogo de continuidade e de inovações.

 

            Se pensarmos no português falado no Brasil, na visão de Chagas (2006 p. 154) diremos que “temos um substrato indígena (tupi e outras línguas nativas) entendendo aqui como substrato as bases do nosso Português através da língua indígena, como nomes de cidades, Xanxerê, Chapecó, Xaxim, Itá, palavras usadas em nosso vocabulário diário como cabocla, carioca, catapora, cumbuca e um superstrato de origem diversa: italiano, alemão, japonês, superstrato a influência dos idiomas dos imigrantes, como por exemplo banquete do Italiano, diesel do alemão, caratê do japonês,  entre outros e devido às nossas fronteiras temos um adstrato do espanhol, adstrato compreendido como um influenciador da fala de uma determinada região devido as suas fronteiras, que é o caso do chamado “Portunhol”, ocorrendo uma mistura do nosso Português com o Espanhol dando origem a esta interlíngua. O elemento mais afetado em nossa língua pelo contato com uma língua estrangeira é o léxico, um exemplo claro disso é a quantidade de palavras inglesas já inseridas em nosso vocabulário como por exemplo: freezer, download, upload, mouse, online, off-line, entre outras.

 

Outro fator a ser mencionado que interfere na mudança linguística é a famosa lei do mínimo esforço, a qual explicaria uma tendência dos seres humanos a optarem por ações mais simples em detrimento de outras opções mais complexas. Verificamos essa mudança bem claramente através do pronome pessoal “você”, inicialmente vossa mercê, vosmecê, vancê, você e agora na era digital o uso da abreviação “vc”.

 

A variação também pode ser percebida, muitas vezes, comparando-se as regiões. É o caso por exemplo do “pão produzido em panificadoras”, só no Brasil ele tem uma variação linguística diatópica ou uma variante lexical, assim definida por BAGNO (2007, p.57) “variantes linguísticas são maneiras diferentes de dizer a mesma coisa” conhecida como: “Pão francês, cacetinho, pão d´água, pão de trigo, pão de sal, pão Jacó, pão aguado, carioquinha, pão careca e pão massa grossa”. Essas variações são tão interessantes que existem dicionários regionais para compreender o português brasileiro.

 

É importante enfatizar que do ponto de vista linguístico, não há uma variedade melhor, mais bonita, mais certa que outra, isso porque todas são igualmente organizadas e atendem às necessidades dos grupos que as usam.

 

BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística. São Paulo: Parábola Editorial, 2007

FIORIN, José Luiz (Org.). Introdução à Linguística. A mudança linguística – Paulo Chagas v. 1 e 2. São Paulo: Contexto, 2006

SILVA, H.C; AGUILERA, V.A. O poder de uma diferença: um estudo sobre crenças e atitudes linguísticas. São Paulo: Alfa, 2014.

 


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