Holocausto brasileiro


Por Kiane Berté

14/02/2020 08h24 - Atualizado em 17/04/2020 14h39



Capa do livro da Daniela Arbex, lançado em 2013 (Foto: Divulgação)

Holocausto brasileiro: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil

 

>> Primeiramente eu gostaria de dizer que esse livro deveria ser leitura obrigatória. Daqueles assuntos que caem na prova de imigração brasileira, tipo brigadeiro de panela, sabe? HAHA

 

Eu fui conhecer a história do hospital depois que a Daniela Arbex – mesma autora de Todo dia a mesma noite’ – publicou esse livro. Se bem que não, porque o livro foi lançado em 2013 e eu passei a conhecer mesmo a situação, por volta de 2018. Olha quanto tempo depois, meu Deus.

 

‘Holocausto brasileiro’ ficou tão famoso e tão desejado pelas pessoas, que vendeu mais de 300 mil cópias. Além disso, Daniela conquistou prêmios importantes com ele, como o prêmio Jabuti (que é o mais tradicional prêmio literário do Brasil) e o APCA, de São Paulo. Mas ele não foi reconhecido só pelo número de cópias vendidas, mas sim, pela história surreal que ele trás.

 

O livro da Daniela conta a história de um manicômio (um hospício, melhor falando), em Barbacena, um município situado em Minas Gerais. Esse local, chamado como ‘Hospital Colônia’, existiu por muitos anos, muitos anos mesmo.

 

Aquele era um lugar completamente do mal. Eu digo isso, porque lá aconteciam atrocidades, coisas horrorosas, coisas malditas (desculpem as palavras, mas isso é verdade).

 

Pessoas adultas, jovens, adolescentes e até crianças, eram jogadas lá dentro pelos familiares ou outras pessoas, e eram maltratadas com as piores coisas que vocês podem imaginar.

 

Elas eram internadas no hospício sem ter nenhuma avaliação psicológica se quer. Muitas das pessoas que estavam lá eram apenas pessoas diferentes da sociedade, aquelas que não são aceitas, sabe?

 

Claro que aquelas com transtornos mentais eram mandados para lá também, mas a grande maioria eram pessoas saudáveis e que não tinham outra escolha. As atrocidades que eu vou contar agora só vieram a público quando um fotógrafo registrou o local, e as imagens absurdas de tortura caíram na mídia.

 

A Daniela trabalhava num jornal de Minas, na época, e, depois das fotos vazarem na imprensa, ela foi em busca de fontes para montar uma reportagem. Ela conversou com funcionários, pacientes sobreviventes (vocês já vão entender porque estou falando isso) e todos aqueles que tiveram contato com o Hospital e que quiseram falar a respeito. Isso tudo se transformou em um livro-reportagem.

 

Depois de pronto, ‘Holocausto brasileiro’ inspirou em uma série de reportagens e documentários, assim como os prêmios que mencionei acima.



O local funcionava basicamente dessa maneira: qualquer pessoa era despachada pela família, policiais ou políticos, através de um trem na cidade chamado de ‘Trem de doido’. Essas pessoas faziam coisas consideradas anormais e isso fazia com que elas fossem levadas até esse pequeno inferno que ficou ocultado por muitas décadas.

 

Geralmente, os que eram mandados para lá eram homossexuais, alcoólatras, prostitutas, pessoas epiléticas, usuários de drogas, mendigos, pessoas que faziam confusão e a polícia não gostava, meninas grávidas ou que perderam a virgindade antes do casamento, e até mulheres casadas eram jogadas lá dentro pelo marido, para que ele pudesse viver com a amante.

 

Coisa de louco mesmo.

 

Até tem um caso que a Daniela relata no livro, que fala de uma idosa que quando tinha 15 anos foi estuprada pelo patrão e acabou engravidando. O patrão era um político importante e advogado, se não me engano, e ele fez com que ela fosse mandada para lá para que pudesse ter a criança longe de todos e evitar falatórios e confusão com a família.

 

Mas o que tinha de errado lá, além disso?

 

Olha, tudo!

 

As pessoas que estavam dentro daquele hospital imundo eram tratadas em situação pior que animal de rua, abandonados. Eles eram largados sem roupa no pátio e passavam frio, eram mal alimentados, bebiam água de esgoto e urina, e levavam choques que faziam parte do tratamento deles. Sem falar que eles eram agredidos, mulheres eram estupradas diariamente, não só pelos próprios pacientes, mas também por médicos nojentos.

 

No livro até fala que as mães grávidas passavam fezes na barriga para que os outros não se aproximassem delas, mas isso não funcionava por muito tempo. Quando os bebês nasciam, eles eram tirados das mães e dados a outras pessoas, outras famílias, para serem criados.

