Aproximadamente 17 mil indígenas fecham territórios em Santa Catarina por conta da Covid-19

Isolamento torna a realidade ainda mais vulnerável com a falta de alimentos

Por Oeste Mais

03/04/2020 14h26 - Atualizado em 17/04/2020 14h39



A pandemia do coronavírus forçou a contenção aproximadamente 17 mil indígenas em Santa Catarina. Por serem especialmente vulneráveis às doenças respiratórias, os Guarani, Kaingang e Xokleng foram alertados sobre a importância de seguir o isolamento social. Realidade mais agravada se levada em conta a informação do Ministério de Saúde, a qual coloca gripes e pneumonias como doenças que mais matam os indígenas brasileiros. Um alerta chegou via podcast às aldeias e coube aos mais jovens repassar a informação para as lideranças:

 

“O vírus passa muito rápido de uma pessoa para outra. Além disso, a pessoa que pega o coronavírus nem sempre tem sinal de gripe, por isso, é importante que vocês não saiam da aldeia”, alertou o médico e pesquisador Andrey Moreira Cardoso, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz e do Grupo de Trabalho em Saúde Indígena da Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

 

Como medida de proteção, as lideranças decidiram fechar as aldeias. Isso significa que os indígenas podem andar por dentro do território e fazer atividades, mas não podem receber visitas.

 

A professora Evelyn Marina Schuler Zea, do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), cita três situações que tornam os indígenas do Sul do Brasil especialmente vulneráveis:

 

“A localização das aldeias e acampamentos próximos das áreas urbanas, a forma de convívio social das famílias constituídas por muitas crianças e idosos na mesma moradia e o fato da comercialização do artesanato ser um dos meios de sobrevivência das famílias”, aponta Evelyn.

 

O que a professora cita já é vivenciado. A restrição de acesso às cidades provoca a falta de alimentos. Além disso, muitas famílias são usuárias do programa Bolsa Família e precisam se deslocar até bancos e lotéricas, porém, dependem de transportes públicos que não estão funcionando.

 

Ainda que consigam ir até o centro da cidade o retorno à aldeia é sempre temerário. Ocorre que métodos usados em áreas urbanas como higienizar as mãos e usar álcool em gel são impraticáveis na maioria das reservas. Os riscos são maiores se levado em conta o modo de vida dos povos indígenas, que se faz pelo compartilhamento de utensílios. Além disso, as habitações costumam ter muitas pessoas, o que pode ampliar o contágio do novo vírus.

 

“A gente está muito preocupada com o coronavírus. Além disso, a chegada do frio faz com que nossas crianças e idosos tenham outras doenças e vamos ter que buscar socorro”, diz Elisete Antunes, cacique na terra indígena Morro dos Cavalos, em Palhoça, na Grande Florianópolis.

Como medida de proteção as lideranças decidiram fechar as aldeias.(Foto: Felipe Carneiro/NSC Total)

 

A cacique lembra que neste período que antecede a Páscoa é quando as famílias costumam sair para vender artesanato e macela, planta muito usada para fazer chás. Elisete ainda complementa que “sem vendas não há renda, sem dinheiro não há comida e com isso a segurança alimentar fica comprometida”.

 

Para a liderança Eunice Antunes, a guarani Kerexu Yxapyry, o coronavírus serve para demonstrar a indiferença com que os governantes tratam os indígenas.

 

“Desde que se começou a se falar na pandemia no Brasil, nenhum governante citou a preocupação com os povos indígenas. Estou preocupada, pois se alguém na aldeia pegar, todos nesse coletivo irão contaminar-se”, afirma a líder indígena.

 

Para o guarani Augustinho Wera Tukumbu, da aldeia Águas Cristalinas, em Biguaçu, na Grande Florianópolis, o coronavírus é um grande perigo para todos, indígenas e não indígenas. Mas que pode ajudar a todos os povos e nações.

 

“Tem que olhar para a natureza, tem que não maltratar a água e a mata. Se não, a natureza se revolta e vem o vírus”, afirma Tukumbu.

 

A kaingang Joziléia Daniza Jagso, antropóloga pela UFSC e moradora em Chapecó, também respeita a quarentena imposta pelo governo do estado. Ela diz que o isolamento social faz todo sentido para os povos indígenas, mas também reclama da ausência dos agentes públicos em um momento tão crucial.

 

“Sabemos que precisamos respeitar a decisão e que historicamente parte dos nossos povos foi devastada por epidemias. Mas se não tivermos apoio do governo e da sociedade catarinense não sabemos o que irá acontecer”.

 

Para tentar minimizar o impacto das medidas sociais e econômicas, indigenistas e lideranças das aldeias do Sul do país fizeram um encontro pela internet. Foi montada a Frente Indígena e Indigenista de Prevenção e Combate ao Covid-19, com reforço das regras de prevenção, e alternativa para garantir a segurança alimentar nas aldeias. Cada uma estruturou a equipe e forma de atuação. Ficou acertado que polos da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e da Fundação Nacional do Índio (Funai) estão aptos a receber cestas básicas e produtos de higiene. Caberá ao pessoal destes órgãos fazer a higienização para evitar contágio e a distribuição do material.

Com informações do Diário Catarinense


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