Jovem norueguesa monitora 450 perfis no Instagram para tentar evitar suicídios

Ela se sente compelida a agir, ao se dar conta de que muitas vezes é a última chance para aqueles que postam seu desespero online

Por Oeste Mais

13/11/2019 16:11



Ingebjørg Blindheim, de 22 anos, monitora 450 perfis no Instagram (Foto: BBC)

Enquanto dá uma olhada no seu feed de Instagram, Ingebjørg Blindheim, de 22 anos, explica porque lhe deram o apelido "a salva-vidas".

 

"Vejo muitas pessoas que querem morrer", explica a jovem norueguesa.

 

"Não vou apenas ficar vendo uma pessoa dizer que vai se matar, ignorar isso e esperar pelo melhor."

 

Intervir para ajudar usuários suicidas do Instagram não é um papel Ingebjørg teria escolhido para si. Ela não trabalha para uma empresa de redes sociais, e ela não é paga pelo que faz. Ela tampouco é qualificada para oferecer ajuda, nunca recebeu treinamento em saúde mental. No entanto, ela se sente compelida a agir, ao se dar conta de que muitas vezes ela é a última chance para aqueles que postam seu desespero online.

 

"Sinto que quando não estou ao telefone monitorando, as pessoas podem fazer algo com elas mesmas e ninguém verá", ela diz.

 

Isso implica monitorar o Instagram constantemente, identificando aqueles que estão próximos de alertar a polícia e os serviços de ambulância. Ela admite que tem noites de insônia. Ela sabe que estar tão distraída pelo celular pode irritar familiares e amigos, mas ela se preocupa que, sem sua vigilância, alguém poderá morrer.

 

"Acaba mal. Já acabou mal antes", ela diz.

 

Atualmente, Ingebjørg monitora cerca de 450 contas privadas de Instagram — aquelas que precisam de aprovação dos donos para poder segui-las. A maioria delas pertence a jovens mulheres que publicam posts sobre seus sentimentos mais obscuros. Há alguns meninos também. É um mundo secreto de pensamentos privados, imagens e confissões governadas por uma regra não escrita de "não dedure".

 

Quando ela liga para a polícia, toma cuidado para não dizer muito sobre a comunidade para não alienar seus membros. Ela diz que se sente como uma detetive, se esforçando para conseguir o máximo de informações possíveis sobre um usuário anônimo.

 

A reação que ela recebe de profissionais é mista. Às vezes a agradecem por agir, outras vezes não acreditam nela. Mais cedo nesse ano, Ingebjørg diz ter tentado fazer com que a polícia interviesse no caso de uma garota que dizia que iria tirar a própria vida. Ela conta que os policiais disseram que a garota havia ameaçado fazer isso 16 vezes antes e eles não acreditavam nela. Mas ela relata que no dia seguinte, ligaram para Ingebjørg para dizer que a garota havia concretizado sua ameaça.

 

"Eu implorei para eles checaram se ela estava OK, mas eles não me levaram a sério", ela diz.

Jovem norueguesa sabe do poder de compartilhamento online por experiência própria (Foto: NRK)

Essa jovem norueguesa sabe do poder de compartilhamento online por experiência própria. Como uma jovem adolescente lutando com distúrbios alimentares, ela começou a seguir contas do Twitter que postavam abertamente sobre sua anorexia e automutilação.

 

"Vi que recebiam muita atenção de pessoas que entendiam e se importavam e eu queria a mesma coisa porque não sentia o mesmo em relação a minhas amigas", ela diz.

 

Esse apoio é o que usuários pensam ser a parte positiva das comunidades online. Ingebjørg diz que podem ser um lugar para ouvir e ser compreendida por outros, especialmente quando adultos e profissionais de saúde às vezes aparentam não ligar ou ter julgamentos.

 

Mas o que essas redes no Instagram não são é um lugar seguro. Qualquer coisa boa que as pessoas podem encontrar nelas acaba descompensada pelas coisas negativas, diz Ingebjørg.

 

Há recompensas para postagem de pensamentos e imagens extremos — quando mais dark o pensamento, quanto mais profundo o corte, mais atenção você recebe, ela diz. Podem abrigar um senso de competição, e atuar como um manual de formas de se machucar ou até se matar.

 

"Eu acho que comunidades fazem as pessoas piores porque elas dão ideias sobre como você pode se matar, passar fome ou se livrar da comida que você come, e como você pode esconder sua doença das pessoas", diz Ingebjørg.

 

Depois de postar fotos de seu corpo desnutrido no Twitter, Ingebjørg foi contatada por uma terapeuta que a alertou que as imagens estavam encorajando os outros.

 

Ela diz que os automutiladores que ela conhecia migraram do Twitter para o Instagram e ficou mais fácil esconder o que estavam postando de pessoas das quais elas não queriam que vissem o conteúdo.

 

Quatro anos atrás, Ingebjørg e sua melhor amiga de 15 anos estavam sendo tratadas por seus problemas de saúde mental.

 

As duas receberam alta na mesma época. Ingebjørg estava confiante de que melhoraria, mas sua amiga ameaçou se matar caso fosse mandada para casa. A menina postou uma foto de trilhas de trem, e Ingebjørg ligou pra ela implorando que não fizesse nada. Sua amiga garantiu que não faria nada, mas horas depois, Ingebjørg recebeu a notícia de sua morte.

 

"É por isso que estou fazendo as coisas que faço", diz.

Do G1


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