'Código Azul' - capítulo 2


Por Kiane Berté

01/11/2019 10h43 - Atualizado em 18/12/2020 20h49



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Ótima leitura :)

 

         

            O despertador soou alto demais e eu quase caí da cama com o barulho. Estava exausto por causa do fim de semana cansativo que tive e mal podia esperar para chegar ao hospital e atender aquelas pessoas que precisavam de mim.

 

Antes de me levantar da cama, inclinei o meu corpo para poder beijar a testa de Raquel que dormia como uma pedra. Ela mal sentiu o meu toque e se virou para o outro lado da cama, cobrindo os braços nus que estavam de fora.

 

Segui até o banheiro e escovei os meus dentes. Depois, tomei um banho rápido, sequei os meus cabelos e me vesti para poder ir trabalhar.

 

Fui até a cozinha e preparei o café na cafeteira, enquanto organizava a minha pasta do hospital. O trânsito estava tranquilo naquela manhã e eu consegui chegar adiantado no hospital.

 

Havia filas na emergência e a maioria das pessoas estava gripada. Podia ouvi-las tossindo e espirrando, pela janela da minha sala. Parecia uma epidemia que estava se alastrando rapidamente.

 

A manhã demorou a passar.

 

Atendi 14 pessoas gripadas e duas com problemas renais. Encaminhei os últimos dois pacientes para exames detalhados e logo confirmei que eles iriam passar por cirurgia em menos de 48 horas. Fiz a internação dos dois, os medicando, para que pudessem estar preparados para o procedimento.

 

Meu horário de almoço também passou rápido. O que era para ser uma hora se torna 15 minutos, porque meu pager do hospital não parava de tocar enquanto eu estava mastigando a comida. Uma mulher de 35 anos, em parada cardiorrespiratória, estava precisando ser atendida com urgência e apenas eu estava disponível naquele momento.

 

— Ela tá fibrilando — gritou uma das internas que estava ao meu lado.

— Desfibrilador, carregue em 200 — me aproximei da mulher. — Afasta! — Rapidamente a paciente recebeu um choque, mas o coração se recusava a trabalhar da maneira correta. — Vamos lá, vamos lá! Mais uma vez, — gritei novamente — choca com 300!

 

          Num pulsar milagroso, o coração da mulher voltou a bater. Engoli a seco e olhei para o relógio: faltava muito para o meu turno terminar.

 

          Deixei a senhora aos cuidados das enfermeiras e retornei para os atendimentos dos demais pacientes que me esperavam impacientemente doentes.

 

Atendi oito crianças com diversos problemas de saúde, cinco adultos com idades entre 19 e 40 anos, e três idosos muito simpáticos. Uma das crianças atendidas, de cinco anos, engoliu uma moeda em casa. Os pais estavam desesperados com a situação e trouxeram a menina até mim.

 

Como eles me relataram que o objeto era pequeno e que era de uma coleção de moedas antigas que o pai tinha em casa, fiz com que eles ficassem mais tranquilos após o raio-x. Pedi para que fizessem a criança beber muita água, e passei receitas com muita fibra para que ela comesse.

 

— Se a moeda for mesmo pequena como me disseram, em cinco ou sete dias ela vai expelir o objeto. Caso isso não aconteça, vou ter que encaminhá-la ao centro cirúrgico.

 

          Aquelas foram palavras bem pesadas para os pais da criança. Claro que eles ficaram mais calmos com a explicação, mas depois disso, eu tinha certeza de que eles iriam tomar mais cuidado quando estivessem limpando as moedas perto da filha.

 

          Pouco antes do fim do meu turno, passei na cafeteria do hospital e comprei outro café para poder beber enquanto me dirigia para casa, para descansar do dia turbulento que tive. Nesse mesmo dia, eu ainda tinha que encarar a academia, que havia faltado nas últimas semanas. A minha exaustão de segunda-feira era tamanha, que evitei me lembrar que precisava comparecer naquele lugar.

 

Eu segui pela estrada, ainda ouvindo aquele barulho estranho que vinha do capô do meu carro. Alguma coisa não estava certa, e me lembrei que na semana passada havia atropelado um animal na estrada. Poderia ser esse o problema.

 

Quando parei o carro ao lado da estrada para verificar o barulho incômodo, percebi que além do barulho, meu pneu dianteiro estava furado.

