'Código Azul' - capítulo 1


Por Kiane Berté

25/10/2019 11h25 - Atualizado em 18/12/2020 20h49



 >> Este livro não é recomendado para menores de 13 anos <<

>> Todos os direitos desta obra estão reservados. Plágio é crime <<

 

Ótima leitura :)

 

 

Antes de pensar em ser médico e seguir os passos de meu pai Caio Riviere, eu queria ser poeta, escritor, ou algo que me fizesse sonhar ainda mais com a vida perfeita a que venho tendo.

 

Não sou muito de me abrir com as pessoas, mas agora que conheci Raquel estou tendo menos dificuldades com isso. Minha mãe Dora é fascinada em Raquel e eu sei que fiz uma boa escolha quando a encontrei e a convidei para tomar um café na lanchonete do hospital. Estamos juntos há dois anos e, desde então, venho preparando tudo para pedi-la em casamento. É muito cedo para isso, mas meus pais estão com pressa para que eu me case e construa uma família. Talvez isso seja o correto a fazer, mas gostaria de esperar mais um pouco até tudo estar no devido lugar.

 

Atuo como médico há cinco anos e, mesmo assim, preciso continuar estudando para chegar aonde meu pai chegou e dar orgulho para a minha família, mais do que já estou dando.

 

Tenho 28 anos, mas pareço um pouco mais novo do que deveria.  Minha vida está perfeita do jeito que está, mas eu gostaria de ter um pouco mais de diversão, às vezes. Não estou reclamando, só estou fazendo um comentário que rapidamente passou e foi embora da minha consciência.

 

Meu avô também era médico. Minha avó era enfermeira. Foi no hospital que os dois se conheceram e iniciaram uma relação. Meu pai conta que se tornou cirurgião por causa de meu avô já falecido e que desde quando soube que eu estava a caminho, me incentivou na profissão tão amada por eles. Isso, mesmo eu enchendo a barriga da minha mãe de pontapés. Ele conversava comigo através daquelas tantas camadas de pele que me escondiam do mundo.

 

Meu pai é aposentado, mas mesmo assim atende em seu consultório particular. Minha mãe é psicóloga e também tem um consultório. Raquel é filha de pais ricos — como os meus — e abandonou semestres de Artes para estudar Direito e se tornar advogada, depois que seu pai Otávio colocou em sua cabeça que arte nenhuma dá dinheiro ou um futuro brilhante.

 

Minha futura esposa parece perfeita para mim.

 

Tudo nela se encaixa de acordo com as curvas dos meus pensamentos. Ela é inteligente, prestativa demais, gosta de ouvir as poesias que crio para me distrair e, além de tudo isso, gosta de mim e de tudo o que eu faço. Ela também gosta de meus pais e isso já a torna perfeita.

 

***

 

— Que horas você precisa estar no hospital amanhã? — Raquel se aproximou de mim com o zíper do seu vestido preto de mangas longas, aberto.

— Muito cedo — respondi com um sorriso calmo e sincero.

— Pode fechar o meu vestido? — ela perguntou, já tirando os cabelos ruivos e compridos de cima de seus ombros para que eu subisse o zíper prateado de suas costas.

— Claro.

 

          Era domingo à noite e estávamos saindo para jantar depois de uma semana exaustiva de trabalho e estudos. Raquel escolheu um restaurante italiano para comermos e já havia reservado nossos lugares. Eu estava pensando em pedi-la em casamento lá mesmo, só para ver meus pais felizes quando entrássemos por aquela porta de madeira quando chegássemos em casa, pouco depois da meia-noite. Mas meus pensamentos com relação ao tempo de namoro estavam martelando na minha cabeça o tempo todo. Eles me alertavam de que ainda não era o momento e nem o lugar para aquilo acontecer.

 

          Às vezes eu não entendia minha própria cabeça.

 

          Saímos de meu apartamento e entramos no carro para seguir até o restaurante luxuoso escolhido por Raquel. Chegaríamos na hora, se não fosse por ela sujar seu vestido preto ao encostar-se em um dos carros cheio de lama estacionado ao lado do meu Audi. Esperei Raquel trocar de roupa para que pudéssemos sair e, depois de 15 minutos de espera, ela saiu do elevador do prédio usando outro vestido preto, mas de mangas curtas dessa vez. Além do look novo, ela apareceu com um blazer preto nas mãos.

 

— Ainda bem que estamos em casa ou você teria que me trazer de volta – ela suspirou enquanto retocou o batom vermelho nos lábios finos, usando o espelho do meu carro.

 

          Raquel era um pouco exigente.

 

          Tá bom, ela era exigente até demais, mas eu a amava mesmo assim.

