Influência das línguas indígenas e africanas na língua portuguesa

17/11/2020 13h02 - Atualizado em 17/11/2020 13h02



Por Natalyê Fonseca Steffen Miranda, mestranda em Estudos Linguísticos, pela Universidade Federal da Fronteira Sul.

 

As línguas estão em contato há muitos anos, de modo que exercem grandeinfluência entre si. O contato linguístico pode, por exemplo, interferir na formação de uma língua, gerar empréstimo linguístico - que é quando uma língua se apropria de elementos de outra língua – ou também preceder o surgimento de novas línguas. Tomamos como ponto de partida a língua portuguesa falada no Brasil e a língua Portuguesa falada em Portugal; elas são gramaticalmente a mesma língua, entretanto, porque possuem aspectos tão diferentes?

 

 Vamos tentar responder a partir da história do Brasil. A história do Brasil é marcada por muitos momentos em que presenciou-se línguas em contato, como os ocorridos pelo contato entre povos residentes no Brasil e imigrantes. Destacaremos dois momentos de contatos linguísticos e como eles influenciaram na formação da língua portuguesa do Brasil.

 

Primeiramente, a partir de 22 de abril de 1500 temos o contato do indígena com o português, quando os portugueses chegaram no Brasil.No ano de 1600, era possível verificar que entre o português europeu e a língua indígenatubinambá, havia um contato tão intenso que muitas pessoas falavam ambas as línguas (eram bilíngues); durante todo o período colonial (de 1530 a 1822) surgiram trabalhos importantes dos padres sobre as línguas indígenas.

 

Em um segundo momento, ainda no período colonial,temos a imigração involuntária de africanos para o Brasil, que foi quando os portugueses começaram a trazer africanos para o Brasil na condição de escravos. O tráfico ocorreu durante os anos de 1540 a 1850, o que proporcionou a introdução de cerca de 4 milhões de africanos no país. Ferraz (2007) cita que eles eram oriundos de diversas regiões e possuíam 1900 línguas, originadas de 4 troncos linguísticos: congo-cordofaniano, nilo-saariano, afro-asiático e coissã. No século XVIII, predominavam duas “línguas gerais” dos africanos e descendentes no Brasil: o nagô ou ioruba.

 

Segundo Altenhofen, (2011, p. 32) “houve grande miscigenação entre homens portugueses e mulheres indígenas no início da colonização, e mais tarde, ao longo dos séculos também com mulheres africanas”.

 

Constata-se que as línguas indígenas e africanas exerceram grande influência sobre o léxico (vocabulário) do português brasileiro.O dicionário da língua portuguesa de Morais (primeira edição em 1789) “já registrava razoável número de itens lexicais mais usados no Brasil do que em Portugal ou formas portuguesas já diferenciadas no território brasileiro.” (FERRAZ, 2007, p. 52).

 

Entre os anos 1500 e 1800 formava-se no Brasil um novo povo, com uma nova cultura e nova língua. No século XVIII, os portugueses da Europa que viviam no Brasil já falavam um dialeto brasileiro.



Conheça alguns exemplos de termos incorporados ao português que se originam de línguas indígenas e africanas, citadas por Ferraz (2007):

 

tupinismos — nomes de pessoas e de lugares: Araci, Aracaju, Avaí, Caraguatatuba, Guanabara, Guaporé, Jabaquara, Jacarepaguá, Jundiaí, Moema, Niterói, Parati, Piracicaba, Tijuca; nomes de plantas e de animais: arara, abacaxi, araticum, buriti, caju, capim, capivara, carnaúba, cipó, cupim, curió, imbuia, ipê, jaboticaba, jacarandá, mandacaru, mandioca, maracujá, piranha, quati, sucuri e tatu;

 

Nomes comuns: arapuca, caatinga, catapora, moqueca; capinar, empipocar etc.;

 

b) africanismos — a maioria dos vocábulos procede do nagô ou ioruba (grupo sudanês) e do quimbundo (grupo banto): Bangu, Carangola, Caxambu, Iemanjá, (nomes próprios); acarajé, cachumba, caçula, cafuné, camundongo, chuchu, cachimbo, dendê, fubá, maxixe, molambo, moleque, samba, senzala (nomes comuns); batucar, cochilar, xingar etc.;

 

c) vozes ameríndias — umas poucas palavras oriundas de outras línguas indígenas brasileiras que não o tupi: Maceió, Xiquexique etc; oriundas de línguas americanas não-brasileiras: canoa, cacique, bagre, gaúcho, cacau, chácara, mate etc.