 

Como eu disse: não sabia que essas coisas aconteceram no Brasil, não até eu ler esse livro e me deparar com uma coisa catastrófica dessas. Falamos muito dos campos de concentração nazistas, mas isso aqui precisa ser falado, lembrado, porque aconteceu debaixo do nosso nariz.

 

Nesse lugar abominável morreram mais de 60 mil pessoas. Gente, é número demais. Eram trabalhadores, crianças abandonadas, mulheres inocentes... E poucos sobreviveram para contar essa história. Graças a Daniela, elas puderam ter voz e denunciar tudo o que acontecia lá.

 

Esse hospício não existe mais nos dias de hoje, porque, por volta de 2000, se não me engano, começaram as denuncias, investigações, e ali, foi dado um ponto final em tudo.

 

Essas pessoas que sobreviveram, foram mandadas para casas de tratamento e passaram a ver e viver outra realidade. É até emocionante ler o livro e saber que eles conheceram a bondade e a liberdade, coisas estas que não tinham antes.

 

Teve uma mulher que começou a usar dois vestidos ao mesmo tempo, depois que saiu do Colônia, porque não estava acostumada a usar roupas lá. Outra, teve diabetes, porque descobriu o prazer da comida que não era dada no manicômio.

 

Lá, eles eram alimentados com um tipo de ração, bem pastosa, coisa nojenta, tipo aquelas que são dadas às vacas e tal.

 

E a gente aqui reclamando da comida da nossa casa, né? Deus tá vendo! (Falou aquela que não reclama)

 

Homens e mulheres sofriam com agressões físicas e mentais, e eram submetidas ao trabalho escravo. Tinha gente que era obrigada a tomar banho em banheira com fezes. Eu sei, nojento demais, mas isso acontecia, segundo os relatos de pacientes e funcionários, no livro da Daniela.

 

As camas eram substituídas por capim, cheios de ratos e bichos, para que todo mundo pudesse ter onde dormir, de tanta gente que tinha naqueles pavilhões.  O hospital foi projetado para 200 pessoas e, algum tempo depois, já tava abrigando mais de cinco mil. Havia poucos médicos, pouca comida e pouca higiene.

 

Tudo lá era pouco, menos o número de pessoas sendo massacradas.



Se vocês acham isso pouco, teve uma época que os responsáveis pelo hospício, ao perceberam que poderiam ganhar um dinheirinho a mais, começaram a vender os cadáveres dos pacientes para faculdades de medicina do país. Tem até documentos que comprovam isso no livro.

 

Era tanta precariedade, que morriam 16 pessoas por dia lá dentro, seja de frio, de fome, de alguma doença, ou até pelos maus tratos... Diante disso, o hospital dissolvia o corpo dessas pessoas em ácido para vender e lucrar com as ossadas. Pra piorar a situação, essas coisas eram feitas no meio do pátio, na frente dos outros pacientes.

 

Como a Daniela disse no livro: “nada ali dentro se perdia, exceto a vida”.

 

Dá licença que eu tô indo ali vomitar e já volto.

 

Eu já disse e vou repetir: essa leitura é necessária, não só porque se passou no Brasil onde a gente vive, mas também porque essa realidade ainda existe em muitos lugares e precisamos combatê-la.

 

Esse livro faz jus ao nome. A Daniela não quis fazer um título sensacionalista para chamar leitores, até porque isso é realmente a realidade. Aquilo foi um cenário de guerra. Um verdadeiro holocausto.  

 

“Homens, mulheres e crianças, às vezes, comiam ratos, bebiam esgoto ou urina, dormiam sobre capim, eram espancados e violados. Nas noites geladas da serra da Mantiqueira, eram atirados ao relento, nus ou cobertos apenas por trapos. Instintivamente faziam um círculo compacto, alternando os que ficavam no lado de fora e no de dentro, na tentativa de sobreviver. Alguns não alcançavam as manhãs. Os pacientes do Colônia morriam de frio, de fome, de doença. Morriam também de choque. Em alguns dias, os eletrochoques eram tantos e tão fortes, que a sobrecarga derrubava a rede do município. Nos períodos de maior lotação, dezesseis pessoas morriam a cada dia. Morriam de tudo — e também de invisibilidade.”

 

Espero que vocês tenham gostado do assunto que eu trouxe hoje. Esses, mexem muito com o meu emocional e eu sinto que preciso falar sobre isso com vocês.

 

Um beijo e até a próxima!









Kiane Berté

Kiane Berté tem 25 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


COMENTÁRIOS

Os comentários neste espaço são de inteira responsabilidade dos leitores e não representam a linha editorial do Oeste Mais. Opiniões impróprias ou ilegais poderão ser excluídas sem aviso prévio.