 

Ela implica com muitas coisas, coisas pequenas que nem se quer eu pensava em notar, como por exemplo: a cor do meu jaleco ou se ele estava amassado ou não. Quem é que se preocupa se o jaleco está amassado, quando se tem muitas pessoas doentes e que precisam da gente no hospital? Ela não entendia muito dessa minha vida corrida, mas sabia que aquilo era a minha vida e que eu amava cuidar dos idosos e das crianças que estavam enfermas, esperando por uma conversa amigável comigo ou de alguma brincadeira que eu estava prestes a fazer para vê-las sorrir.

 

— Boa noite, eu me chamo Raul e serei o seu garçom hoje à noite. — Um gentil homem nos recebeu na porta do restaurante. — Vocês têm reserva? — ele perguntou ao apanhar uma grande agenda preta de capa dura de cima do balcão.

— Claro que temos reserva — Raquel respondeu indelicada.

— Preciso dos nomes de vocês para poder conduzi-los até a mesa reservada. — Raul sorriu um pouco tímido.

— Raquel Ahnert e Joe Riviere — minha bela ruiva respondeu, antes mesmo de eu abrir a boca para falar com o garçom.

— Oh, claro, vocês estão na lista — ele levantou o rosto e nos deu mais um sorriso caloroso.

— Claro que estamos! — Raquel revirou os olhos, impaciente.

— Sigam-me, por favor.

 

          Raul nos levou até uma mesa redonda aos fundos do restaurante, onde um lustre enorme iluminava a prataria sobre a toalha de seda brilhosa.

 

— Vou deixar os cardápios para vocês escolherem o que vão comer. — Raul nos entregou dois tipos de agendas pretas de capa dura, parecidas com o que ele usou para verificar se nossos nomes estavam na lista. — Gostariam de beber algo?

— Um vinho seria ótimo — respondi, antes que Raquel abrisse a boca.

— Ótima escolha — ele disse, batendo palmas. — Irei trazer um vinho novo que todos estão elogiando. Vocês vão adorar!

— Ótimo! — disse Raquel por fim. O homem se retirou e nos deixou a sós.

— Esse lugar é muito bom, Raquel. É lindo. — Comentei ao vasculhar o ambiente com os meus olhos curiosos.

— Seu pai quem me indicou — ela sorriu e cruzou os braços sobre a mesa.

— Ah — foi só o que eu consegui dizer. Tive a impressão de que meu pai escolheu o lugar somente para que eu pedisse Raquel em casamento. Mas isso não iria acontecer. Não nessa noite, pelo menos.

 

          O garçom nos trouxe o vinho cinco minutos depois, nos serviu e pediu para que provássemos. Dei o primeiro gole e saboreei. Raquel bebeu e fez a cara feia de sempre, quando algo não a agradava o suficiente.

 

— E aí, como estava? — Raul nos perguntou, animado.

— Uma maravilha! — confirmei, bebendo mais um pouco.

— E a senhorita, o que achou? — ele se virou para Raquel que descansou a taça sobre a mesa.

— Já bebi melhores.

 

          Raul ficou sem graça e logo desviou o olhar, e seu sorriso desapareceu dos lábios em instantes. Raquel logo percebeu o que está acontecendo, ao me olhar e ver que eu estava desapontado com ela.

 

— Raul, esse vinho é ótimo — mentiu descaradamente e sorriu. Qualquer um notaria que seu sorriso era falso.

— Obrigado, senhorita — Raul pediu licença e se retirou da mesa, levando nossos cardápios e nosso pedido.

— Porque falou daquela maneira com ele?

— Calma, Joe, eu só falei a verdade.

 

          Se estivéssemos em casa eu daria uma lição de moral para ela, mas como estávamos em público, decidi me calar e continuar o jantar agradável.

 

          Pedimos um tipo de risoto branco diferente e algumas outras coisas para acompanhar o prato. Comemos tudo e ainda pedimos uma sobremesa que estava tão boa quanto a janta. Depois de comermos um petit gâteau delicioso, começamos a conversar sobre o hospital e sobre a faculdade de Raquel.

 

Ela estava um pouco nervosa e ansiosa esperando por seu irmão mais velho que iria chegar de Londres em três dias. Miguel estava morando fora há 11 anos e nos visitava a cada seis meses ou mais, quando conseguia folga de seu trabalho como arquiteto. A empresa era de seu pai, mas ele trabalhava como empregado e estava se dando muito bem por lá. Raquel e ele foram criados juntos, até Miguel completar 18 anos e ir para a faculdade — época em que Raquel estava com 16. Desde então, ele se mudou para Inglaterra e permaneceu até os seus 29 anos.

 

— Gostariam de pedir mais alguma coisa? — Raul se aproximou da mesa com as mãos para trás.