 

A influência indígena sobre o léxico do português brasileiro ainda pode ser observada em expressões como andar na pindaíba, estar (ficar) de tocaia etc.        

É importante destacar que segundo Thomason (2001) os contatos linguísticos podem ser estáveis ou instáveis; os contatos estáveis ocorrem quando se tem relações pacíficas, de modo que permite que as línguas permaneçam em contato por muito tempo; já os contatos instáveis são evidenciados por invasões e conquistas de terras e as situações de contato se mantem em curta duração. Com base nas afirmações de Thomason, ao observar as situações abaixo, podemos analisar a possibilidade de que o contato linguístico relacionado à história do Brasil no período colonial tenha ocorrido de maneira instável.

 

Atualmente, no Brasil há 180 línguas indígenas distintas (Ferraz, p. 46), com aproximadamente quarenta e três famílias linguísticas, originadas, segundo estudos recentes, de dois troncos, o “tupi” e “macro-jê, sendo que antes da colonização pelos europeus, no Brasil, se falava aproximadamente 1200 línguas por diversos povos indígenas. Vemos que a partir do contato entre portugueses e indígenas o número de indígenas diminuiu drasticamente, e consequentemente muitas línguas indígenas desapareceram.

 

Outra realidade que possivelmente venha corroborar com nossas hipóteses de queos contatos linguísticos no Brasil tenham ocorrido de maneira instável é o fato de que apesar dos africanos que migraram para o Brasil possuírem um vasto aparato linguístico, com o passar do tempo o uso das línguas africanas se reduziram apenas aos rituais e para conversar secretamente.

 

Além dos momentos citados houve uma imigração para o Brasil de milhões de europeus e asiáticos entre os anos de 1850 e 1920que resultaram em outras situações de contatos linguísticos que também influenciaram a língua portuguesa, assim como, a partir de 2010 um novo movimento de imigrantes de países da América e África ocorreu.

 

Tendo em vista essas perspectivas podemos entender que a formação do português brasileiro é dada a partir dos insumos e aportes das línguas africanas, indígenas e o português lusitano e suas consequências sócio-políticos-culturais. A partir desses contatos, muitas línguas morreram e a língua portuguesa foi sendo transformada.

 

A partir da breve exposição desse artigo, podemos perceber algumas das influências que formaram o português brasileiro através da história. Destaca-se que essa é apenas uma das línguas faladas no nosso país, pois,atualmente, existem aqui aproximadamente 330 línguas(Altenhofen, 2013), ou seja, vivemos em um país em que há uma grande diversidade de línguas, e assim como ocorreu e ainda ocorre com a língua portuguesa, todas essas línguas,quando em contato, exercem influênciasentre si. Agora,você pode dimensionar a riqueza e a grandeza de como se dáo contatos linguísticos em todas aslínguas que temos?

           

Referências

 

ALTENHOFEN, Cléo V. et al. Os contatos linguísticos e o Brasil: Dinâmicas pré-históricas, históricas e sócio-políticas. Os contatos linguísticos no Brasil.Editora UFMG, 2011.

 

ALTENHOFEN, Cléo V.O “território de uma língua”: ocupação do espaço pluridimensional por variedades em contato na Bacia do Prata.Revista de Letras Note@mentos, v. 6, n. 12, p. 31-52, jul./dez, UNEMAT, Sinop, 2013.

 

FERRAZ, Adernande Pereira. O panorama lingüístico brasileiro: a coexistência de línguas minoritárias com o português. Filologia e Linguística Portuguesa, n. 9, p. 43 a 73,UFMG, 2007.

 

THOMASON, Sara G. LanguageContact. Edinburgh University Press, p. 1 a 26, George Square, Edinburg, 2001.


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