Jovens com alto uso de mídias digitais têm mais risco de ter déficit de atenção e hiperatividade

Aqueles com uso frequente de mídias digitais apresentaram sintomas da doença ao longo do tempo

17/07/2018 15:26



Mensagens, posts, tuítes, streamming de vídeo, séries, games... a diversidade de conteúdos digitais é tamanha que não é raro passar o dia entre o trio celular-computador-tablet. E com isso vem as consequências. 

 

O mais novo estudo a demonstrar isso foi publicado nessa terça-feira, 17, no "JAMA", aqueles com mais alto uso de mídias digitais têm mais chance de desenvolver TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade). 

 

As evidências não são novas, mas a pesquisa tem novidades principalmente porque seguiu 2587 adolescentes por dois anos e analisou a influências das mídias contemporâneas: a maior parte dos estudos anteriores considerava o uso de mídias antes da avalanche de exposição atual. 

 

"O estudo demonstra empiricamente o que a gente já desconfiava há muito tempo. A gente vem alertando há dez anos que um pedágio seria cobrado por esse uso", diz Cristiano Nabuco, psicólogo e coordenador do grupo de dependência tecnológica do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. 

 

Nabuco destaca que as novas tecnologias reproduzem operações mentais similares a de uma pessoa que tem déficit de atenção. "É por isso que pessoas com TDAH têm mais facilidade com a tecnologia", explica.  

 

Na esteira, aqueles que não têm a condição começam a ser expostos às mesmas operações mentais de quem tem a doença, fator que aumenta o risco. 

 

Na prática, no entanto, não se pode dizer nesse momento que as mídias digitais causem o TDAH, avalia Nabuco. Há evidências de que pode fazer com que uma pessoa com predisposição genética de fato desenvolva a doença.  

 

Outro ponto, contudo, é que a tecnologia pode dificultar o controle de impulsos, aspecto que faz parte de um dos sintomas do transtorno. 

 

"O uso das telas, como a gente costuma falar, entraram pela porta dos fundos do cotidiano, de forma recreativa e sem a atenção necessária", diz Cristiano Nabuco. "Tem de haver um controle sobre o uso, no sentido de que o adolescente deve realizar suas atividades normalmente. A tecnologia deve ficar restrita ao tempo que sobrar", aconselha 

Adolescentes com uso frequente de mídias digitais apresentaram mais sintomas de TDAH após acompanhamento de dois anos (Foto: Divulgação)

Autores da pesquisa destacam que as mídias modernas não são comparáveis às tradicionais. "Há diferenças de velocidade, de nível de estimulação e potencial de estimular alta exposição", escreveram. 

 

"Novas tecnologias móveis podem fornecer estimulação rápida e de alta intensidade, acessível o dia todo, o que aumentou a exposição à mídia digital muito além do que foi estudado antes", disse Adam Leventhal, professor da Universidade do Sul da Califórnia, em nota. 

 

Segundo Nabuco, pesquisas mostram que, em 8 minutos de jogo em rede, por exemplo, há uma forte liberação de dopamina, neurotransmissor associada à recompensa e ao prazer. 

 

"Na China, a tecnologia é chamada de heroína eletrônica", diz Nabuco. "É um problema de saúde pública". 

 

A análise atual foi feita com 2587 estudantes entre 15 e 16 anos que não apresentavam sintomas ou diagnóstico de TDAH. Eles foram seguidos por dois anos. Adolescentes foram questionados sobre o uso de 14 plataformas digitais comuns. Depois das perguntas, cientistas classificaram os jovens de acordo com a frequência de uso de mídia em três categorias: sem uso, uso médio e alto uso. 

 

Os resultados da pesquisa foram os seguintes: 

 

9,5% das crianças que apresentaram alto uso em metade das plataformas pesquisadas desenvolveram sintomas de TDAH; 

 

10,5% das crianças que apresentaram alto uso em todas as plataformas desenvolveram sintomas de TDAH; 

 

4,6% das crianças que não relataram uso frequente de nenhuma mídia digital desenvolveram sintomas de TDAH. 

 

Levanthal, um dos autores do estudo e pesquisador da Universidade do Sul da Califórnia, diz que a associação é significativa, embora mais pesquisas precisam demonstrar se se trata de uma relação causal (ou seja, que a tecnologia de fato leve ao transtorno). 

 

"Nós podemos afirmar com confiança que jovens altamente expostos a mídias digitais têm mais chance de desenvolver TDAH no futuro", diz Levanthal, em nota. 

 

Além do TDAH, pesquisas anteriores demonstraram que, quanto mais cedo o uso, maior a possibilidade de problemas de desenvolvimento da linguagem em crianças. O cérebro precisa das interações sociais pouco previsíveis das relações humanas. "A criança lida com a repetição com as mídias digitais" diz Nabuco

Do G1


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