Conhecendo o Dormitório das Andorinhas em Chapecó


Por Sacha Arielle Branco

04/01/2020 09h23 - Atualizado em 17/04/2020 14h39



Logo do Dormitório das Andorinhas (Foto: Reprodução/Facebook)

Olá pessoal, tudo bem??

 

Hoje quero conversar com vocês sobre o Dormitório das Andorinhas, uma iniciativa que acontecesse em Chapecó, e tem como objetivo observar as Andorinhas. Para contar um pouco melhor sobre esse lindo trabalho convidei a Eliara Solange Müller, que é professora no curso de Ciências Biológicas da Universidade Comunitária da Região de Chapecó – UNOCHAPECÓ. A professora Eliara possui Doutorado em Diversidade e Manejo de Vida Silvestre pela Universidade Vale do Rio dos Sinos.

 

Para que vocês conheçam melhor o Dormitório das Andorinhas, fiz algumas perguntas para a professora Eliara. Confiram a entrevista abaixo:

 

1. O que é “Dormitório das Andorinhas”?

 

É um local de pernoite de nove mil andorinhas-grandes (Progne chalybea) anualmente, durante o final do verão e parte do outono (fevereiro a maio). Elas chegam ao final da tarde (pôr-do-sol) pousam nos edifícios, árvores e rede elétrica, fazem o pernoite e ao amanhecer (nascer do sol) se espalham pela região para se alimentar.  O dormitório se localiza na avenida principal de Chapecó, a Getúlio Dorneles Vargas esquina com a Rua Marechal Deodoro (27°06'01.1"S e 52°36'56.3"W), em frente ao Banco do Brasil.

 

2. Qual a importância de acompanhar essa espécie?

 

Os indivíduos de andorinha-grande, que utilizam o sul da América do Sul (região com inverno rigoroso), realizam migração sazonal em busca de alimento quando este recurso está escasso na região, o que coincide com a estação não reprodutiva da espécie (maio-setembro). O destino da migração é o norte e nordeste brasileiro e países vizinhos, embora nem todos os indivíduos de uma população migrem. Indivíduos que não concluem o ciclo de muda das penas, não conseguem atingir um peso ideal para a migração e com infestação excessiva de parasitas, não realizam a migração. Esta espécie conhece o caminho de ida e volta através de marcos visuais, ou seja, reconhecem pontos estratégicos ao longo do caminho através de um sistema de navegação interno que cria mapas mentais de sua área de vida, o que possibilita o seu retorno da migração.

 

Considerando isso, monitorar o tamanho da população que anualmente faz uso do dormitório passageiro (no centro de Chapecó) é essencial para entender se a população está aumentando, reduzindo ou se mantendo estável. Considero muito importante marcar (geolocalizadores) as andorinhas para conhecer a rota migratória do sul para a região norte, tempo necessário para fazer esta migração, destino exato, se o destino é sempre o mesmo. São aspectos que não conhecemos e são importantes para pensar em estratégias de conservação.

 

Outro ponto importante é considerar que são nove mil andorinhas que defecam em um local, o que gera grande quantidade de resíduos orgânicos. É importante que seja realizado o monitoramento anual das fezes no dormitório, a fim de tranquilizar a população no que diz respeito à possibilidade de veiculação de patógenos e comprometimento da Saúde Pública.  Atualmente a prefeitura municipal de Chapecó, através da Secretaria de Serviços Urbanos, isola a área, instala lonas na calçada todas as noites e ao amanhecer recolhe as lonas, lava a calçada e a rua e faz a higiene das lonas. Esta ação da prefeitura tem a intenção de minimizar o odor do local. Além deste cuidado, é importante realizar a análise das fezes para entender se há algum risco com a saúde pública. As análises realizadas nos anos anteriores indicaram que não há risco, mas é preciso monitorar anualmente.

 

3. Você acredita que a educação ambiental pode trazer benefícios para a comunidade (de aves ou pessoas)?

 

Com toda certeza sim para esta população de andorinhas e consequentemente para todo o ecossistema. A educação ambiental proporciona conhecimento sobre a biologia, ecologia e em especial a rota migratória que faz parte do ciclo de vida da andorinha-grande, contribuindo para que a população entenda a importância de proteger a fauna silvestre, respeitar o ambiente em que vivem, respeitar os diferentes ciclos naturais (por exemplo: a migração) e este dormitório coletivo localizado no Centro de Chapecó. O local possui grande fluxo de pedestres durante o dia e a noite, o que facilita atividades de divulgação e sensibilização. Ao final da tarde muitos chapecoenses e turistas param para assistir ao espetáculo, que é pouso das andorinhas no dormitório. Acredito que a cidade está em processo de aprender a conviver.

