Coronavírus: como entender as informações?


Por Lucas Tarlé

11/02/2020 13h49 - Atualizado em 17/04/2020 14h39



Olá, como você está hoje?

 

Estão bombardeando informações sobre o Coronavírus para todos os lados e pode apostar que a falta de entendimento do assunto é ponto importante para o pânico generalizado.

 

Vou mostrar na coluna de hoje uma reportagem do Oeste Mais sobre o assunto e como a gente a interpreta conhecendo e não conhecendo nada sobre o assunto.

 

Antes, só para deixar bem claro, a reportagem expõe um fato com a visão do entrevistado, essa coluna expõe a minha opinião após ler alguns documentos do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Infectologia, de forma alguma estou fazendo uma crítica a quem escreveu a reportagem.

 

O título da reportagem é autoexplicativo "Professor que contraiu coronavírus diz que venceu doença com uísque e mel", ela foi veiculada em vários sites de notícias internacionais de grande circulação e conta que um professor de inglês britânico depois de dar aulas em Wuhan, na China, iniciou uma tosse forte e foi diagnosticado com coronavírus (2019-nCoV) e após dois meses de internação, recebeu alta, segundo ele tomando uísque com mel e usando medicamento inalatório.

 

Interpretação quando se falta informação

 

"Tá vendo, uísque e mel é a cura desse tal de coronavírus, ainda reclamam que eu passo o dia inteiro bebendo, vê se pode, tô é imune a esse vírus...".

 

Quando se tem informação

 

"Ah, legal, como não há medicamento que cure a doença, esse britânico usou o inalador e uísque com mel para aliviar os sintomas até o corpo dele combater e resolver a infecção sozinho. Uísque com mel deve ser um remédio tradicional da região natal dele para ajudar nos sintomas de algumas doenças"

 

Vamos falar um pouco sobre o vírus

 

Coronavirus é um grupo e dentro desse grupo há sete tipos que infectam humanos, o recém descoberto e motivo de preocupação é a 2019-nCoV, mas por que a preocupação? Porque é novo, sabemos pouco dele, não seria legal deixar um vírus que mal conhecemos circular livre por aí.

 

O que precisamos conhecer dele então?

 

Nas doenças em geral, há características importantes dos agentes etiológicos (aqueles que causam a doença), vou listar algumas:

 

♦ Infectividade: capacidade de o agente entrar no corpo e se multiplicar, não necessariamente produzir doença. O vírus da gripe é um bom exemplo de alta infectividade, ele se multiplica com facilidade no corpo, podendo ou não manifestar a doença, muitas pessoas tem o vírus sem manifestar nenhum sintoma.

 

♦ Patogenicidade: capacidade de o agente produzir doença, ou seja, infectar e deixar a pessoa doente. O sarampo, por exemplo, tem alta patogenicidade, praticamente todos os infectados manifestam a doença, ou seja, têm sintomas.

 

♦ Virulência: capacidade de produzir casos graves ou fatais.

 

♦ Letalidade: capacidade de produzir casos fatais, a raiva humana, por exemplo, é a uma das doenças mais letais alcançando praticamente 100% dos doentes.

 

♦ Transmissibilidade: capacidade de transmitir a doença.

 

♦ Imunogenicidade: capacidade de o agente induzir imunidade, ou seja, de se pegar a doença e ficar imune, como o caso da catapora (varicela), uma vez que a criança pega, dificilmente vai infectar de novo.

(Foto: Pixabay)

O que temos ainda de notícia, é que o 2019-nCoV tem uma transmissibilidade menor que o vírus da gripe e uma baixa letalidade, cerca de 2% com dados de 3 de fevereiro (morte ÷ total de casos confirmados). Não temos dados suficientes para dizer com segurança como é a infectividade, patogenicidade, virulência nem a imunogenicidade.

 

Como é transmitido?

 

É transmitido por gotículas e secreções respiratórias (saliva, espirro, catarro, etc), então sempre cobrir a boca quando tossir ou espirrar, usar lenços descartáveis, não compartilhar talheres com pessoas doentes e evitar contato com pessoas doentes. 

 

Depois de infectado, a pessoa demora até 14 dias para manifestar os sintomas que geralmente são próximos aos de um resfriado (febre, tosse e falta de ar), mas podem ser bastante graves e evoluir para óbito principalmente em imunodeprimidos, idosos e crianças.

 

Atenção! Não é qualquer febre, tosse ou falta de ar que vai fazer uma pessoa se tornar suspeita de Coronavírus, os casos suspeitos são definidos assim:

 

Febre + sintoma respiratório + viagem para local de risco há pelo menos 14 dias antes do aparecimento dos sintomas.

 

Febre + sintoma respiratório + contato com pessoa suspeita há pelo menos 14 dias do início dos sintomas.

 

Febre ou sintoma respiratório + contato com caso confirmado de 2019-CoV há pelo menos 14 dias do início dos sintomas.

 

Se você se enquadra em alguma dessas definições, procure o estabelecimento de saúde mais próximo.

(Foto: Pixabay)

Tratamento

 

Assim como na gripe e nos resfriados, não há cura, só controle dos sintomas até o corpo conseguir eliminar. Para casos mais graves, os pacientes podem até necessitar de respiradores mecânicos.

 

Depois de tanta informação, nada de pânico, o trabalho que tá dando de conter a doença é para que possamos conhecer mais ela sem colocar as pessoas em risco.

 

Aqui você pode acessar o boletim epidemiológico e esclarecer outras dúvidas.

 

A recomendação de hoje é um jogo de celular, Plague Inc, da produtora Miniclip, "jogo?! Sério?" Por que não? O jogo brinca com aqueles conceitos das doenças que eu falei mais acima, conhecendo isso vai montar a sua bactéria de sucesso, não adianta ser muito letal, não dá tempo de uma pessoa transmitir para outra, alta patogenicidade também logo no inicio acaba evidenciando a bactéria, dando mais chance para uma cura ou vacina, enfim, brincando um pouco com o jogo você vai entender bons conceitos das doenças infecciosas, um bom jeito de aprender.

 

Gostou? Odiou? Ficou com dúvida? Comenta aí, vou ter o prazer de responder.

 

Obrigado pela atenção, até a próxima!

Lucas Tarlé

Carioca de nascimento, gaúcho do Paraguai e baiano de coração, tem 26 anos, médico formado pela UNIRIO, adora tagarelar sobre ciência e saúde.


COMENTÁRIOS

Os comentários neste espaço são de inteira responsabilidade dos leitores e não representam a linha editorial do Oeste Mais. Opiniões impróprias ou ilegais poderão ser excluídas sem aviso prévio.