Empresas de Xanxerê contratam mão de obra haitiana

Grupo do Haiti chegou nesta semana para trabalhar no município

Por Oeste Mais

25/01/2014 10:26 - Atualizado em 25/10/2015 14:01



Um grupo de haitianos chegou nesta semana a Xanxerê para trabalhar em indústrias do município. Somente em uma fábrica de embalagens plásticas da cidade, dez profissionais já iniciaram as atividades. Eles terão no Brasil, além da garantia do emprego e salário fixo mensalmente, diferente da realidade que viviam no país de origem, moradia custeada pela empresa por três meses e ainda aulas de português para ajudar na adaptação, já que todos falam o haitiano-crioulo, e outros francês. A mão de obra estrangeira tem sido uma tendência no país.


O empresário Alceu Lorenzon aderiu aos profissionais haitianos para suprir a falta de mão de obra disposta a atuar no setor. "Nós estamos há seis meses anunciando nas rádios, no Sine, divulgando com placas que a gente tem vagas de trabalho. Temos até 20 vagas de trabalho na indústria. No entanto, aparecem pessoas que dizem que precisam da vaga, ou que o pessoal do Sine mandou, mas que acabam não voltando para o trabalho. Mostram desinteresse. Os que vêm, metade deles já começam a faltar e ficam dentro da empresa vagando, desinteressados, sem produção e, às vezes, desobedecendo até as normas de segurança", avalia o empresário, afirmando que estes profissionais, de fato, não querem a atividade, por isso, a necessidade de optar pela mão de obra dos haitianos.


Exemplificando ainda a falta de interesse por parte de alguns profissionais, Lorenzon relata a experiência que teve em sua empresa, quando uma pessoa propositalmente teria jogado uma peça dentro de uma máquina, causando prejuízo de R$ 50 mil, além de impedir a continuidade do trabalho. O motivo, segundo ele, seria provocar a demissão em busca do seguro desemprego. "É evidente que não são todos desinteressados, quem quer trabalhar já está no mercado ou aproveitando uma das muitas oportunidades, pois tem muito emprego. Os que ficam rodando de uma empresa para outra são sempre os mesmos", reforça.


Lorenzon classifica que a vinda de trabalhadores de outros países, não somente do Haiti, mas do Paraguai e de outros da América Latina é a solução para as empresas conseguirem se manter. "É a solução para nos mantermos de portas abertas, por que ou as empresas fecham as portas, elas precisam produzir, atender os clientes e, para isso, precisam de mão de obra. Qual a solução que nós tivemos hoje? Buscar esses estrangeiros para suprir a necessidade", acrescenta.


Chegada dos haitianos em Xanxerê


Dez homens, que já trabalham na Alcaplas, chegaram em Xanxerê na última segunda-feira, dia 20. Todos passaram por um procedimento de integração na empresa e, registro. Os trabalhos foram oficialmente iniciados na terça e quarta-feira. "Nós estamos surpresos, eles produzem pelo menos 50% a mais, com agilidade, vontade. Os trabalhos não são difíceis, são manuais e que a pessoa só precisa fazer o movimento e eles fazem isso sorridentes, contentes pela oportunidade de trabalho e pedindo ainda mais oportunidade, para que possam crescer. A pergunta que eles fazem é “o que eu posso fazer para crescer aqui na empresa”? Tivemos que explicar que aqui no Brasil o limite de trabalho é oito horas por dia, ou até dez, pagando hora extra, pois eles gostariam de trabalhar mais. Estão acostumados a trabalhar mais", conta.


Adaptação no município e na empresa


Para adaptação dos funcionários na empresa houve a contratação de uma professora de francês, que fez a integração explicando as normas de segurança no trabalho, apresentou o contrato, além do acompanhamento de uma assistente social. "O problema maior é o idioma, mas eles já estão com muita vontade de se adaptar. Já chegam dizendo bom dia! Já estão aprendendo algumas palavras, as principais e a gente está percebendo que a comunicação em 30 dias não será mais uma dificuldade", acredita o empresário.


Par ajudar ainda mais no idioma, os trabalhadores devem participar – duas vezes por semana – de aulas de português, oferecidas pelo Sesi. Os encontros estão previstos para ocorrerem durante seis meses.


A empresa também alugou uma casa, mobiliou e disponibilizou toda infraestrutura, com utensílios e roupas de cama para que os profissionais pudessem se instalar em Xanxerê. "Por três meses eles terão essa assistência do lar e da alimentação, além do salário como qualquer outro trabalhador. Quando eles chegam no Brasil, em Brasileia (Acre), são nacionalizados e recebem documentos como CPF e Carteira de Trabalho, então eles estão trabalhando como qualquer outro trabalhador, com os mesmos direitos e obrigações", explica.


O visto de permanência dos haitianos no país é de seis meses. Quando o período é encerrado, precisam se apresentar para atualizar as informações de onde moram e trabalham, para assim renovar o visto junto a Polícia Federal. "Agora nós trouxemos dez homens, por enquanto vamos ver como eles se adaptam. Colocamos eles em funções básicas, mas já percebemos que alguns tem boa formação e já estão sendo promovidos para serviços melhores, utilizá-los para melhores funções, não para tão básicas como se pensava", avalia.


Dos que já atuam em Xanxerê, alguns deles trabalhavam no Haiti no comércio, em farmácias, em mecânica de automóveis, como técnico em informática, mestre de obras, pedreiro e azulejista. Além da Alcaplas, empresas como Frigorífico Unibom, Continental e Perfimax também já contam com trabalhadores haitianos em Xanxerê. Na região, no município de Xaxim soma mais de 130 profissionais estrangeiros, atuando na Rafitec e Frigorífico Aurora.


Por que os haitianos vêm trabalhar no Brasil?


Em janeiro de 2010 os haitianos viram seu país ser devastado por um terremoto de sete graus de magnitude. Esse fenômeno agravou os problemas sociais do Haiti, com as casas destruídas, milhares de pessoas acabaram utilizando as ruas como moradia. Com isso, a opção foi ultrapassar fronteiras em busca de sobrevivência. Foi no Brasil que muitos deles encontraram alternativa. Hoje, estima-se que 10 mil haitianos já estejam em diversas cidades do país.


Muitos deixaram a família por lá, e com o salário que ganham aqui sustenta os parentes. Lorenzon relata, emocionado, que alguns dos profissionais que estão em Xanxerê ficaram mais de três meses sem conversar com a família. "Disponibilizamos o telefone para que todos pudessem manter contato com as famílias e relataram onde estavam, dando notícias. Foi muito emocionante, alguns deles desde que saíram do Haiti não tinham mais falado com os familiares", relembra.


Saiba mais sobre o Haiti


O Haiti é uma ilha e está localizado América Central. Sua extensão territorial é de 27.750 quilômetros quadrados, totaliza em seu território mais de 10 milhões de habitantes. Antiga colônia francesa, o país é a primeira república negra do mundo, sendo fundada em 1804 por antigos escravos. A população haitiana presencia uma guerra civil e muitos problemas socioeconômicos. O Haiti é o país economicamente mais pobre da América. Aproximadamente 60% da população é subnutrida e mais da metade vive abaixo da linha de pobreza, ou seja, com menos de 1,25 dólar por dia.




TSX / Cristine Maraga


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