"Ele deu as costas para mim", relata mecânico que ajudou a socorrer crianças na creche em Saudades

Ezequiel Vargas chegou a entrar na mesma sala que Fabiano Kipper, mas não sabia que se tratava do agressor

Por Kiane Berté

05/05/2022 14h10 - Atualizado em 05/05/2022 18h47



Keli, Mirla, Sarah, Murilo e Anna Bela tiveram a vida interrompida brutalmente (Foto: Divulgação/Oeste Mais)

Era passado das 10 horas da manhã, daquele dia 4 de maio, quando o mecânico Ezequiel Vargas Pimentel, de 36 anos, ouviu os primeiros pedidos de socorro vindos da rua debaixo de onde trabalha.

 

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Ezequiel, sem entender muita coisa, deixou o serviço e correu pela rua Quintino Bocaiúva, no município de Saudades, no Oeste de Santa Catarina, em busca dos chamados que o preocupava.

 

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“Tem alguma coisa errada”

 

Ao se aproximar do muro que divide a Creche Pró-Infância Aquarela da rua que dá acesso à loja de Ezequiel, o profissional percebeu que se tratava de algo grave.

 

Sem saber realmente o que iria encontrar no local, o mecânico procurou um funcionário da loja e pediu para que ele apanhasse algum objeto para poder se defender.

 

Ezequiel correu até a frente da escola infantil, onde já havia algumas pessoas aglomeradas, e questionou uma professora sobre os gritos que ouvira pouco antes. A mulher, bastante assustada, respondeu que havia um homem armado fazendo vítimas no interior de creche.

 

“Meu Deus, pensei comigo, preciso entrar”, disse ao saber que as crianças estavam do lado de dentro com o criminoso.

 

Pimentel andou a passos vagarosos para o interior da unidade, temendo pelo que iria encontrar no caminho.

 

“Nisso, eu já vi uma vítima, que era uma das professoras. Ela estava com uma mancha de sangue e estava caída”, relata.

 

O homem logo avistou outra educadora, que estava trancada em outro espaço, com a porta entreaberta, e que o avisou de que o rapaz estava na sala ao lado.

 

“Feche ele no banheiro”, foi o que pediu a professora.

Henryque foi uma das seis pessoas atacadas na creche, mas o único sobrevivente (Fotos: Divulgação)

“Ele deu as costas para mim”

 

O mecânico andou mais um pouco e adentrou a sala informada pela mulher. Ezequiel até se recorda de ter visto Fabiano Kipper Mai, o autor do crime, dentro do local, mas relata que, de primeiro momento, não imaginou que se tratava do assassino.

 

“Ele meio que deu as costas para mim, e não veio em direção a mim, foi em direção contrária. Pensei até que fosse um agente, um professor que poderia estar trabalhando ou tentando fechar ele [o autor] no banheiro”.

 

Imaginando que aquele rapaz estivesse ali auxiliando, Ezequiel começou a ajudar duas crianças que estavam caídas no chão, machucadas, mas que ainda apresentavam os sinais vitais, diferente de outras que não se mexiam mais.

 

“Eu peguei essas duas e saí correndo para fora. Eu entreguei uma para uma professora, e o outro que eu vi que estava mais ferido, eu segurei e corri até a esquina de novo”.

 

Foi nesse momento em que o morador ligou para a esposa e pediu que lhe trouxesse o carro para poder se deslocar até o hospital. Pedindo para ligarem para a polícia e bombeiros, Ezequiel deixou a criança resgatada na maca com os profissionais e voltou até a creche Pró-Infância.

 

No retorno, Fabiano já havia sido contido por outros moradores que também foram prestar socorro às vítimas. O jovem estava ferido e com bastante sangue, conforme relatou Ezequiel, que ficou chocado quando soube que aquele era o verdadeiro assassino.

 

“Ele tentou se levantar, e nisso já tinham tirado a espada dele. Seguraram ele e pegamos uma corda e foi amarrado os braços dele”.

 

A agente educacional Mirla Renner foi encontrada logo depois, caída em outra sala, ainda com vida. Ezequiel também ajudou a jovem, na época com 20 anos. Logo em seguida, a sirene do Corpo de Bombeiros já foi ouvida do lado de fora.

 

Mirla Renner e o bebê Murilo Massing, de 1 ano e 9 meses, ambos socorridos com ajuda de Ezequiel, foram levados com vida ao hospital, mas não resistiram aos ferimentos.

 

“Não tinha mais nada pra ser feito”.

Nova fachada da creche Pró-Infância Aquarela, que passou por reforma após o ataque (Fotos: Prefeitura de Saudades)

Pais que se conheciam

 

Uma das vítimas de Fabiano foi a professora Keli Adriane Aniecevski, de 31 anos. Algo bastante curioso sobre o caso, é que José Anieckevski, pai de Keli, era amigo de Mário Mai, pai do rapaz. Ambos se encontravam aos sábados para jogar bocha, segundo o que foi divulgado pelo Uol Tab no ano passado. Diferente dos pais, o autor do crime e a vítima não se conheciam.

 

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Mário Mai contou em uma entrevista ao Uol Tab, que o filho nunca mostrou agressividade e que era um menino bastante prestativo. Além disso, relatou que Fabiano costumava sofrer bullying na escola que frequentava na cidade.

 

Junto com Keli, Mirla Renner e o menino Murilo, morreram também a pequena Sarah Luiza Mahle Sehn, de 1 ano e 7 meses e Anna Bela Fernandes de Barros, de 1 ano e 8.

Espaço onde ocorreu o ataque passou por reforma (Foto: Prefeitura de Saudades)

Um sobrevivente 

 

No Dia das Mães do ano passado, a costureira Adriana Hubler recebeu o maior presente que podia imaginar ganhar. Ela conseguiu levar o filho Henryque para casa.

 

O menino Henryque Hubler, hoje com dois anos de idade, foi uma vítima sobrevivente da tragédia. Ele inclusive foi resgatado pelo mecânico Ezequiel Pimentel.

 

A criança foi entregue a uma professora que mora ao lado da creche, e levado ao hospital do município com ferimentos graves pelo corpo.

 

A criança foi atingida na bochecha, no lábio, barriga, e também teve uma perfuração em um dos pulmões. Por conta do grave quadro clínico, Henryque foi transferido ao Hospital da Criança, de Chapecó, ficando internado por seis dias.  

 

Ao retornar para casa, o menino foi aplaudido e recebido com festa, com direito a música, orações e decoração para as "boas-vindas".


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