 

4. Como surgiu essa ideia?

 

Muitas vezes, ao final da tarde e ao amanhecer eu fui até o dormitório coletivo assistir o pouso das andorinhas. Em muitas vezes que fui até o local conversei com a população (fui abordada), uma ou duas pessoas e quando percebi havia umas 10 a 20 pessoas no meu entorno, ouvindo sobre as andorinhas, sobre o que significava este evento (pouso das andorinhas). Me empolguei e passei a ir para o dormitório já preparada para fazer uma observação orientada (fala) sobre as andorinhas, levava binóculos para observação. Em 2018, um dos vereadores de Chapecó propôs na câmara de vereadores espantar as andorinhas do dormitório, o que gerou uma revolta na população chapecoense que já está sensibilizada com a conservação da fauna silvestre e o respeito à vida. A partir disso, passei a levar uma caixa de som com microfone (atinge muito mais pessoas) para a avenida e os binóculos para a população observar os detalhes da espécie e fazer a observação orientada antes ou após o espetáculo do pouso das andorinhas, bem como divulgar os dias que esta orientação (fala) iria acontecer.  Uma das pessoas que foi assistir o evento, Marcus Vinícius Ribeiro (Design), propôs criar uma página nas redes sociais e nesta parceria aumentamos a divulgação.

Registro das andorinhas em fevereiro de 2019 (Foto: Reprodução/Facebook)

5. Como é a interação com a comunidade?

 

É muito positiva. As pessoas vão até o dormitório para assistir o pouso das andorinhas. É um lazer de final de tarde. As pessoas que já participam da observação orientada se sentem satisfeitas ou muito satisfeitas com a explicação e destacam como marcante a quantidade de indivíduos no dormitório, o comportamento de organização das andorinhas para pousar no dormitório (árvores) e a presença de animais silvestres em área urbana. É possível perceber uma mudança na percepção da população chapecoense, a cada ano o número de cidadãos que entendem e desejam que a cidade respeite o dormitório das andorinhas tem aumentado e desde 2013 o dormitório coletivo das andorinhas em Chapecó é tema de reportagens locais e estaduais. Este é também um dos caminhos para construirmos uma cidade mais sustentável, respeitar os ciclos naturais.

 

6. Tem como apoiar esse projeto?

 

Tem sim, divulgando, fazendo doações ou patrocinando o projeto. Temos interesse em sinalizar o dormitório com totem informativo, placas, bem como fazer folders para deixar nos hotéis da cidade; continuar realizando exames coproparasitológicos a fim de verificar o estado sanitário do grupo da andorinha-doméstica-grande em seu dormitório; utilizar geolocalizadores para conhecer a rota migratória das andorinhas.

 

7. Qual é o período que geralmente podemos observar as andorinhas?

 

No dormitório coletivo é de fevereiro a maio (pode variar, iniciar em janeiro). Em maio elas migram para a região da linha do Equador (norte, nordeste). Em setembro retornam para o sul, mas não se agrupam para pernoitar, cada casal se organiza para reproduzir, apenas após os filhotes estarem em condições de voo que elas se agrupam em dormitórios coletivos (fevereiro a maio).

 

8. Como fazemos para participar do projeto?

 

Pode fazer contato via redes sociais ou e-mail eliara@unochapeco.edu.br ou (49) 99107-3330

 

E aí? Vocês já conhecinham o Dormitório das Andorinhas de Chapecó? Espero que tenham gostado desta pequena entrevista com a professora Eliara e ajudem a divulgar esse lindo projeto!

 

Fiquem bem e até a próxima!






Sacha Arielle Branco

Nascida e criada no Oeste catarinense. Bióloga, apaixonada por plantas, e mestranda em Biologia de Fungos, Algas e Plantas pela UFSC. Falará sobre temas ambientais diversos de modo simples e descontraído, com a intenção de fazer o leitor pensar sobre temas importantes ligados ao meio ambiente.


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