Atualizações sobre o coronavírus: tirando algumas dúvidas


Por Lucas Tarlé

28/03/2020 15h38 - Atualizado em 17/04/2020 14h39



Olá, como estão vocês hoje?


Inquietos? Preocupados? Confusos? Bom, eu estou. Faz tempo que escrevi sobre a Covid-19, muita coisa nova apareceu, mas com a enxurrada de informações boas por aí, não senti tanta necessidade de conversar com vocês sobre as características técnicas e tudo mais. Depois de ver o pronunciamento do presidente do Brasil no dia 24 de março, percebi que há uma falha de comunicação, foi um discurso pouco coeso e com um tom mais provocativo do que instrutivo.

 

Gripe, Resfriado e Coronavirus


Você não precisa saber a diferença entre gripe, resfriado e Coronavirus, mas só por curiosidade vou explicar aqui em baixo.


Resfriado comum: são aqueles sintomas que você já conhece, principalmente nariz escorrendo (coriza), pode estar acompanhado de febre, de dores no corpo (mialgia), fraqueza (astenia), tosse. Existem centenas de vírus que causam o resfriado, os mais frequentes são os Rinovirus.


Gripe: é uma doença especificamente causada por um grupo de vírus chamado de Influenza, o qual tem subtipos definidos pela combinação duas proteínas "h" (hemaglutinação) e "n" (neuraminidase). Você já deve ter ouvido bastante H1N1, H5N1, etc. Esses vírus estão muito sucetiveis a mutações, estão sempre se modificando, e tem alta transmissibilidade através de gotículas (aquelas gotas nada agradáveis que saem quando falamos) e de contato (quando vc contamina as mãos e leva ela ao rosto). Eles podem causar desde coriza, tosse, febre e dor no corpo até falta de ar grave (dispnéia). Todo o ano, aqui no Brasil, há campanhas de vacinação para proteger a população mais vulnerável ao vírus. "Mas por que todo ano, Lucas? Eu não tomo vacina de hepatite todo ano" Cada ano são selecionados tipos de vírus diferentes para as vacinas por conta da alta taxa de mutação deles, então todo ano são vacinas diferentes mas para a mesma doença, a gripe. Os casos de gripe começam a crescer no outono e no inverno, momento quando geralmente esfria e as pessoas tendem a se aglomerar mais em locais fechados nas escolas, no trabalho e nos momentos de lazer (cinema, teatro, restaurantes, etc), aumentando assim a transmissão.


Coronavírus: a nova cepa chamada SARS-CoV-2 tem chamado a atenção, seus sintomas são febre e tosse, raramente associada a coriza, pode ser acompanhada dos mesmos sintomas da gripe. A grande diferença desse virus está na letalidade, virulencia e transmissibilidade. Felizmente poucas pessoas infectadas com o vírus falecem (baixa letalidade), em sua maioria são idosos (maiores que 60 anos) com outras doenças como hipertensão, diabetes, cardiopatias e pneumopatias. A capacidade de gerar casos graves e a de transmitir é relativamente alta, então temos um grande número de internações em pouco tempo, pois o vírus se espalha rápido, gerando assim uma demanda de pacientes que o sistema de saúde não consegue atender, esse é o problema, o colapso do sistema de saúde, onde nenhuma outra pessoa com sintomas graves (falta de ar, infarto, AVC) vai conseguir auxílio dos hospitais.



Atletas e ex-atletas estão imunes?

 

As atividades físicas regulares têm inúmeros benefícios, mas não há nenhum trabalho científico até hoje que mostre uma proteção de atletas ou ex-atletas nesse tipo de infecção.


Hidroxicloroquina é o medicamento salvador?

 

Esse medicamento ainda está na fase de estudo para a Covid-19, ou seja, não sabemos se faz bem, mal ou não faz diferença. Devido a urgência, o Ministério da Saúde não vai esperar estudos mais robustos, vai disponibilizar para os médicos utilizarem o medicamento em casos graves, caso julguem necessário. Lembrando, apenas casos graves dentro do hospital! 

 

A esperança é que reduza o tempo de internação das pessoas (que nos casos graves pode chegar a três semanas). Essa não é a solução para desafogar completamente o sistema de saúde, não diminui o número de internações, mas tem a possibilidade de contribuir para salvar pessoas em casos graves e antecipar a alta, ainda não temos conclusões sólidas sobre os resultados do uso deste medicamento.



O que é efetivo no controle do vírus?

 

Como não há vacina e medicamentos para o combate ao vírus, as medidas não farmacológicas são o melhor remédio. Uma forma bem eficiente de diminuir o número de hospitalizações, que é a grande preocupação, é diminuir a transmissão do vírus de pessoa para pessoa, protegendo a boca ao tossir e espirrar, usando máscara quando doente, evitando conversar com as pessoas a menos de dois metros, evitando beijos e abraços, lavando as mão com frequência, tudo o que vocês têm visto nos grandes meios de comunicação. 

 

A grande polêmica está nas medidas dos governos estadual e municipal para evitar aglomerações, justamente o que faz o vírus se propagar tão rápido. Não se pode esquecer das diferenças dentro nosso país, no Rio de Janeiro, por exemplo, a densidade populacional é quase 5.300 habitantes por quilômetro quadrado, em Chapecó 300 habitantes por quilômetro quadrado, será que as duas cidades precisam das mesmas medidas para evitar aglomeração? Cabe então cada governante conhecer o local que governa e decidir a melhor forma para reduzir aglomerações.


O que eu quero deixar de recado é: faça tudo ao seu alcance, respeite a distância entre as pessoas, proteja a boca ao tossir e espirrar, lave suas mãos com frequência.

 

Caso fique com sintomas, vá a unidade básica de saúde mais próxima, lá fornecerão uma máscara para você proteger os outros, informações sobre o isolamento domiciliar e atestado para vc e sua família se ausentarem do trabalho, isso diminui as chances de contaminar mais pessoas. Temos que proteger as pessoas mais vulneráveis e também nosso sistema de saúde, do qual todos nós dependemos.

 

Cobre das esferas do governo coesão, se não há uma comunicação clara, só aumenta a preocupação e confusão da população.


Espero ter sido claro, caso fique qualquer dúvida ou sugestão, deixe um comentário aqui embaixo.


Obrigado pela atenção, até a próxima!

Lucas Tarlé

Carioca de nascimento, gaúcho do Paraguai e baiano de coração, tem 26 anos, médico formado pela UNIRIO, adora tagarelar sobre ciência e saúde.


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