"Minha pele colou na camisa e puxaram com uma pinça", relembra jovem que teve 50% do corpo queimado no incêndio da Kiss

Delvani Rosso, de 29 anos, foi salvo pelo irmão, no dia da tragédia, e ficou mais de dois meses internado

Por Redação Oeste Mais

05/12/2021 18h34 - Atualizado em 05/12/2021 18h34



Delvani mostrou suas cicatrizes de queimadura naquela noite trágica (Fotos: Divulgação)

Delvani Brondani Rosso, de 29 anos, foi salvo pelo irmão, Giovani, que retirou ele e outras pessoas que estavam no interior da Boate Kiss, durante o incêndio no dia 27 de janeiro de 2013.

 

Com um relato detalhado e bastante emocionado, o jovem mostrou aos jurados as marcas que ainda carrega no corpo após aquela noite.

 

“Quando eu fui caindo eu fui me despedindo da minha família, dos meus amigos, pedindo desculpas por alguma coisa que eu tivesse feito. Senti meu corpo queimar, fui caindo e desmaiei”. Ele perdeu três amigos, Henrique, Cássio e Jacob.

 

Delvani morava no município de Manoel Viana e estava visitando um amigo naquele final de semana. Era a segunda vez dele na boate.

 

O grupo de sete amigos chegou por volta da 1 hora da manhã. A fila para entrar na Kiss “dobrava a esquina”. Ele percebeu que o ambiente interno estava quente.

 

Apesar disso, a festa transcorria normalmente. Até que ele viu um rapaz pulando o balcão da copa, chamando as pessoas. “Não dei muita bola porque pensei que fosse briga”.

 

O irmão dele, Giovani, e outros amigos estavam dando uma volta, naquele momento.

 

“Quando esse menino gritou 'fogo', a gente se deu por conta que era sério quando todo mundo se virou para a saída. Nunca pensamos que seria tão sério. Entrelaçamos os braços para não nos perder. Fomos muito devagar porque era muita gente”.

 

Quando os amigos passaram do canto da copa, as pessoas começaram a ficar mais agitadas.

 

“Comecei a ouvir gritos. E começou a ficar mais intenso o empurra-empurra. Com isso, soltamos os braços. E aí, foi cada um por si. Sempre pensei que conseguiríamos sair”. Giovani lembra que percorreu mais uns três metros e as luzes se apagaram. “Comecei a enxergar a fumaça e a sentir o odor. A situação ficou incontrolável. Tu era empurrado para onde a massa ia”.

 

Quando ficou tudo escuro, Delvani escutava barulho de vidro quebrando. Ele contou que seguiu caminhando conforme podia. “Chegou uma hora em que percebi que não ia conseguir sair”. Delvani foi perdendo as forças e desmaiou. Ele só acordou quando já estava na calçada.

 

O irmão dele viu o princípio do incêndio e conseguiu sair a tempo. Foi ele quem resgatou Delvani. Giovani tirou a camisa e entrava rastejando pelo chão para puxar as pessoas. “Os homens ele puxava pelo cinto e as meninas pelos cabelos. Se ele puxasse pelo braço, tirava a pele das pessoas”.

 

Delvani falou que o irmão relatou que os bombeiros ajudavam com uma mangueira e brigadianos alcançaram uma lanterna para que ele pudesse acessar a casa noturna.

 

“Ele me disse que viu uma pessoa pesada tendo convulsões dentro da boate. Voltou e disse ao bombeiro, que não queria entrar. Meu irmão insistiu e eles entraram e resgataram a pessoa. Depois disso, ele não viu mais o bombeiro”.

 

Em estado de choque, Delvani sentia muita dor. “Cada vez que eu gritava, parecia que tinham enterrado uma faca na minha garganta”. Ele foi levado ao Hospital de Caridade de Santa Maria.

 

“Parecia uma cena de guerra. As pessoas gritando, pretas, queimadas. E eu também gritava socorro. Minha pele colou na camisa e puxaram com uma pinça. Desmaiei e fiquei 1 mês em coma”, relembra.

 

Foram mais de dois meses internado. Delvani emagreceu 20 kg, teve que reaprender a fazer coisas básicas, como caminhar e se alimentar.

 

O jovem foi transferido para o Hospital de Pronto Socorro (HPS) de Porto Alegre. “Fiquei enfaixado, imóvel. Era um prisioneiro do meu corpo. Só conseguia pensar em por que tanta dor e tanto sofrimento”. O irmão contou a ele que dois amigos, Cássio e Henrique, não sobreviveram. “Naquele momento eu queria explodir, terminar com tudo, mas nem isso podia. Apenas escorria as lágrimas. Demorou muito tempo para eu digerir tudo isso. Mas, graças a Deus, estou aqui”.

 

Ele não lembra de ter visto funcionários da boate orientando a saída do público. Não observou extintores nem brigadistas de incêndio.






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