 

— Que droga! — dei um chute na borracha com defeito e apanhei o telefone para ligar para minha mãe. Ela demorou em atender.

— Joe, está tudo bem? — mamãe perguntou assim que atendeu ao telefone, minutos depois.

— Sim, mamãe, não se preocupe comigo, eu estou bem. Quem não está é o pneu do meu carro — dei uma risada nervosa do outro lado da linha.

— O que houve, querido?

— Furou! — disse num sussurro. — Estou sem o estepe, graças ao irresponsável do meu antigo mecânico. Vou precisar passar numa oficina antes. Talvez eu me atrase um pouco para o jantar.

 

          Não foi difícil explicar para Dora que eu estava bem e que o problema era só o pneu do meu carro. Mamãe se preocupava a toa comigo e eu só ria dela por isso, para ver se amenizava um pouco a situação.

 

Voltei para o carro e procurei por uma oficina mais próxima no Google Maps. Encontrei uma, chamada “Bosch”, que possuía quatro estrelas e meia. Eu sabia que precisava apenas trocar o pneu furado, mas queria me certificar de que nada iria dar errado.

 

          Comecei a ler os comentários positivos, tentando descobrir porque uma das estrelas estava pela metade, isso até que, de tanto rolar a barrinha lateral, um comentário ruim apareceu:

 

“Nunca mais volto nesse lugar. A mulher que trabalha ali é grossa e mal educada demais. Vai lavar uma louça!”

 

          Comecei a rir sem perceber, quando li o comentário. Como alguém podia ser tão babaca a ponto de mandar uma mulher lavar a louça? Ele provavelmente devia ter se recusado a pagar a conta e a funcionária pensou em chamar a polícia. Era a única justificativa que eu encontrava para aquele problema.

 

Aliás, ela trabalhava no caixa, certo?

 

Os demais comentários eram todos positivos e, muitos deles, quase uma ofensa, mas uma ofensa muito educada, de certo modo.

 

“Gata demais. Recomendo atendimento”, disse um dos comentários assinado pelo nome Jorge.

“Não é flor que se cheire, mas gostei”, disse outro cara.

“Minha mãe adoraria ter uma nora assim”, esse comentário, de alguém chamado Vill, tinha vinte curtidas.

“Por um mundo com mais mulheres assim”, esse post e outro escrito: “Maravilhosa demais, com todo o respeito”, foi escrito por uma mulher chamada Joana.

 

Voltei a rir de outros comentários pervertidos que encontrei sobre a tal funcionária, e coloquei o endereço no GPS.  O aplicativo me levou para três quarteirões de distância de onde parei para verificar o pneu. Era próximo do hospital onde eu trabalhava.

 

O local, do lado de fora, era cercado por uma parede de concreto toda preta e grafitada com caveiras e desenhos coloridos bacanas. Era um pouco assustador, mas eu conseguia ver uma fila de carros, prontos para saírem de lá. Deduzi que era um ótimo atendimento mesmo, exceto pelo barulhão da batida do rock pesado que tocava do lado de dentro. Aquilo quase me fez dar a volta e sair dali.

 

Antes que eu pudesse fazer isso, um cara todo tatuado e barbado veio até mim e me pediu para que eu entrasse pelo portão lateral. Eu obedeci às instruções e fiz a volta com o carro, entrando e estacionando onde outro homem barbado me direcionou.

 

          Eu desci do carro e logo fui atendido por outro homem. Ele era baixinho e tinha a voz fina demais. Parecia até uma mulher de cabelos curtos falando. Eu ri da situação e ele percebeu.

 

— Qual é o problema com o seu carrão, meu chapa? — o pentelho de voz fina perguntou.

— Ann... — saí de frente do pneu murcho e apontei em direção a ele. — Meu pneu furou.

O homem franziu a testa e balançou a cabeça, pensativo.

— É só isso mesmo ou tem algum problema de verdade?  

No momento em que ele se abaixou para verificar o estrago, eu abri a porta do meu carro e respondi:

— Tudo bem, não precisa mexer no pneu. Eu procuro outro lugar que possa fazer o serviço.

O pentelho baixinho rapidamente se levantou e veio até mim, tocando o meu ombro e dando uns tapinhas de leves.