— A conta, por favor, Raul — dei um sorriso educado para ele, que se retirou e voltou, segundos depois, com o caderno de acerto do restaurante. Paguei a conta com um dos meus cartões e depois nos retiramos.

 

          Entramos no carro e seguimos de volta para o meu apartamento enquanto ouvíamos ópera chata, que Raquel insistia em gostar. Raquel estava meio sonolenta e acabou cochilando, usando seu blazer preto como cobertor, mas acordou logo depois, quando eu parei o carro em um trecho movimentado.

 

— O que houve, Joe? — ela perguntou a me ver descendo do carro com ele ainda ligado.

— O carro está fazendo um barulho estranho — dei a volta no Audi e abri o capô para conferir se o barulho vinha dali.

— Volta para dentro, é perigoso ficar aqui há essa hora — ela disse ao olhar para o relógio de pulso, de ouro. — Amanhã você pode procurar uma oficina. — Eu fechei o capô e entrei no carro, dando a partida e seguindo viagem.

 

Raquel não morava no meu apartamento, mas dormia comigo sempre que podia e sempre que eu pedia. Ela tinha um pequeno closet em um dos quartos do meu apartamento e isso fazia com que ela nunca se preocupasse em buscar roupas ou qualquer outra coisa em sua casa. Então, quase sempre ela ficava comigo.

 

— Você gostou do jantar? — perguntei a ela, enquanto subíamos pelo elevador até o meu andar.

— É claro, meu amor. Tudo o que faço ao seu lado é maravilhoso — ela respondeu e me beijou. Raquel fez o elevador parar e começou a me acariciar descontroladamente. Não era a toa que eu sempre pedia para que ela dormisse aqui.

— Deixa isso para depois, Raquel. Tem alguém chamando pelo elevador.

— Você é sem graça! — Ela fez beicinho e se afastou para que eu pudesse ativar o elevador novamente. Ele nos levou ao décimo andar.

 

          Pouco depois de entrarmos no apartamento, recebi uma mensagem de meu pai. Acabei não olhando de primeira e a guardei para ler mais tarde, me ocupando apenas com Raquel me jogando sobre a minha cama de casal que estava com os lençóis brancos esticados. Depois de uma hora, enquanto minha futura mulher tomava seu banho de rosas no banheiro do meu quarto, apanhei o celular do criado mudo e procurei pela mensagem de meu pai, em meio às outras que chegaram em seguida.

 

“Como foi o jantar, meu filho? Alguma novidade?”

 

          Ri sozinho ao ler aquilo. Eu sabia que indicar aquele restaurante significava alguma coisa para ele. E por isso, respondi rapidamente:

 

“O vinho estava ótimo, papai, obrigado pela recomendação.”

 

E depois joguei o celular sobre a cama e me levantei para comer alguma coisa, antes de tomar meu banho e descansar. Pouco depois, meu aparelho vibrou e eu já sabia que era o meu pai chamando.

 

“Mas e aí, conseguiu fazer o pedido?”

 

          Respirei fundo e digitei algumas palavras para reenviar.

 

“Não, papai. Ainda é muito cedo!”

 

          Enquanto comia cereal de chocolate com leite, eu vi o nome de meu pai aparecer na tela do celular novamente. Ignorei a mensagem desta vez e excluí antes mesmo de abri-la.

 

          Raquel saiu do banheiro enrolada em seu roupão rosa e caminhou descalça pelo corredor que levava ao seu pequeno closet. Eu a segui e, enquanto a observava vestir seu pijama, peguei seu roupão úmido e o pendurei sobre o cabide do quarto.

 

— Quer jantar com os meus pais amanhã? — perguntei.

— Eu adoraria, mas não posso faltar na faculdade, porque tenho uma prova muito importante amanhã — ela respondeu, se aproximando de mim e me abraçando.

— Mas você não poderia faltar só amanhã? — beijei sua testa e ela fechou os olhos no momento em que sua pele foi tocada.

— Você faltaria no hospital amanhã se eu pedisse? — ela perguntou em seguida e eu dei um riso bobo, abraçando-a forte.

— Tudo bem, deixa para a próxima. Nos vemos na terça!

Kiane Berté

Kiane Berté tem 26 anos e trabalha como jornalista e fotógrafa. Nas horas vagas escreve suas histórias de romance curiosas e sonha junto delas com um mundo mais encantado e cheio de amor. Sonhadora, ela vê através das páginas de um bom livro a oportunidade de viajar para onde quiser sem sair do lugar


COMENTÁRIOS

Os comentários neste espaço são de inteira responsabilidade dos leitores e não representam a linha editorial do Oeste Mais. Opiniões impróprias ou ilegais poderão ser excluídas sem aviso prévio.