Variação Linguística e Preconceito

A língua que se fala em um mesmo país pode apresentar variações, como bem podemos ver no Brasil e mesmo em nossa região

15/10/2020 10h02 - Atualizado em 15/10/2020 10h05



Por Aline Almira Morbach

Mestranda em Estudos Linguísticos -UFFS

 

Meu sonho, desde a infância, era conhecer a Índia, mas somente em 2016 vim a realizá-lo. Por ser professora de Inglês, imaginava que não teria nenhum problema com a comunicação nesse país tão peculiar, onde dentre tantas línguas oficiais o Inglês se faz presente. Por certo que já havia escutado um pouco do Inglês indiano antes da viagem, e tinha consciência de que o sotaque era muito diferente do americano, ao qual a maioria de nós está acostumada, seja devido ao interesse pessoal ou à exposição cotidiana, como em filmes, músicas e redes sociais. No entanto, ao chegar na capital indiana, Nova Delhi, fui tomada por um choque de realidade, além do cultural, como é de se imaginar, também o linguístico. Eu não entendia com clareza o que se falava, estranhei o sotaque, a entonação e mesmo a pronúncia de certas palavras, tudo isso porque estava comparando o Inglês indiano ao americano todo o tempo. Em vez de me entregar a essa rica experiência linguística e cultural desde o primeiro instante, me mantive relutante, buscando o certo e o errado linguisticamente. Eu estava tendo o que a Sociolinguística chama de ‘preconceito linguístico’.

 

A língua que se fala em um mesmo país pode apresentar variações, como bem podemos ver no Brasil e mesmo em nossa região. Thomason (2001), para exemplificar,  relata que norte-americanos por vezes apresentam dificuldades na compreensão linguística entre um e outro, não exatamente por utilizarem palavras desconhecidas, como gírias por exemplo, mas pelo fato de que cada um pode estar falando uma variedade do inglês, contando com padrões de pronúncia completamente diferentes. Nesse sentido, Marinho e Val (2006, p. 26) acrescentam que essa variação na língua, além de apresentar diferença na pronúncia dos sons, pode apresentar diferenças “ao uso característico do vocabulário ou à forma de construir as estruturas sintáticas”.

 

A variação linguística ocorre devido a fatores sociais, como região onde os indivíduos vivem, grupos e classe social aos quais pertencem, sua geração, seu gênero, e seu grau de escolaridade (THUN, 2010). Essa variação que encontramos na forma de falar, por vezes, é alvo de preconceito. Como pontua Oliveira (2008), o preconceito linguístico é feito de uma crença de que certos estilos linguísticos são superiores a outros, e tem sua origem em vários fatores como a formação sociocultural, a distinção socioeconômica, bem como a influência de outros aspectos linguísticos, como por exemplo o uso de palavras estrangeiras, como é o caso de ‘online’, ‘fashion’, ‘fitness’, entre outras, que já estão introduzidas em nossa vida cotidiana devido à globalização. Esse olhar que subestima o falar diferente, o falar local, o falar regional, e que privilegia um conjunto linguístico como certo, em detrimento de outro, demonstra o enclausuramento em uma forma padrão de vivenciar a linguagem, sendo esta, no entanto, viva, dinâmica e totalmente flexível às mudanças.

 

Somente após me desvencilhar das minhas ideias pré-concebidas sobre o Inglês, é que pude vivenciar toda aquela experiência cultural e linguística. O que eu aprendi dessa experiência e levo comigo para onde eu for, é a necessidade de manter a mente e os ouvidos bem abertos ao diferente, me adaptando aos modos distintos de falar, seja em nossa região, nosso país ou terras estrangeiras, pois, é exatamente essa riqueza de línguas e variações em sua forma de expressão que nos torna tão peculiarmente humanos.

 

Referências:

 

MARINHO, J. H. C.; VAL, M. G. C. Variação linguística e ensino: caderno do Professor. Belo Horizonte: Ceale, 2006.

 

OLIVEIRA, M. Preconceito linguístico, variação e papel da universidade. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Preconceito linguístico e cânone literário, no 36, p. 115-129, 1. sem. 2008.

 

THOMASON, S. G. Language contact. Edinburgh University Press: Edinburgh, 2001.

 

THUN, H. Pluridimensional Cartography. In: LAMELI, A.; KEHREIN, R.; RABANUS, C. (eds.). Language Mapping. Berlin: The Gruyter Mouton, 2010, p. 506-523.


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