Tu ou você?

02/11/2020 11h03 - Atualizado em 04/11/2020 09h06



Por Sara A. S. Carvalho 

Mestranda em Estudos Linguísticos pela UFFS

 

Já parou para pensar qual forma se utiliza mais? Tu ou você?

 

Essa é uma importante pergunta do ponto de vista da variação linguísticaem relação ao uso do pronome de referência à segunda pessoa, sendo esse um tema que desperta o interesse de pesquisadores (FARACO, 1996).

 

Quando analisamos a fala do brasileiro, é interessante notar que enquanto pesquisas apontam, em determinadas regiões, a ocorrênciada incorporação do pronome tu ao seu repertóriode formas pronominais, como em Brasília (SCHERRE; DIAS; ANDRADE; LUCCA; ANDRADE, 2011), variados estudos demonstram uma projeção maior no uso de você, em relação ao tu, em outras capitais brasileiras (CARDOSO, 2008).

 

Cintra (1972), nos mostra que se voltarmos no tempo e buscarmos em textos das crônicas e cavalarias do século XIV, ficaremos surpresos ao perceber a ausência de tratamentos do tipo nominal. O autor comenta que “só se encontram frases em que, como sujeito, aparecem os pronomes tu e vós e que, consequentemente, o verbo está na 2ª pessoa do singular ou plural” (CINTRA, 1972, p.17, grifo do autor).

 

Nesse período é possível verificar a utilização da forma de tratamento Vossa Mercê somente para o rei, para a rainha e para um duque estrangeiro, semelhante à Vossa Alteza e Vossa Senhoria. No século XVII,muitos que se consideravam de categoria alta e preocupados com seu status, não queriam mais o tratamento Vossa Mercê, muito menos as formas consideradas foneticamente decadentes como vossancê ou você (CINTRA, 1972, p.30, grifo do autor). Esse período de mudança na fala das pessoas, coincide também com o período de mudança na sociedade portuguesa. Sobre isso, Faraco (1996, p. 117) comenta:

 

[...] se uma sociedade passou ou está passando por rápidas mudanças que se refletem nas relações interpessoais possíveis, pode-se esperar que mudanças lingüísticas na área do tratamento venham a ocorrer, com possíveis conseqüências para outros aspectos da estrutura da língua.

 

Quando pensamos no Brasil, na atualidade, conforme Faraco (1996) e Cardoso (2008), você é o pronome mais usado, sendo o tu mais restrito a algumas variedades regionais, diferente do que ocorre em Portugal. Isso certamente tem a sua razão pelo contexto histórico do nosso país, pois os que aqui chegaram a partir do fim do século XV, faziam parte da população não aristocrática, sendo comum entre esses o uso de Vossa Mercê e suas variantes. “Nesse tempo, estavam em etapa bastante avançada tanto o processo de arcaização de vós, quanto o processo de simplificação fonética de Vossa Mercê” (FARACO, 1996, p. 122).

 

Em Castilho (2010, p. 479), sobre o tratamento Vossa Mercê, encontramos que

 

A gramaticalização desse sintagma se produziu simultaneamente nos seguintes campos: (1) alterações fonológicas bilineares  (=fonologização) de Vossa Mercê: numa linha tivemos as derivações Vossa Mercê > vosmecê > você > ocê > cê; em outra linha, tivemos Vossa Mercê > vosmicê > vassuncê; (2) alterações sintáticas: um sintagma nominal é reanalisado como pronome pessoal; (3) alterações pragmáticas: Vossa Mercê era um tratamento dispensado aos reis.

 

Assim, percebemos que estamos diante de diferentes variantes, e que pela mudança ocorrida até o momento, não podemos descartar a possibilidade de queoutras variações possam representar uma mudança em curso, principalmente quando verificamos as alterações fonológicas ocorridas, indo hoje do você ao cê, como demonstrado por Castilho (2010).

 

Em pesquisa realizada sobre a variação de tu e você no português falado no sul do Brasil, verificou-se o emprego de você nas áreas bilíngues do Rio Grande do Sul, “o que se explica pelo modo de aquisição do português por essas populações, essencialmente via escola” (LEÃO; KLASSMANN; ALTENHOFEN, 2002). Em Santa Catarina ocorre um elevado índice de sujeito oculto, já que esta é uma área de transição entre a área de uso de você, predominante no Paraná, e de tu mais presente na fala de monolíngues lusos do Rio Grande do Sul.

 

Entender os processos de variaçãoque podem resultar na mudança de determinados sistemas (WEINREICH;LABOV; HERZOG, 2006 [1968]) é de grande importância, pois os diferentes estudos realizados revelam fenômenos muito complexos, demonstrando que a busca pelo conhecimento da língua implica também em conhecimento de todo o nosso contexto histórico, social e cultural.

 

Referências

 

CARDOSO, S. A. M. Caminhos dos pronomes pessoais no português brasileiro: considerações a partir de dados do projeto ALIB. Disponível em: <http://simelp.fflch.usp.br/sites/simelp.fflch.usp.br/files/inline-files/S2209.pdf>. Acesso em: 28 set. 2020.

 

CASTILHO, A. T. Nova gramática do português brasileiro. São Paulo: Contexto, 2010.

 

CINTRA, L. F. L. Sobre as formas de tratamento na língua portuguesa. Lisboa: Horizonte, 1972.

 

FARACO, C. A. O tratamento “você” em português: uma abordagem histórica. 2011. Labor Histórico, v. 3, n. 2 (2017). Disponível em: <https://revistas.ufrj.br/index.php/lh/article/view/17150 >. Acesso em: 29 set. 2020.

 

LEÃO B.; KLASSMANN M. S.; ALTENHOFEN C. V.Variação de “tu” e “você” no português falado no sul do Brasil.Salão de Iniciação Científica (14.: 2002: Porto Alegre). Livro de resumos. Porto Alegre: UFRGS, 2002. Disponível em: <https://lume.ufrgs.br/handle/10183/76322>. Acesso em: 23 out. 2020.

 

SCHERRE, M. M. P.; DIAS, E. P.; ANDRADE, C. Q.; LUCCA, N. N. G.; ANDRADE, A. L. V. S. Tu, você, cê e ocê na variedade brasiliense. Papia: Revista Brasileira de Estudos do Contato Linguístico. São Paulo, v. 21, 2011. Disponível em: <http://revistas.fflch.usp.br/papia/article/view/1698>. Acesso em: 6 out. 2011.

 

WEINREICH, U.; LABOV, W.; HERZOG, M. Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística. Tradução de Marcos Bagno. São Paulo: Parábola Editorial, 2006 [1968].


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