Dólar supera R$ 5,72 após Moro deixar Ministério da Justiça

Interferência política em exoneração de Maurício Valeixo do comando da Polícia Federal serviu de estopim para a saída do ex-juiz federal

Por Oeste Mais

24/04/2020 16h10 - Atualizado em 02/05/2020 13h54



A moeda americana acentuou o movimento de alta contra o real, nesta sexta-feira, dia 24, após Sérgio Moro confirmar sua saída do Ministério da Justiça no fim desta manhã. Às 15h40, o dólar comercial era vendido a 5,728 reais, em alta de 3,6%. Mais cedo, o Banco Central realizou dois leilões de swap cambial. Embora tenha aumentado de forma pontual a liquidez no mercado, a medida foi insuficiente para represar a forte demanda pela moeda. No câmbio turismo, o dólar turismo avança 4,8%, cotado a 6,04 reais.

 

O estopim para o pedido de demissão de Moro foi a exoneração de Maurício Valeixo do comando da Polícia Federal. Em seu discurso de despedida do ministério, Sérgio Moro citou que a promessa de carta branca feita por Bolsonaro não estava sendo cumprida e que não havia motivos técnicos para a troca do comando, apenas razões políticas.

 

Sondada desde a tarde de ontem, sua saída tem sido mal vista pelos investidores. Para muitos deles, a saída de Moro pode intensificar ainda mais a tensão política no país, tendo em consideração o apelo popular do ex-juiz federal.

 

“O Bolsonaro foi eleito devido ao time técnico que montou. Agora, tudo que fez com que ele fosse eleito não está sendo cumprido. Não tem como manter investimentos em um país desse”, disse Jefferson Laatus, estrategista-chefe do Grupo Laatus.

 

Sem perspectiva de aumento dos juros, André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos, vê no dólar a principal saída para se investir contra o Brasil. “O mal estar não vai se revelar em juros mais altos no curto prazo, mas no dólar mais caro”, disse.

 

A disponibilidade que o presidente Bolsonaro tem demonstrado em se desfazer de nomes fortes do governo tem feito o mercado se perguntar sobre o futuro do ministro da Economia, Paulo Guedes, no governo. Para Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset, o “Plano Marshall”, proposto pelo ministro da Casa Civil, Braga Netto, está fazendo uma “fritura” de Guedes, que se opôs ao projeto, que prevê gastos de 300 bilhões de reais em infraestrutura. “Esse plano só não tem o apoio dele [Guedes] como não é um plano. Não tem nem data definida, não tem nada”, disse.

 

Apesar do cenário interno negativo, as moedas emergentes tinham um dia misto, com algumas ganhando força contra o dólar e outras perdendo. Nos Estados Unidos, principal mercado do mundo, o tom era positivo, após o Congresso ter aprovado o estímulo de 484 bilhões de dólares, que devem ser destinados a hospitais e pequenas empresas.

 

Assim como o dólar, o risco país também segue em alta de 8,5%. De manhã, o credit default swap (CDS) – papel que funciona como um seguro contra o calote de países – era negociado a 330 pontos e, após o pedido de demissão de Moro, passou para 358 pontos. “O anúncio pega de surpresa o mundo inteiro, pois ele era um dos alicerces do governo. O aumento do CDS, a queda do Ibovespa e a alta do dólar mostram o desagrado do mercado. Fica no ar agora a situação de Paulo Guedes”, diz Pablo Spyer, diretor da Mirae Asset.

Da Revista Exame


COMENTÁRIOS

Os comentários neste espaço são de inteira responsabilidade dos leitores e não representam a linha editorial do Oeste Mais. Opiniões impróprias ou ilegais poderão ser excluídas sem aviso prévio.