Sem tempo para o agora: conheça desafios de quem luta contra ansiedade e veja orientações de psicóloga

A ansiedade é um reação natural que todos nós sentimos em algum momento. Porém, quando é muito intensa e frequente, ela afeta negativamente a vida das pessoas

Por Andressa Maria Guinzelli

27/01/2021 15h50



Imagine que você fará uma entrevista de emprego para a vaga dos seus sonhos. Enquanto se observa em frente ao espelho, o coração fica acelerado, as mãos trêmulas e o estômago começa a doer, um suor frio toma conta da sua pele e  ao mesmo tempo seus pensamentos se destinam a tudo que poderá ocorrer e a incerteza bate à porta.  “E se a moça do RH não gostar de mim? E se eu falar uma bobagem?” “Será que sou capaz?”. 

 

Muito ao contrário do que se pensa, a ansiedade é uma reação natural do corpo e que, até certo ponto, é benéfica, o verdadeiro problema surge quando perdemos o controle sobre ela e o que deveria ser um sentimento comum, começa a interferir em nossas vidas. 

 

Hoje muito se fala sobre ansiedade e as complicações que ela traz para a vida de cada indivíduo. É uma emoção vaga, desagradável, que traz medo e tensão.

 

Para entendermos melhor e deciframos nosso entendimento entre o sentimento de ansiedade, estar ansioso e sofrer de transtorno de ansiedade o Oeste Mais convidou a psicóloga Tayná Andreza de Macedo Badia, pós-graduada em diagnóstico e avaliação psicológica, para explicar um pouco mais sobre o tão temido mal do século. 

 

Segundo a psicóloga, que trabalha em Ponte Serrada, todo  mundo teve, no mínimo, um episódio de ansiedade na vida. “Isso é algo natural, e acontece em episódios agradáveis da nossa vida, como quando sentimos aquele friozinho na barriga para que a data de uma viagem esperada chegue logo, ou a data de um evento importante. Mas quando ela aparece de forma recorrente e negativa, em múltiplas áreas do sujeito causando medo, mal estar, e interferindo na rotina do sujeito é um sinal de alerta e de que é preciso buscar ajuda”.

 

Os sintomas de ansiedade são bastante característicos e não muito difíceis de serem notados, justamente por trazerem uma manifestação física. Inclusive, há pessoas que buscam um cardiologista, por exemplo, por receio que haja algo errado com o seu coração, como o caso de um homem de 29 anos, morador de Passos Maia, que preferiu não se identificar, que há cerca de 12 anos faz tratamento contra o transtorno.

 

“Inicialmente eu tinha os mesmos sintomas de um cardíaco, além da compulsividade por alimentação, sufocava quando tentava dormir, alteração na pressão cardíaca”, relembra. 

 

Ao buscar ajuda de uma psiquiatra, descobriu sofrer com o transtorno de ansiedade, onde faz tratamento constante com medicamentos desde então.

Ao experimentar uma crise de ansiedade, pare o que estiver fazendo e comece a respirar lentamente (Foto: Divulgação)

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) 18,6 milhões de brasileiros (9,3% da população) convivem com o transtorno. O tabu em relação ao uso de medicamentos e pela busca de auxílio profissional, entretanto, ainda permanece. 

 

“Os principais sintomas são primeiramente quando a ansiedade está ligada a uma outra emoção, o medo, geralmente esse medo é relacionado ao futuro e esse medo também é desproporcional à ameaça real, além de ser sempre catastrófico (a pessoa sempre vai acreditar que o pior irá acontecer sem pensar que pode ocorrer coisas boas), a pessoa fica inquieta, nervosa, sentem um “frio na barriga” um aperto no peito, “nó na garganta”, sudorese, sensação de falta de ar, tremores, boca seca, mãos frias e suadas, cansaço, insônia, entre outros. Além disso, pode interferir também na eficiência comportamental do sujeito, fica focado no problema, não consegue se concentrar nas tarefas do dia, suas habilidades sociais decaem”, destaca a psicóloga. 

 

O tratamento 

 

O primeiro passo e talvez o mais difícil é a aceitação da doença e entender a necessidade de um tratamento com profissionais qualificados, onde segundo a psicóloga Tayná, o tratamento é individual e depende da intensidade dos sintomas de cada pessoa. 

 

“O tratamento para o sujeito ansioso depende muito de cada sujeito e da intensidade dos sintomas. Geralmente a psicoterapia é o principal tratamento, juntamente com um trabalho multiprofissional quando existe a necessidade de uso de medicamentos. A terapia cognitivo comportamental é uma das áreas psicológicas mais adequadas para se tratar ansiedade por ser mais objetiva, e trabalhar não só a mente como também o comportamento do sujeito, seus resultados são apresentados em um período mais curto de tempo, além dela ser mais objetiva focada no aqui e no agora, ou seja, no que está causando mal estar, ansiedade no sujeito naquele momento da sua vida”, destaca a profissional.

 

Tayná ainda indica a quem está enfrentando o transtorno, a busca pelo autoconhecimento, além de compreensão de seus sentimentos e o que está por trás de cada comportamento, pensamento.

Sintomas se manifestarem de formas diferentes em cada pessoa (Foto: Divulgação)

Outras dicas da profissional são: fazer exercícios físicos e manter uma boa alimentação. “Quando se sentir ansioso, busque fazer algo que tente tirar seu foco do que está causando ansiedade, fazer exercícios físicos é comprovado que auxiliam na ansiedade, além disso, se desligar um pouco das redes sociais, ter um tempo pra você. Compreender que seus pensamentos são só pensamentos, e não a realidade, muitas vezes o que pensamos não vai de fato acontecer”.

 

A psicóloga ainda complementa: "Pessoas ansiosas geralmente necessitam ter o controle de tudo, e quando isso não é possível, a ansiedade vem. Nesses casos, buscar compreender o que está no meu alcance e o que não está, também é uma boa forma de diminuir o medo e a ansiedade. Por fim, fazer terapia, ter esse tempo de cuidar de si mesmo, de se autoconhecer é muito importante e válido não apenas para a saúde mental, como física, já que somos interligados, precisamos cuidar de nós como um todo”.

 

Depressão e ansiedade: lado a lado

 

Embora frequentemente apareçam ao mesmo tempo, a ansiedade e a depressão não são sinônimos. Tayná comenta que é comum indivíduos com depressão passarem por ansiedade e, da mesma forma, pessoas com ansiedade ficarem deprimidas e entrarem em depressão.

 

“Estes são dois dos diversos problemas mais comuns vivenciados na sociedade, ambos são apresentados como uma série de desafios emocionais e funcionais, tornando um agravamento na vida do indivíduo quando não realiza o tratamento correto, por isso a importância de tratarmos a ansiedade como uma doença que necessita de cuidados e de que se tenha um cuidado maior, ela sozinha causa dor, sofrimento, físico e mental,  interfere na rotina não apenas do sujeito, mas de todos que estão no seu convívio, além de desenvolver comorbidades dificultando ainda mais a qualidade de vida da pessoa.”, revela.

 

Um assunto que demanda muito cuidado e atenção, além de possuir diversas ramificações, a ansiedade torna-se o mal do século e buscar um tratamento, com profissionais adequados, não deve ser taxado como motivo de vergonha, mas sim de amor próprio. Escolha se permitir a viver sem medo, procure ajuda.


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