— Calma aí, meu chapa, eu só estava brincando com você — o cara deu um sorrisinho e se afastou. — Meu nome é Bob. — Ele trocou um aperto de mão comigo. — Seu estepe não está bom? — perguntou em seguida.

— Bem, eu estou sem. Meu último mecânico esqueceu de colocá-lo de volta no lugar.

— Como? Você sabe que não pode andar sem ele, não sabe? — Bob estava bem surpreso com a informação.

— Sei, mas eu não percebi que estava sem, até precisar dele.

— Olha, meu caro... — ele analisou o compartimento do Audi e prosseguiu: — Sempre que for a uma oficina, procure acompanhar o trabalho, ou vai ter surpresas desagradáveis como essa.

— Obrigado pelo conselho — meneei a cabeça. — Vou ficar mais atento quanto a isso.

— Venha comigo, vou chamar Herrera para resolver seu problema.

 

          Fiz que sim com a cabeça, já sem paciência, e o Bob me conduziu até um cercado de veículos antigos com o capô aberto. Ele começou a trocar ideia com alguns outros homens estranhos, que estavam bebendo cerveja barata e batucando o rock do rádio na lataria de um belíssimo Opala preto.

 

— Herrera, precisamos da sua ajuda aqui.

 

          Assim que eu retirei o celular do bolso para mandar uma mensagem à Raquel para contar o que havia acontecido, uma mulher de cabelos castanhos compridos, quase pretos, e todo bagunçado, saiu de trás de um dos veículos estacionados. Ela segurava uma ferramenta em suas mãos, já sujas de graxa.

 

— O que houve, Bob? — ela perguntou toda séria.

— O cara ali está com o pneu furado e precisa trocar — Bob apontou para o meu veículo que estava parado logo atrás. — Quebra esse galho pra mim, estou com as costas travadas. Vou te dever essa!

— Uma cerveja mais tarde? — ela perguntou, apontando para ele como se estivesse cobrando pelo serviço.

— Com certeza! — respondeu cantarolando.

 

 A mulher, aparentemente jovem, me encarou com os olhos cerrados e não deu um sorriso se quer.

 

— Vamos lá, então — ela começou a caminhar em direção ao meu Audi.

— Não, espera — disse em seguida, fazendo-a parar no caminho. — Vocês me disseram que o Herrera iria trocar o meu pneu.

Bob, rindo acompanhado dos outros caras que estavam ali com ele, respondeu calmamente:

— Ela é Herrera.

— Aurea Herrera, muito prazer — ela acenou com a mão num tom debochado e depois seguiu até o meu carro novamente.

 

Eu rapidamente me aproximei dela e a fiz parar.

 

— Espera aí, você não pode fazer isso — disse ríspido demais. Porque eu estava tão nervoso, afinal?

— Porque não? — ela me olhou de esguelha. — Só porque sou mulher?

— Eles estão rindo de mim — apontei para os homens que estavam com Bob.

— Não liga para eles. Não estão rindo porque eu irei trocar o seu pneu, estão rindo porque você achou que eu era um homem.

Dei uma suspirada tão forte que ela ouviu e começou a rir sozinha.

— Você quer ajuda? — perguntei ao vê-la sentir dificuldades para afrouxar o parafuso da roda.

— Não, tá tranquilo.

 

          Quando ela terminou a frase, os parafusos já haviam se soltado. Herrera colocou o macaco embaixo do meu carro e depois o levantou com tanta facilidade que eu fico admirado. Seus braços eram pequenos, mas quando ela os forçou, seus músculos ficaram bem aparentes, mostrando o quão ela era forte.

 

O pneu foi retirado e ela verificou, com cuidado, o que causou o estrago nele.

 

— Você passou por cima de um prego e de um arame — ela me mostrou o buraco e depois passou o dedo sujo sobre o corte no pneu.

— Passei por obras na estrada ontem. Que má sorte! — consegui responder. Ela só sorriu.

— Se você quiser ir até a loja da oficina para comprar o pneu, eu já deixo montado pra você. — Herrera limpou os dedos em um monte de pano sujo e depois o colocou no bolso de trás da calça jeans preta rasgada nos joelhos, que usava. Ela estava calçando um coturno preto, e um pedaço de pano da mesma cor cobria seus seios e um pedaço da barriga dela. Raquel costumava chamar esse negócio de cropped.

