Polícia conclui que perfurações feitas pela Vale causaram rompimento da barragem em Brumadinho

Empresa começou a perfurar uma área crítica da barragem cinco dias antes da ruptura, concluiu perícia da Polícia Federal

Por Oeste Mais

26/02/2021 14h56 - Atualizado em 26/02/2021 14h56



Tragédia deixou 270 pessoas mortas (Foto: Divulgação)

A realização de perfurações verticais foi o gatilho para a liquefação que provocou o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em 2019. A conclusão sobre a causa da tragédia, que deixou 270 pessoas mortas, foi informada nesta sexta-feira, dia 26, pela Polícia Federal (PF).

 

De acordo com a PF, a Vale contratou, em outubro de 2018, uma empresa para identificar as condições de resistência de diferentes seções da barragem. A parte mais baixa da estrutura era composta por um material mais fino, de baixa capacidade de suporte e, portanto, mais frágil.

 

A empresa contratada entregou à mineradora um diagnóstico em dezembro do mesmo ano, mas, antes de processar e analisar os resultados, a Vale deu início a perfurações verticais na barragem.

 

A mineradora tinha dois objetivos: complementar a investigação geotécnica iniciada pela contratada para identificar os materiais de cada ponto da estrutura e instalar novos instrumentos de monitoramento.

Rompimento da barragem da Vale ocorreu em 2019 (Foto: Divulgação)

"Esse trabalho começou ainda em dezembro, antes de as informações da primeira campanha serem processadas, e esse foi o erro. É como se a pessoa fosse fazer um exame de imagem e não entregasse o resultado ao médico para análise", diz o delegado responsável pelas investigações, Luiz Augusto Pessoa Nogueira.

 

A empresa começou a perfurar uma área crítica da barragem cinco dias antes da ruptura. No 25 de janeiro, quando o rompimento ocorreu, o trabalho atingiu o ponto mais frágil, o que gerou uma onda de liquefação.

 

"A perfuração induziu uma pressão de água de forma pontual em um ponto da barragem que era muito sensível, o que dobrou a pressão naquele ponto. Esse ponto sensível se rompeu por liquefação, que se propagou por toda a barragem", explica o perito criminal federal Leonardo Mesquita de Souza, responsável pelo laudo.

 

Segundo ele, os piezômetros, instrumentos de monitoramento instalados na barragem, não identificaram o processo de liquefação, que ocorreu de forma rápida. Foram 30 segundos até o rompimento da estrutura.

 

"Os piezômetros estavam sendo lidos de cinco em cinco minutos, e a última leitura, feita três minutos antes da ruptura, não mostrou nenhuma anomalia. Ou seja, a liquefação se processa de maneira tão rápida, é uma onda de ruptura tão rápida, que se formou 30 segundos antes da ruptura. Os instrumentos não conseguiram captar", explica o perito criminal federal Leonardo Mesquita de Souza, responsável pelo laudo.

 

De acordo com o perito, em uma barragem com condição de estabilidade aceitável, uma perfuração não seria suficiente para provocar o rompimento. "Só que a condição de estabilidade dessa estrutura era marginal, abaixo da aceitável pelas normas", afirma.

 

Em setembro de 2019, a PF indiciou sete funcionários da Vale e seis da consultora TÜV SÜD por falsidade ideológica e uso de documentos falsos. As duas empresas também foram indiciadas.

 

Conforme a corporação, funcionários das duas empresas celebraram contratos utilizando informações falsas contidas nos documentos de Declaração de Condição de Estabilidade (DCE), que permitiram que a barragem seguisse funcionando mesmo com critérios de segurança abaixo dos recomendados.

 

De acordo com a PF, a partir do laudo, novas diligências serão realizadas. As investigações continuam. Procurada para comentar a conclusão da PF, a Vale disse que "tomou conhecimento nesta sexta-feira, da expedição do laudo da perícia técnica da Polícia Federal sobre as possíveis causas do rompimento da Barragem I, da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG)".

 

"A empresa avaliará o inteiro teor do laudo e oportunamente se manifestará nos autos por intermédio de seu advogado David Rechulski."







Com informações do G1


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