 

          A oficina parecia pequena do lado de fora, mas quando entrei no pátio e vi todos aqueles carros parados por ali, percebi que eu estava enganado. O local na verdade era bem grande e possuía uma loja de pneus de todos os tipos, aos fundos.

 

          Fiquei admirado quando passei pela porta de vidro e me deparei com todos aqueles pneus luxuosos. Os detalhes da loja eram em preto, roxo e em alguns cantos, rosa. Devia ter sido escolha da mulher que acabara de me atender. Havia muitas outras coisas à venda ali dentro e todas em perfeito estado. Fiquei um pouco perdido em tantas opções.

 

— Posso te ajudar? — o atendente chamou a minha atenção. Eu imaginava que ali dentro eu seria atendido pela mulher dos comentários do aplicativo.

Parece que me enganei.

Quando estavam se referindo à mulher “gostosa e bonita”, no aplicativo, estavam falando de Herrera.

— Claro, preciso do modelo aro 20 para o Audi Q5 — ele assentiu e respondeu:

— Certo, gostaria de pagar com cartão?

 

          Fiz que sim com a cabeça e digitei a senha para confirmar a compra feita. Herrera apareceu na porta da loja, olhando para o relógio pendurado na parede, próximo de onde a gente estava.

 

— Conseguiu encontrar? — ela perguntou com pressa.

— Já sim, esse mesmo — ergui o pneu escolhido e comecei a carregá-lo para fora da loja.

— Me dá que eu levo — ela tomou aqueles tantos quilos de borracha das minhas mãos e o ergueu em cima da cabeça.

        

  Havia mais pessoas dentro da oficina e um dos homens tatuados e barbados que me atendeu quando cheguei, pediu para a garota dar uma mão em outro carro que estava com defeito.

 

— Você pode ir, eu peço para algum dos homens me atender — sussurrei quando ela colocou o pneu na roda e começou a apertar os parafusos.

— Não faço o serviço pela metade — ela respondeu secamente.

— Desculpe — foi tudo o que consegui dizer.

 

          Ficamos em silêncio até que ela terminasse o serviço. Quando todos os parafusos estavam bem apertados, ela soltou o macaco e se levantou.

 

— Você já pode voltar para a sua carruagem, príncipe. — Herrera suspirou e coçou a ponta do nariz, sujando parte dele.

— Príncipe? — franzi o cenho e sorri.

— Fui educada, apenas. — Ela me lançou uma piscadela e desfez o coque mal feito que estava se soltando, prendendo os cabelos num rabo de cavalo. Seus cabelos ficaram mais bagunçados do que antes. — Agora para de olhar para a minha barriga. — disse por fim, me pegando de surpresa.

— O-o quê? — gaguejei nervoso com a frase.

— Você me ouviu, Playboy.

— Você não pode me pedir para parar de te olhar se você está com a barriga toda de fora — quando as palavras terminaram de sair da minha boca, me arrependi completamente do que havia falado.

— Como é que é? — seus olhos estavam pegando fogo e percebi que ela ficou incomodada. E não era para menos.

— Olha, me desculpa, tá, eu só estou estressado com as coisas que aconteceram e...

— E nada! Só porque está com problemas, não quer dizer que pode sair falando essas coisas para as pessoas, ainda mais para uma mulher. — Herrera suspirou e por fim disse: — Seu machista!

 

          Meus olhos se arregalaram e eu rapidamente tentei me aproximar dela para pedir desculpas. Ela me afastou com as mãos e começou a andar para longe de mim.

 

— Me desculpe, Aurea, não foi minha intenção...

— Pra você é Herrera, agora vá embora, Playboy. — A jovem garota suja de graxa levantou a mão e mostrou o dedo do meio para mim.

 

Eu fiquei pasmo com tal atitude e logo consegui entender os comentários negativos no aplicativo. Mas também, quem mandou falar todas aquelas idiotices à ela.

 

— Você irritou mesmo ela — Bob comentou, ao se aproximar para me escoltar para fora da oficina.

— Ela é difícil de lidar? — perguntei preocupado.

— Um pouco, mas você se acostuma. — Bob me lançou uma piscadela e depois fechou o portão atrás de mim.

Kiane Berté

Kiane Berté tem 25 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


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